quarta-feira, 1 de julho de 2026

João Lopes, o Santa (1896-1988) - O Menino de Ouro Descobre o Anarquismo.

 Velhos Militantes

Depoimento de João Lopes, o Santa
Ângela de Castro Gomes (coordenadora), Dora Rocha Flaksman, Eduardo Stotz
Jorge Zahar Editor

- Seu João, quando e onde o senhor nasceu?

- Eu nasci numa vida agitada. Minha avó veio de Angola, escrava. Minha mãe nasceu do ventre livre. Então, desde garoto, eu fui um pouco rebelde.

- E a data e o local de seu nascimento?

- Nasci em 4 de maio de 1896, na cidade de São João da Barra, no Estado do Rio. Minha mãe era América Maria da Conceição, doméstica, e meu pai, Abrão de Sousa, marítimo. Fui o filho mais velho da minha mãe e tive sete irmãos.

- O senhor sabe como sua família foi parar em São João da Barra?

- Quando minha avó chegou, escrava, foi vendida para um fazendeiro do Espírito Santo que tinha terra perto de Itabapoana. Lá nessa fazenda ela viveu até quando veio a libertação de 13 de maio. Aí se juntou com outra mulher chamada Rosara, que também tinha vindo de Angola, e enquanto ela mesma foi ser babá de uma dona, essa Rosara criou a minha mãe. Como você sabe, o fim da escravidão teve um ponto bom e um ponto ruim. Porque o dinheiro que elas ganhavam - três patacas, como se dizia naquela época não dava para viver. Como escrava, minha avó tinha direito a um médico, a um tratamento, porque ela era um capital, desde que estava em serviço, produzindo. O que aconteceu com a libertação? Soltaram as escravas, e com um salário de três patacas elas não podiam viver.

Essa Rosara então veio para São João da Barra com a minha mãe, para fazer companhia a um português que tinha dinheiro. Minha avó ficou com essa dona que ela criou e só veio depois, quando eu já tinha nascido. De vez em quando ela chorava, porque nunca mais soube notícias dos parentes, nem os filhos ela sabia onde estavam. Teve um homem chamado Lídio que juntou com a minha avó - naquele tempo não casava, juntava. Vi esse homem uma vez quando era garoto, na cadeia de São João da Barra, e a minha avó dizia que ele tinha matado um camarada. Depois ela casou com outro.

Mas tudo aquilo que a minha avó contava - ela tinha muito carinho comigo - ficou no meu sangue. Eu ficava revoltado, indignado com aquelas histórias. Cheguei até a ser um moleque meio marginal. Agora, honesto: nunca roubei ninguém. Só vivia na rua brigando, rasgando os outros.

- E seu pai, onde trabalhava?

- No começo, ele trabalhava na companhia de navegação do Coronel Chico Pinto. Porque os navios saíam do Rio de Janeiro, iam até São João da Barra, descarregavam, e de lá as embarcações de água doce subiam o rio Paraíba para levar as mercadorias para as cidades, até São Fidélis. Mas só fui conhecer mesmo o meu pai mais tarde, em Campos. Minha mãe se aborreceu porque ele bebia um bocado, e se separaram quando eu ainda era pequeno. Tive então um padrasto, um bom padrasto, que depois morreu afogado.

- O senhor foi criado por seu padrasto?

- Não. Vendo que eu vivia na rua brigando, minha avó pediu ao seu Carrazedo para tomar conta de mim. Seu Carrazedo era um francês que tinha uma loja de fazendas, e a minha avó era empregada dele. Então fui morar na casa do Carrazedo. Ele tinha uma filha, tratada de Lulu, uma irmã, Custódia, e a mulher, Mãe laiá, Dona Maria Francisca. Elas não podiam comigo. Mãe Iaiá tinha um oratório bonito com cordões de ouro e um Santo Antônio. Quando ela não me dava o que eu queria, eu pegava aquela bola e dizia: "Olha que eu quebro este oratório!" Ela contava para o Carrazedo, ele me chamava, não batia, mas me dava uma lição: "Olha, rapaz..."

Também passei por uma questão racial danada em São João da Barra, e o Carrazedo tomou o meu partido. A primeira briga que ele teve lá foi quando mandou matar um cachorro que tinha me mordido. Por minha causa, rompeu com uns capitalistas da época. Tinha um sujeito lá, Francisco de Oliveira, chefe dos Correios, que brigou com ele e vivia dizendo: "Não vou na casa do Carrazedo, com aquele negro comendo na mesa." E o Carrazedo respondia: "Quem manda na minha casa sou eu, branco sou eu, que sou francês, o reste é tudo mestiço."

- O senhor freqüentou alguma escola?

- Duas. Em São João da Barra tinha três escolas: uma, a Professor Moreira,era só de filho de rico. Na outra, Amélia Ramos, estudei um bocado. Estudei também na Idalina Machado, escola pública. Mas aí veio a coqueluche, e eu não podia ir à escola porque era doença contagiosa. Veio a bexiga - hoje é varíola - e eu não podia ir de novo para não passar para os outros. Aí ficou o seguinte: a Lulu me dava alguma explicação. Acho que na escola mesmo fiquei uns três anos, não cheguei a tirar o primário. Agora, eu era muito afamado. Escrevia bem, isso tudo. O colégio era masculino e feminino, tudo junto, e era eu que tomava conta das meninas, não deixava os garotos baterem nelas. As mães me entregavam as meninas para eu levar para a escola, e ninguém mexia com elas porque eu era brabo mesmo.

- O senhor teve educação religiosa?

- Minha família era toda religiosa, e o seu Carrazedo era da Irmandade do Sacramento. A Lulu engomava as roupinhas dos santos, as toalhas. Também, ela não tinha o que fazer. Era considerada a menina mais bonita do local, era desejada, todo mundo queria namorar com ela, mas ela não dava confiança. Tinha uma cachorrinha e três gatos. Lavava os gatos, botava perfume neles, e aqueles cavalos sempre traziam coleiras bonitas do Rio, de presente, mas ela não dava importância. Tratava todo mundo muito bem, era fina, mas democrata. Agora, de namoro, ela não dava essa conquista.

Uma vez aconteceu um caso: apareceu uma criança afogada no Paraíba, e começaram a dizer que era filho da Lulu. Minha mãe, minha avó, até eu fui à polícia - queriam saber se eu tinha visto a moça doente em casa, alguma coisa assim. Nunca vi nada, e olha que eu vigiava muito ela, era muito fiel a ela. Mas foi uma trapalhada danada, e o Carrazedo passou muito mal. Foi para a Inglaterra tirar banha do coração e morreu no meio do caminho. Naquela época, gostei quando ele morreu. Tinha uns 12 anos, vivia preso com a Lulu e a cachorra na janela vendo os moleques na rua, e achei que tinha ficado livre.

Logo a primeira coisa que eu fiz quando soube da morte dele, todo mundo de luto, foi sair e ir a um teatro de revista. Caiu a noite e eu nada de voltar, o povo todo me procurando. Quando voltei, Mãe Iaiá me disse: "Agora que o seu Carrazedo morreu, a coisa é outra. Você fica almoçando e jantando aqui, mas vai dormir na sua casa. Que emprego você quer?" Eu disse: "Quero ser alfaiate." Ela mandou chamar o alfaiate, me botou para trabalhar com ele, mas cheguei lá, e o camarada queria que eu passasse o dia varrendo o chão. Eu pensei: "Ele quer é me fazer de empregado para eu limpar a casa dele; não vou mais lá, não." Mãe Iaiá perguntou: "Então o que você quer?" Respondi: "Quero ir para o estaleiro do Coronel Cintra."

- Havia um estaleiro em São João da Barra?

- Dois. Um era do Coronel Cintra e o outro do Coronel Chi¬co Pinto. Dividíamos a cidade em duas, um pedaço de cada coronel.

Muito bem, fui para o estaleiro. Queria ser torneiro-mecânico, mas o mestre, embora sendo preto, não admitia pretos. Era um racismo danado. Fui então ser ajudante de locomóvel, uma máquina de apitar. Às seis horas da manhã, eu já estava entrando para dar o primeiro apito das seis e meia. Depois me tiraram da máquina e me botaram como ajudante de ferreiro. Fui tocar forja no arrebite, e aquilo queimava a gente todo. Eu também era safado e queimava os outros. Aí me passaram para a carpintaria. Eu ficava lá botando fogo para dar volta na madeira. Aprendi um bocado. Mas um dia um compadre do mestre apanhou o serrote e escondeu. O mestre me perguntou: "Cadê a caixa de ferramentas?" Eu disse: "Sei lá!" Ele me deu seis bolos, e por causa dessa sova saí do estaleiro.

- E para onde o senhor foi?

- Um companheiro me disse: "Vamos trabalhar como cigarreiro, a gente ganha mais." A gente fazia os maços, botava os rótulos, e de trezentos réis por dia passei a ganhar mil e duzentos. Mas um dia cheguei na casa de Mãe Iaiá, e ela falou: "Você está com catinga de fumo! Você anda fumando?" Respondi: "Eu, não." Mas ela chamou a minha mãe e disse: "Olha, leva ele para casa, porque ele já está fumando e daqui a pouco dá para beber."

- Nessa época o senhor morava com sua mãe?

- Morava. Quando voltei para casa, depois que o Carrazedo morreu, sofri um bocado, porque estava cheio de dengo, e a minha mãe me castigava, me botava para trabalhar. Ela não quis mais aquele negócio de cigarreiro, então saí e fui para a padaria. Ela se dava muito com o dono, o João de Oliveira Cintra, e falou com ele para eu ir trabalhar lá.

Mas antes disso fui um moleque perverso. Tomava conta de menino, filho de fulano, filho de sicrano, pegava os garotos e fazia eles aprenderem a nadar a pulso. Tomei conta de um, o Pedro Nolasco, que depois foi até secretário do presidente do estado em Niterói. A minha avó era empregada da mãe dele. Mais tarde, quando fui preso, ele foi lá na prisão e me ajudou. Mas logo depois me mandaram para a Ilha Grande.

Antes de eu ir para a padaria, também aconteceu um caso comigo. Tinha um camarada lá que era contraventor de bicho, brigado com o tabelião. Era uma briga política, questão de partido, e o tal contraventor jogou um tijolo e quebrou a telha da casa do outro. Eu ia passando com um companheiro, veio aquela correria, e a polícia saiu atrás de nós. Me botaram na prisão e disseram que no dia seguinte iam me mandar para a Escola de Aprendizes Marinheiros aqui no Rio.1 Era o tempo da chibata, e se apanhava feito um endiabrado.

Acontece que tinha chegado lá em São João da Barra o dr. Chaves Pena, sobrinho do presidente da República Afonso Pena. Aliás, ele foi abandonado pela família, porque chegou a vestir batina, mas gostou de uma menina e resolveu casar. A família se revoltou contra o rapaz e deixou ele na miséria. Ele então foi ser dentista em São João da Barra. A minha tia lavava roupa para ele e foi lá: "Doutor, doutor, o João vai ser deportado para o Rio, vá lá acudir ele." Ele se vestiu, foi à delegacia e disse: "Quero saber qual é o delito pelo qual vocês vão desterrar este rapaz. Quero uma testemunha que tenha visto ele jogar o tijolo." Disseram: "É, e tal, mas a mãe dele não agüenta com ele..." E o doutor: "Não interessa, o senhor não pode fazer isso. A lei não permite." Então fui solto e não fui deportado. Aí é que eu fui para a padaria. No dia em que fiz 15 anos comecei a trabalhar lá, e lá fiquei cinco anos.

- O que o senhor fazia na padaria?

- No começo me disseram: "Você vai trabalhar no balcão, entregar pão nas casas." De entregador passei a padeiro, e de padeiro passei a mestre. Esse João de Oliveira Cintra botou um camarada para me ensinar a ser fogueiro, biscoiteiro, tudo isso. Ele foi um pai para mim, igual ao Carrazedo.

- O senhor gostava dele?

- Não, não gostava. Ele é que tinha que gostar de mim, por que ele tinha um passado com uma prima minha. Teve um filho com ela, e depois o menino desapareceu. Eu sabia dessa patranha, a mulher dele era muito nervosa e desconfiava. Ele me protegia por isso, porque eu guardava esse segredo.

- Nessa época havia alguma organização de padeiros em São João da Barra?

- Não tinha nada de organização. Tinha era clube carnavalesco e banda de música. Eu queria entrar para o Clube Concha, mas não podia porque era preto. Só entrei porque uma senhora me ajudou. A minha mãe tinha dado leite para o filho dela, o Cícero, que depois foi prefeito de São Fidélis, de maneira que ela tinha cotação. Com a banda de música foi a mesma coisa: não aceitavam pretos.

Mas eu sempre fui apaixonado por música, então estudei particular e aprendi a tocar violão.
Mas nessa época tive um desentendimento com a minha mãe. O meu padrasto morreu afogado no rio, e um dia me disseram: "Olha, a tua mãe está encostando naquele camarada assim, assim." Foi uma coisa! Me deu vontade até de tirar a vida. Larguei tudo e fugi para Niterói. O João Cintra mandou me buscar, porque eu era de menor, e quando cheguei preso, com dois guardas, a rua encheu: "Fujão! Fujão!"

Tinha chegado a São João da Barra uma moça branca, chamada Dalila, que começou a conversar comigo, me aconselhou a não fazer mais aquilo. Disse que gostava de mim. Nunca tive esse negócio de amor, eu era é farrista. Mas ela tomou aquele capricho. E aí a minha mãe fez política contra mim e contra ela, jogou o João Cintra contra mim. Ele disse: "Boto uma padaria para você, mas você arranja uma escurinha para casar. Você não sabe que negro não pode namorar com branca?" Assim, na minha cara. Aquilo doía. A velha Rosara então me deu um dinheiro, comprei tijolo, fiz uma casa bonita, e aí é que a coisa danou. Apareceram umas três querendo casar comigo. Eu só tinha vontade de casar com uma, chamada Clarinda, que me salvou um dia que eu caí dentro do rio, enterrei na lama e ia morrendo afogado. Ela gritou, e os pescadores me tiraram lá do fundo. Mas ela ficou noiva, e a mãe dela um dia saiu atrás de mim na rua e me deu com um sapato na cara. Tive que correr. Problema sério na minha vida...

- O senhor trabalhou na padaria do João Cintra dos 15 aos 20 anos de idade.

- É, saí em 1916. Por causa desses aborrecimentos com a minha mãe, fui-me embora para Campos. Fui trabalhar na padaria da Madame, na rua 7 de Setembro.

- Como era o trabalho nessa padaria em Campos?

- Mais ou menos a mesma coisa. Mas a maioria das padarias em Campos era de italianos, e eles também faziam macarrão. Comecei lá como padeiro, embora já fosse forneiro. Preparava a massa, e trabalhava com tanta agilidade que fiquei conhecido como "Menino de Ouro".

Agora, tinha o seguinte: lá em Campos, tanto os padeiros como os forneiros trabalhavam a noite toda e saíam de manhã para entregar pão na rua. O pessoal saía daquela quentura do forno para apanhar chuva. Resultado: muitos caíam doentes. Outra coisa é que as padarias pagavam 30 mil-réis e davam o almoço, mas tinha que ser às 11 horas em ponto. Se o camarada chegasse atrasado, perdia a bóia e tinha que ir comer no botequim, pagando. Então, todo mundo marcava encontro de manhã no mercado, depois de entregar o pão, para não dormir e perder a hora. Lá na minha padaria era eu que entregava a comida, e ficava com uma pena danada. As vezes chegavam dois ou três atrasados, e eu dizia: "O tabuleiro já subiu, vocês têm que ir comer no botequim." Às vezes o sujeito não tinha dinheiro, tinha que pedir emprestado. Isso foi me fazendo uma revolta.

O pessoal lá vivia dizendo: "A gente tem que acabar com esse negócio de padeiro entregar pão e perder a comida se chegar atrasado. Vamos fazer uma greve!" Eu digo: "Vocês todo dia dizem que vão fazer greve e na hora ninguém faz." Eles: "É nessa semana." Nada. AÍ eu me enfezei: fiquei com pena de uns três que perderam o almoço e não tinham dinheiro para a comida, e disse: "Ah, a greve é agora mesmo!" Puxei a toalha, joguei tudo no chão e saí correndo pelo corredor. A Madame, que era italiana, gritava: "Gioani! Ficou maluco, Gioani!" E eu: "É greve! É greve!" Daí a outra padaria que era mais na esquina se juntou, e ferrou a greve. Fui muito aplaudido pelos companheiros, e foi aí que eu conheci o chefe dos anarquistas, o Valdomiro da Fonseca Teles. Era um camarada que passava meses trancado dentro da padaria, só de tanga. Era gordo e forte, e os patrões tinham medo dele. Deitava nu em cima do tabuleiro, dizia palavrão, esculhambava todo mundo: "Galego filho da puta!" Também, com um revólver na cinta, quem é que ia querer negócio com ele?

- Vivendo trancado dentro da padaria, ele tinha contato com os outros padeiros?

- Tinha, os padeiros iam de noite lá na padaria dele para conversar. Eu não ia não, só ouvia falar. Nesse dia da greve, ele mandou me chamar para conversar com ele, e eu fui. Aí disseram: "Olha, vamos formar esse negócio de Liga dos Padeiros." Assinei e fiquei como sócio.

- O que é que a Liga se propunha fazer?

- O programa foi este: acabar com essa história de padeiro entregar pão na rua, que botassem outro encarregado. E acabar com o almoço. Em vez de 30, pagar 70 ou 80 mil-réis a seca. E também fazer revezamento: trabalhamos à noite e só à noite. Pegamos das três da tarde às oito da manhã, e não vamos ficar até uma, duas horas da tarde para fazer rosca e biscoito.

- Desse jeito os padeiros trabalhavam 24 horas por dia!

- Padeiro só tinha descanso sabe que dia? Sexta-feira da Paixão. Nesse dia, a gente pegava às dez da noite.

- Além da Liga dos Padeiros, havia alguma outra associação de trabalhadores em Campos nessa época?

- Tinha a Liga dos Carroceiros, que eram os anarquistas mais brabos de Campos. Brigavam, batiam, quebravam, faziam o diabo.

- O senhor se lembra de alguma ação, alguma outra greve que os anarquistas tenham promovido nesse período?

- Depois da greve dos padeiros, fui morar na casa do Fonseca. Aí ele fazia o seguinte. Virava para mim e dizia: "Menino de Ouro, você vai para Tocos - era no município de Campos - e acaba com a padaria de lá. O dono manda os padeiros lavarem cavalo! Acaba com aquilo lá." Eu ia e acabava.

- Como?

- Sabotando. Por exemplo: na padaria, tinha um bolo de massa com fermenta pesando um quilo. Na dia seguinte, a gente juntava mais massa e aumentava a bolo para três, de três aumentava para dez, vinte quilos. Mas se a gente lavar a mão cam sabão virgem antes de desmanchar aquele bolo de massa, o pão não cresce, e o sujeito não descobre o defeito. Sem pão, a padaria vai à falência. Acabei com duas padarias em Campos.

O Fonseca sabia cem mil segredos de padeiro. Ensinava também a fazer bomba-relógio, o diabo. Agora, isso era uma coisa que eu não topava nos anarquistas: andar com bomba.

- Valdomiro Fonseca foi preso alguma vez?

- Não, pelo seguinte: nessa época não havia reação policial. Se um camarada era preso, logo era mandado embora. O Fonseca não tinha medo da polícia, não tinha medo de ninguém. Só mais tarde é que ele acabou assassinado, perto de Friburgo.

- Ele lia algum livro, mandava os outros lerem? O que ele dizia que era a anarquismo?

- Ele lia, tinha livros, e ensinava os padeiros na questão social. Dizia que o anarquismo ia salvar o mundo. Hoje nós vemos que é o socialismo. Os anarquistas não queriam saber de educar o povo, não. Iam na força: "Esse camarada não vai fazer greve, não? Mete o pau nele, derruba ele no cacete!" Eu achava isso um pouco brabo.

- Os padeiros também se reuniam na casa do Valdomiro Fonseca?

- Tanto nos reuníamos na casa dele como tínhamos um encontro diário de manhã num botequim na rua Aquidabã. Lá é que iam as pessoas do interior procurando padeiro: "Não tem um padeiro aí que queira ir para tal lugar?" A gente avisava os outros: "Vai lá no botequim que tem uma vaga não sei onde."

Comigo aconteceu até um caso muito grave. Eu já estava disposto a deixar a vida de padeiro, não agüentava mais aquilo, mas fui convidado lá no botequim para tomar conta de uma padaria em Barcelos, levando mais dois rapazes. O Fonseca disse: "Vai, vai, para lá." Ele é que mandava, que dava opinião. Fui então como forneiro, e levei o Zé Caolhinho e o Zé Marcante como padeiros. Mas chegamos lá e só trabalhamos uma noite. O dono da padaria estava estirado com a gripe espanhola, e no final de uma noite nós três arriamos. Saí de manhã sem ver nada, com uma febre medonha, voltei para Campos e passei na casa de uma senhora chamada Carola, para pegar umas roupas que eu tinha guardado lá. Era uma senhora casada, que me estimava muito porque eu passeava com o filhinho dela, jogava bola com ele. Eu ia para o hospital, mas ela disse: "Não, você vai ficar aqui em casa. O meu filho já está caído de febre, eu cuido dos dois. Quando o meu marido chegar, converso com ele." Quando o marido chegou, não gostou do negócio.

- E o senhor se recuperou?

- Me salvei porque tinha um médico à disposição. Quem ia para o hospital morria. Fiquei lá um mês e pouco, e aí decidi mesmo que não ia mais ficar na vida de padeiro. Combinei com um primo meu de vir para a Rio de Janeira, fui lá na botequim e avisei aos companheiros: "Vou I11e embora, que a ambiente não está bom lá na casa dessa dana." O marida não estava satisfeito de eu estar morando lá, embora eu respeitasse ela como respeitava a minha mãe. Ela foi um braço que me auxiliou, me salvou da espanhola. "Vou me embora para o Rio, sentar praça na Corpo de Bombeiros." Eles disseram: "Você não pode ir! Não podemos perder a Menina de Ouro!" Estava Já no botequim um engenheiro, que ouviu aquela conversa e perguntou para o gerente: "Quem é esse rapaz? Ele é bom assim coma estão dizendo?" O gerente respondeu que sim, e a outro falou: "É que recebi uma carta da minha irmã pedindo para eu procurar um padeiro para ir para a fazenda dela, em Quiçamã."2 O gerente me chamou, a homem falou comigo, disse para eu ir ver cama era a negócio, que se não gostasse eu ia embora, e no fim me deu 25 mil-réis para a viagem. Mas aí encontrei com o pessoal da banda de música - eu tocava clarineta -, e as meninas não me deixaram ir no dia marcado, parque ia ter uma festa. Eu me meti no baile mesmo e não apareci na casa do homem. O pessoal dizia: "O homem está te procurando!" E eu: "Ai, que eu estou enrascada..."

- Seus companheiros anarquistas aprovavam que o senhor tocasse na banda, fosse a bailes?

- Não, criticavam, achavam que eu perdia muito tempo com as meninas. Também não gostavam muita que eu jogasse futebol. Mas eles não mandavam em mim. Eu era um sujeito autônomo nesse negócio. Não respeitava ninguém, fazia o que eu queria, ninguém podia me manobrar. Uns cinco eu carreguei para o meu grupa de música.

- E onde o senhor jogava futebol?

- Nos clubes. Joguei no Lacerda, no Paladino, na Selva, na Norte-Guanabarense, na Liga do Avante. Uma vez teve um joga lá, numa festa de doutores, e o dr. Coelho das Santos me pediu para jogar. Fui com mais dois, e no fim eles nos pagaram e nos mandaram embora, não deixaram a gente ficar na festa porque a gente era preto. Fiquei muito aborrecido.

Mas aí, como eu ia dizendo, resolvi ir mesmo para Quiçamã, para ver como era aquela história. Isso foi mais ou menos em dezembro de 1918, depois que a guerra acabou. Peguei um trem e fui. Ah, vou lhe contar!

- O que aconteceu?

- Quando a trem parou na estação, tinha uma casa comercial enorme, e eu me apresentei ao camarada no balcão. Ele falou: "Ah, é você, seu moleque safado! Trapaceiro! Que apanhou o dinheiro da minha tia e não apareceu! Aqui você vai andar na ordem!" Eu, todo metido, chapéu castor, guarda-chuva, sapato amarelo de abotoar da lado, todo fino, receber uma esculhambação dessas na vista de todo mundo! Já não gostei. Dali a pouco chegou o trem deles, que ia para a fazenda, e o homem chamou o chefe do trem: "Leva esse moleque trapaceiro lá para a fazenda." Assim ele me tratou. Eu até conhecia o chefe do trem, e assim que começamos a andar ele me disse: "Rapaz, como é que você veio parar aqui? Daqui você não sai nunca mais! Só fugindo. Isto aqui é um feudo."

- O senhor se lembra do nome do dono da fazenda?

- Não. Mas tudo lá era parente, cada um tinha uma fazenda. Só casava primo com prima, tudo a mesma família.

Dali a pouco o trem pára na ponta final, e vem outro parente: "Moleque trapaceiro, e tal..." Eram cinco da tarde, estava chuviscando, abri o meu guarda-chuva e dei para chorar que foi uma coisa horrível. "Onde é que eu me meti? Estou desgraçado, nunca mais vau sair daqui." Afinal veio um sujeito num carro de boi me buscar. Me levou para a casa do delegado Juanito, e o delegado veio de novo com esculhambação, perguntando ande eu nasci, se era casado, se fumava, se bebia. No final ele perguntou: "Você é padeiro mesmo ou é conversa fiada? Porque já esteve aqui um padeiro do Rio que não sabia fazer pão, dei uma sova nele e mandei embora." Aí chamou as duas filhas, que eram adotivas. Desculpe eu usar essa expressão, mas havia esse direito de pernada: as meninas eram filhas de lavrador que ele batava dentro de casa para serem amigas dele. Bem, chegaram as meninas com uma bandeja, e ele disse: "Sabe fazer pão coma esse?" Eu respondi: "Igual a esse, não, que isso não é pão. Isso é bolo de massa. Sei fazer melhor. "

Já tarde da noite cheguei na sede da fazenda. Era um palácio! Chorei a noite toda pensando: "Nunca mais vou sair daqui!" Que o chefe do trem tinha dita: "Só fugindo."

- Quanto tempo a senhor ficou na fazenda?

- Dois anos. E saí fugido. Montei a padaria lá, e todo o dinheiro que eu ganhava guardava para poder fugir. Porque eu não podia sair de lá. Como é que eu ia fazer, se eles não deixavam?

- E como foi que o senhor fugiu?

- Desculpe eu dizer, mas aconteceu que eu gostei de uma pequena, filha de uma criada da fazenda, morena bonita, e fiz mal a ela. Ela ficou grávida, a mãe descobriu, e tive que fugir mesmo. Combinei com ela: "Olha, vou para Campos e depois mando te buscar." Vendi o meu cavalo, peguei o dinheiro, deixei a mala com tudo meu e fugi com um companheiro que sabia o caminho.

- O senhor foi para Campos.

- É. Quando cheguei, fui procurar aquela senhora Carola, que me salvou da espanhola. Ela também era uma morena bonita, desejosa, e me acoitou outra vez, porque lá em Campos também tinha parentes do pessoal de Quiçamã. Fiquei três meses escondido. Um dia chegou a notícia de que a minha pequena de Quiçamã tinha morrido, e o garoto também. Essa senhora Carola foi lá, arranjou de trazer a minha mala, que estava perfeita, com tudo dentro, e aí eu disse: "Bom, agora chegou a hora. Agora vou-me embora para o Rio de Janeiro."

Notas

1 - A Escola de Aprendizes Marinheiros do Rio de Janeiro foi criada por decreto imperial em 1885 e é um exemplo de instituição cujo objetivo era recolher e educar crianças órfãs, pobres ou abandonadas. O medo que João Lopes transmite ainda hoje ao relatar a possibilidade de seu envio a esta escola é elucidativo do teor da disciplina que aí imperava e da fama que ela possuía em inícios do século.

2 - As terras de Quiçamã, povoadas a partir do século XVII, situam-se na região dos Campos dos Goitacases, próprios à exploração da cana-de-açúcar. O grande proprietário da área no período imperial foi José Carneiro da Silva, primeiro visconde de Araruama, antepassado comum de uma numerosa família mantida unida por freqüentes casamentos consangüíneos. Até hoje, Quiçamã - distrito de Macaé - abriga as ruínas de velhos casarões, sedes das fazendas de Mato de Pipa (a mais antiga), Machadinha (1867), Mandiquera (1874), Boa Esperança (1883) e Quiçamã, que, data de inícios do século passado e chegou a possuir 48 quartos.



Do samba ao sindicato comunista

- Em que ano o senhor chegou ao Rio de Janeiro?

- Cheguei aqui em 1921. Eu tinha dois parentes aqui, um tio que morava na Gamboa e o meu primo Antônio Carlos, que tinha vindo de Campos antes de mim. Fui procurar esse meu tio e fui muito mal recebido: "O que é que você veio fazer aqui agora, nesse momento?" Estava havendo uma greve dos marinheiros remadores, e todo mundo estava desempregado.3 Só no quarto do meu tio tinha nove pessoas dormindo no chão, em cima de jornal. Ele também já sabia da minha vida, porque a minha mãe escrevia para ele reclamando, e foi logo me esculhambando: "Não quero confusão aqui com você." Eu disse: "Que confusão nenhuma, rapaz! Sou de maior, portanto agora mesmo vou embora."

Logo no dia seguinte, fui ao Corpo de Bombeiros. O camarada que me recebeu fez uma pesquisa sobre a minha compreensão de música: "Conhece música?" Eu: "Conheço, clave de sol, clave de dó..." Expliquei tudo direito, e ele ficou satisfeito. Mas deixa que eu estou vendo aquela torre lá no meio do pátio, e uns soldados se jogando lá de cima. Aí eu perguntei: "Músico também faz isso?" Ele disse: "Faz, tem que fazer." Eu digo: "Espera aí, então não quero, não."

- O senhor queria mesmo era tocar na banda.

- É. Aí então fui procurar o meu primo Antônio Carlos, que era caldeireiro. Ele me levou a uma oficina de caldeireiros de ferro em Niterói, uma oficina dos anarquistas.

- Esse seu primo era anarquista?

- Era anarquista, mas era contra a ação dos anarquistas, por causa das bombas, dessas coisas. Não tinha coragem de enfrentar isso, e aliás eu também não. Sabotagem eu sabia fazer, mas de bomba eu não gostava. Muito bem. Fomos então a essa oficina em Niterói, uma oficina muito bem montada, com altos e baixos alugados para restaurante, com máquinas modernas e tudo o mais. Mas tinha um problema. Se o camarada mandasse o ajudante fazer alguma coisa, ele respondia: "Eh companheiro! Você também está feito capitalista? Aqui manda você e mando eu, e não vou fazer isso porque estou cansado." Ninguém tinha autoridade para falar com o outro. Resultado: eles fizeram um contrato com a Marinha para fazer embarcações e não entregaram na data marcada. Tiveram que penhorar a oficina ao governo.

- O senhor chegou a trabalhar nessa oficina?

- Não. Fui só conhecer. Depois disso, fui com a minha carteira no Sindicato dos Padeiros. Seu Antônio José da Silva era o presidente, e fui muito bem recebido. Mas não gostei, sabe por quê? Porque era tudo anarquista espanhol, de camisa suja, deitado no chão com o chapéu na cabeça. Não topo esses caras de camisa sebosa. Eles me perguntaram se eu queria trabalhar como padeiro, e eu disse que não.

- Qual foi o seu primeiro trabalho aqui no Rio?

- O meu primeiro trabalho aqui foi na Ilha dos Ferreiros, na ponta do Caju. A companhia lá parece que era inglesa. Mas juntava muito ladrão por ali, e eu não me dei com aquilo. Os caras roubavam peças e de noite iam para lá vender. Eu ficava até besta! Porque eu sempre fui contra essas desonestidades. Fiquei poucos meses e saí. Mas lá encontrei cinco campistas, me juntei com eles e comecei a tocar música em Santa Teresa. Nessa época, encontrei também dois rapazes de São João da Barra, o Aristides Henrique e o Oscar Pinto. Vieram para o Rio e ficaram anarquistas. O Aristides Henrique então me levou a uma oficinazinha na rua Haddock Lobo. Cheguei lá e vi uma farda do Exército. Perguntei de quem era, e eles disseram: "Isso é do Rocha." Era o Manuel Alves da Rocha.4 "Ele é dos metalúrgicos, está no Exército, mas vem aqui fazer biscates. O pai dele foi anarquista, carroceiro brabo." Daí a pouco o Rocha chegou, me apresentaram, e ele disse: "O Aristides Henrique sempre fala de você. Mas aqui não tem lugar para você não, aqui só tem uma forjazinha, só tem biscate." Aí o Aristides Henrique tomou a frente: "Deixa ele comigo, que eu vou arranjar trabalho para ele." E me arranjou para vir para a oficina do Cais do Porto, como ferreiro. Entrei em 1922 e fiquei lá quatro anos.

- Como era essa história de tocar música em Santa Teresa?

- Eu morava na Saúde, mas me meti logo em Santa Teresa, conheci lá uma porção de músicos e tocava por aí. Tocava na praça Onze, tocava com Pixinguinha, era uma farra danada. Arranjei uma senhora que me protegia, me dava almoço e jantar. Depois abandonei aquele pessoal e formei cá mesmo na Saúde um bloco carnavalesco, chamado Bloco do Casquinha. Sabe por que esse nome? Antigamente, havia um baile, e ficava o sujeito na porta até que aparecia um conhecido e botava para dentro. Esse cara, a gente chamava de "casquinha". O bloco era grande, tinha mais de 40 aderentes: jornalista, estudante, gente do comércio, operário, tudo isso. E todo mundo se dedicava, porque carnaval naquela época era um mês antes e um mês depois. Um mês antes, todo dia era batalha de confete. Um mês depois tinha a mi-carême.

Quando entrei para o Cais do Porto, os metalúrgicos de lá começaram a me imprensar: "Vamos formar uma banda de música aqui, tal e coisa..." Mas não achei músico ali e não topei. O Aristides Henrique era músico, mas não trabalhava lá, embora tivesse muita força lá dentro. Foi ele que me apresentou ao Olinto Rabelo, ao José Casini,5 esse pessoal todo anarquista. Nessa época apareceu aqui também o Amaro de Araújo,6 vindo do Norte. Um dia, o Rocha me falou: "Olha aqui, vamos nos ligar ao Amaro de Araújo, que tem grande compreensão aí com o pessoal da política, para a gente reabrir o sindicato."

- Era o Sindicato dos Metalúrgicos, que nessa época estava fechado.

- É. Estava fechado o sindicato, mas eles clandestinamente se reuniam. Naquela época não havia união. Caldeireiro era caldeireiro, fundidor era fundidor, depois é que foi feita a fusão disso tudo. Foi quando reorganizaram o sindicato e botaram o Amaro de Araújo como presidente.

- O senhor entrou para o Sindicato dos Metalúrgicos quando ele foi reorganizado?

- Pois é. O Aristides Henrique sempre me dizia: "Como é rapaz? Entra para os metalúrgicos, rapaz!" E eu: "Não, espera lá."Eu não sabia o que fazer. Até que um dia eu disse: "Eu entro. Mas vocês vão fazer o seguinte: vocês me dão a sede do sindicato para eu fazer a festa do Bloco do Casquinha." Eles disseram: "Vocês podem fazer a festa, mas têm que entrar todos como sócios." Eu perguntei: "Quanto é?" Eles: "Dois mil-réis por mês." Levei mais de 30 pessoas, gente do comércio, disso e daquilo, e todo mundo pagou. Um diretor lá disse: "Mas isso não pode! Não são metalúrgicos!" A maioria então resolveu que depois, quem fosse alfaiate ia para os alfaiates, quem fosse padeiro ia para os padeiros. Aceitaram, e entrei com o meu povo todo. Logo na primeira reunião o Casini disse: "Olha, quando eu e o Claudino Peixoto levantarmos, você levanta. Quando a gente sentar, você senta." Eu disse: "Bom..." Não estava achando muito prático não, eu queria era farra, não é? Mas acabei ficando.

- A que corrente política pertenciam essas pessoas que diziam para o senhor levantar e sentar junto com elas?

- Tínhamos esse pessoal como anarquista.7 Eu sei é que aí nós fizemos lá no sindicato uma escola de música e uma escola de mecânico. A sede vivia cheia.

- O senhor tinha contato com Amaro de Araújo?

- Tinha. Ele confiava muito em mim, porque tinha uma cunhada, meninazinha, que se engraçou para o meu lado, e eu ficava sempre por perto, para ele me dar instrução sindical. Ele então começou a me levar, eu e o Rocha, na casa de um deputado chamado Gusmão. Chegando lá, eles escreviam uns manifestos para sair no jornal e mandavam a gente assinar. Eram uns manifestos metendo o pau nos anarquistas. O Rocha era distraído, não prestava muita atenção e assinava. Eu também. Até que um dia o Olinto Rabelo me chamou: "ô rapaz, por que é que vocês estão assinando isso, metendo o pau na gente?" Eu disse: "Eu não sei! O Amaro de Araújo leva eu e o Rocha para almoçar na casa do Gusmão e manda a gente assinar." O Casini falou: "Olha, rapaz, você está servindo de instrumento aí para os outros, está sendo enrolado. Você sempre foi um rapaz muito bom, muito recomendado, mas caiu nas águas do Amara de Araújo. Ele é um policial." Eu disse: "O quê?!" E aí foi que eu entendi. Quando tinha reunião lá no sindicato, o Amara de Araújo me dizia: "Olha, tem um cara lá dentro da secretaria. Fica com a chave e não deixa ninguém entrar." Eu via o cara ali, mas não estava sabendo quem era e não ligava. Teve um outro caso também: um dia o Amaro de Araújo levou eu, o Rocha e o Pedra de Sousa na rua Teófilo Otoni, porque ia ter uma reunião. Estávamos no botequim defronte tomando café quando vimos a polícia chegar, invadir a casa, prender o pessoal e dar pancada. O Amaro de Araújo viu aquilo e disse: "Vamos embora."

- Que reunião era essa?

- O Amaro de Araújo disse que era uma reunião de comunistas. Bom, mas aí o pessoal falou: "Olha, vamos fazer uma assembléia para botar o Amaro de Araújo para fora, e você e o Rocha vão contar tudo o que ele fez com vocês." Eu disse: "Está bem, eu conto."

Marcaram o dia, abriram a reunião, discutiram, e o Aristides Henrique falou: "Quero dar a palavra ao companheiro João Lopes de Souza, que tem muito o que contar." Falei então tudo o que eu tinha visto, disse que ficava um homem na secretaria, que eu não sabia quem era - mas era um policial espiando quem falava mal do governo -, contei que o Amaro de Araújo nos levou lá na rua Teófilo Otoni para ver o pessoal sair espancado, tudo isso. Ih, rapaz! Aí eu disse para o Amaro de Araújo: "Você sempre diz que o sindicato é um por todos e todos por um. Se é assim, a maioria aqui não quer mais você como presidente. Você está fazendo mal à maioria, e eu no seu lugar pedia demissão." Aí foi palma, todo mundo gritando: "Apoiado! Apoiado!" O Amaro de Araújo explicou três vezes: "Seu João Lopes está dizendo isso e isso. Vocês estão de acordo?" Todo mundo: "Estamos de acordo!" Aí caiu o Amara de Araújo.

- E quem ficou no lugar dele?

- Ficou uma diretoria provisória. Botaram o Rocha como presidente, eu como vice-presidente, e o Aristides Henrique como secretário. Eu disse que não podia, porque trabalhava até tarde, mas eles falaram: "Não, é só por 30. dias, até formar a chapa para a eleição." Aí eu já tinha saído do Cais do Porto e ido para o Arsenal de Marinha. Fui para lá com a responsabilidade de organizar o pessoal. Quase todo mundo do Arsenal foi para o Sindicato dos Metalúrgicos. Afinal, no fim de 30 dias formaram a diretoria. O Auto Lázaro Correia ficou como presidente, e eu fiquei como procurador.8

- Que atividades o sindicato desenvolvia nessa ocasião?

- Aí transformamos num sindicato de luta de classes. Imediatamente. Logo que entramos, tratamos disso. Isso aconteceu da seguinte forma: eu não tinha nada com o comunismo não. Fui convidado para uma reunião, e disse ao Auto Lázaro Correia: "Olha, o Casini me chamou para ir a uma reunião assim, assim." Ele respondeu: "Você vai, mas não assume responsabilidade lá, não assina nada."

- Era uma reunião de comunistas?

- Essa reunião foi numa casa lá no subúrbio, em Osvaldo Cruz. Cheguei lá, entramos, tinha muita gente: Astrojildo Pereira, Otávio Brandão, Casini, esse pessoal todo anarquista. Aí o Casini disse: "Eu queria dar a palavra ao companheiro João Lopes, para vocês saberem quem é ele." Eu então fiz um histórico da minha vida lá em São João da Barra e Campos, tal e coisa, os outros também falaram, e escutei aquelas discussões. O Astrojildo Pereira fez uma explanação muito bonita, dizendo que todos deviam ajudar a classe dos metalúrgicos, que eles deviam dar mais atenção ao Sindicato dos Metalúrgicos. Fiquei todo envaidado.

- Ou seja, era uma reunião do Partido Comunista. O senhor foi sabendo que era?

- Não sabia. Me convidaram, eu fui. Aí, quando acabou, fui para o sindicato e disse para o Auto Lázaro Correia: "Eles estão dando apoio a nós. O Astrojildo Pereira mandou todos darem apoio. aos metalúrgicos."

- Depois dessa reunião em Osvaldo Cruz o senhor entrou para o Partido Comunista?

- Nunca me inscrevi, nunca entrei para o Partido.

- Mas o senhor entrou para esse grupo?

- Entrei.

- E o senhor passou a ter contato com Astrojildo Pereira e Otávio Brandão?

- Passei. Eles iam lá no sindicato, conversavam comigo assim como nós estamos conversando. E o Otávio, esse tinha mais liberdade. Cismava, ia lá em casa e dizia: "Vamos dar uma volta." Conversava, me levava a todo lugar. Foi meu professor, tinha uma confiança enorme em mim. Quando a polícia perseguia, ele ia se esconder na minha casa.

- O senhor fazia algum tipo de trabalho para esse grupo?

- Eles me mandaram formar comitês de empresa, e eu também era cobrador das mensalidades do sindicato. Eram 16 empresas que eu tinha que visitar. Conversava com os companheiros, organizava, era rápido. Produzi muito. E era fiscalizado, fiscalizado.

- E o senhor continuou trabalhando no Arsenal de Marinha?

- Não. Abandonei. Fiquei trabalhando só para o sindicato, recebendo pelo sindicato.

- Havia muita repressão da policia?

- A polícia atacava um bocado. Mas a gente trabalhava com paciência, não é?

- Há também outro dado importante: em 1926 terminou o governo de Artur Bernardes e entrou Washington Luís. Com a mudança de governo, a repressão diminuiu e a organização sindical cresceu.

- Porque o Washington Luís não interveio. Quando ele veio intervir na organização, foi quase no fim do mandato. Era a liberdade. Eu podia chegar, conversar, discutir, isso tudo.

- No período de Washington Luís, o Partido Comunista também chegou a ter uma preocupação eleitoral. Formou-se o Bloco Operário,9 depois Bloco Operário Camponês, lançaram-se candidatos...

- Na entrada do comunismo, eu entrei para o Bloco Operário. Me elegeram presidente do Bloco Operário Metalúrgico. E eu então tive que me ligar ao Azevedo Lima. Me liguei, eu e o Salvador Cruz, um campista, muito amigo meu. Eu ia lá no consultório do Azevedo Lima, que ele era operador, pegava ele, e a gente subia o morro para ele atender os doentes. Fomos muito amigos, mas uma vez tivemos uma briga. Ele queria botar como candidato a vereador o Moura Nobre, que era coronel e prestava muito serviço ao trabalhador, dava atestado para não ter que servir o Exército. Ele disse: "Você faz os seus companheiros votarem nele." Respondi: "Não posso garantir. Vou falar com os companheiros, Salvador Cruz, Agenor Marinho, todo mundo." O Agenor Marinho falou: "Mas se nós temos um programa, se é Bloco Operário Camponês, por que é que vamos botar, um militar?" O Azevedo Lima dizia: "Mas quem é que vocês vão botar? Vocês não têm dinheiro. O Moura Nobre tem." Eu disse: "A nossa chapa é Minervino de Oliveira e Otávio Brandão, e dessa não saímos. E vamos arranjar dinheiro para a campanha."

- Como era a campanha do Bloco Operário?

- A gente fazia comício relâmpago na porta das fábricas iam uns três da Juventude Comunista, o filho do Mangabeira,10 O filho de seu fulano, o filho de seu beltrano, e nós, eu, o Salvador Cruz, o Agenor Marinho.

- O senhor falava nesses comícios?

- Falava. Dizia quem era Otávio Brandão, o que era o Bloco Operário Camponês, isso e aquilo. Ganhava palma também. Tinha dia de fazer cinco, seis comícios.

- E aos comícios maiores, o senhor ia?

- Aí ia o Morena,11 ia o Pimenta.12 Para falar ao povo é preciso ter gente mais preparada. Você sabe, minha filha, um ser analfabeto vai ser criticado. E eu nunca gostei de ser criticado.

- O senhor achava que a população de trabalhadores do Rio era simpática ao Bloco Operário?

- Bom, dada essa questão de anarquista com comunista, dividia. Mas os comunistas levavam mais vantagem.

- Na ocasião da campanha do Bloco Operário, os anarquistas ainda tinham importância aqui no Rio?

- Tinham, tinham. Eles continuavam lutando pelo seu ideal anarquista, e os comunistas pelo seu ideal marxista.

- Os anarquistas não gostavam que os trabalhadores participassem de eleições, não é?

- É, eram contra chefe, contra governo. O estatuto deles dizia que todo governo é capitalismo. Só fala em governo quem é capitalista. Logo compreendi que com esse meio que os anarquistas queriam, não podíamos ir em frente. Dando uma mão aqui, parlamentando com um, com outro, a gente vai chegando.

- Em 1929, houve uma greve dos gráficos em São Paulo, que recebeu o apoio de vários outros sindicatos.13 O senhor se lembra de algum movimento de solidariedade aqui no Rio?

- Lembro. Fizemos um comício na praça Mauá, veio gente de Niterói, ficou tudo cheio, bandeiras de sindicato para todo lado. Saímos da rua Barão de São Félix, passamos em frente à Central, e quando chegamos em frente à Light, a polícia do Washington Luís caiu em cima de nós. Foi a primeira vez que ela veio atacando, rasgando bandeira, com cavalaria e tudo. Até pegamos um caixão para a Laura Brandão subir e falar com o comandante. Ela fez um discurso, uma poesia, o comandante ficou olhando e mandou debandar a cavalaria. Aí fomos para o sindicato, e quando chegamos a polícia estava lá.

- A polícia tinha ocupado o Sindicato dos Metalúrgicos?

- É, ali na rua Senador Pompeu, defronte da Central. A polícia estava na porta, tomou as bandeiras e fechou o sindicato. O meu irmão era da Marinha, então pedi para ele entrar lá e pegar todos os livros de registro. Ele foi, pegou os livros, e, como era militar, ninguém se incomodou. Levei os livros para guardar em Bonsucesso. A história foi esta: o sindicato abriu com Amaro de Araújo e fechou com esse comício de apoio aos grevistas. Só fomos reabrir em 30, depois da revolução.

- Como o senhor recebeu a Revolução de 30?

- Bom, nessa época eu já morava na Penha, e o pessoal vivia lá na minha casa: o Brandão, o Cristiano Cordeiro,14 essa gente toda. Fiz até uma padaria nos fundos para tapear. Quando o pessoal chegava lá, a companheira dizia: "Olha, chegou um irmão de vocês aí."

- O senhor morava com mais alguém?

- Sozinho com a minha companheira. Essa companheira eu trouxe de Campos. Foi aquela que me valeu a vida na gripe espanhola.

- A dona Carola?!

- É, ela veio atrás de mim. O marido abandonou, e eu fiquei com ela. Bom, no dia em que rebentou a revolução, sabe o que aconteceu? Estava um pessoal reunido lá em casa, Cristiano Cordeiro, Josias Leão, tudo já sabendo que o movimento estava para rebentar. A gente estava esperando um emissário, o filho do João Mangabeira, que estava em contato com o Maurício de Lacerda. Ele chegou, avisou, e nós saímos para pegar em armas. Fomos para Benfica, e lá fomos presos e levados para um quartel. Acontece que o comandante era da nossa panela e deixou a gente sair pela porta dos fundos.

Aí fui para a Central, com um garoto que esqueci o nome e mais o Diamantino Domênico, mecânico bombeiro. Passou um carro com um tenente da Marinha, que me conhecia do Arsenal, e mandou a gente entrar. Ele dizia: "A revolução é fulano de tal!" Não lembro o nome era um grande lá da Marinha. Não era Getúlio, não. E falou: "Vamos lá na Detenção tirar os presos!" Chegamos lá na Detenção e estava Otávio Brandão preso, Minervino, uma porção de gente. Tinha um botequim defronte, ficamos ali e vimos lá no alto, na varanda, o pessoal do Washington Luís. Afinal entramos, esse tenente atirando, e os diretores falaram: "O que é isso? Não solta todo mundo não, nós trazemos os presos!" Mas aí o pessoal já estava quebrando mesa, quebrando cadeira, uma confusão dos diabos.

- E vocês soltaram os presos?

- Soltamos Minervino, Brandão, Maurício de Lacerda. Esse tenente queria soltar o Cabanas,15 mas ele não estava lá. Então ele disse assim: "Agora vamos para a Central de Polícia." Chegamos lá, ele mirou um lustr,e logo na entrada e "pá!", caiu aquele negócio no chão, um barulho danado. Os investigadores fugiram todos. Ainda me lembro de um tira gordo que pegou um lenço vermelho e botou no pescoço, apavorado. E nós: "Abre a porta!", de revólver na mão. O camarada abriu, e quando chegamos lá em cima os presos estavam revoltados, quebrando tudo. Nessa hora os ladrões também começaram a ir contra a polícia. Brancura, Baiaco, esse povo todo que eu conhecia lá da Saúde, aqueles valentes, queriam acabar com a polícia. Meteram o pau, mataram muito policial.

- Quando foi que o senhor ouviu falar em Getúlio Vargas pela primeira vez?

- Foi no correr da luta. Porque antes, Getúlio nem era falado. Ele estava lá no Rio Grande do Sul, lá para aqueles cantos farroupilhas. Aí é que ele entrou para o rol de candidatos. Chegou aqui num trem especial, trazendo tudo quanto é cangaceiro lá do Rio Grande do Sul, e aí foi que se deu o nome dele. Os políticos ,daqui aceitaram ele, e aceitaram porque ele chegou com um aparato enorme.

- O que o pessoal do Partido achava de Getúlio?

- O Astrojildo Pereira, que era quem tinha mais prestígio, dizia: "Antes Getúlio do que..."

- Júlio Prestes.

- Não tinha nada de Prestes, não. Era um outro cara lá.

- Batista Luzardo foi logo nomeado chefe de polícia. O que as pessoas do Partido achavam dele?

- Bom, o Batista Luzardo traiu. A mim, traiu, porque pouco tempo depois me mandou para a Ilha Grande. Logo no começo, reabrimos o sindicato, e o Paulo Lacerda16 levava ele lá. Fui até capanga dele. Um dia ele mandou me chamar, eu, o Agenor Marinho e o João Júlio, porque queria dar um cartão para a gente poder entrar no Lloyd ou no Laje, não lembro, para ver quem falava contra Getúlio. Aí o Astrojildo disse: "Não faça isso. Você dar parte de seus companheiros, não. Não vá." Eu não quis aceitar.

- Quando foi que vocês reabriram o sindicato?

- Foi logo depois que começou a revolução. O Astrojildo e o Casini me procuraram e disseram: "Vai abrir o sindicato. Você conhece todo mundo, vai até lá." Fui falar com a dona do prédio, e ela disse: "Tem que dar o dinheiro do depósito." O Paulo Lacerda arranjou dinheiro, um outro rapaz que tinha apólice da Prefeitura também emprestou para pagar o aluguel, e nós reabrimos.

Notas

3 - A greve dos marítimos iniciou-se em setembro de 1920 e só terminou definitivamente em fevereiro de 1921, sob forte repressão policial e grande antipatia popular. Noticiada amplamente no seu início pelo jornal Voz do Povo, a greve foi avaliada, pelos próprios anarquistas, como um terrível fracasso.

4 - Manuel Alves Rocha (1901-1979) era carioca e metalúrgico. Em 1917, começou a participar intensamente do movimento operário, tendo sido um dos fundadores da União Geral dos Metalúrgicos, criada em 1.0 de maio desse ano. Essa associação, que mais tarde deu lugar à Federação Metalúrgica do Rio de Janeiro, fechada devido à intensificação da repressão ao anarquismo em 1922, foi reorganizada em 1923 com o nome de União dos Operários Metalúrgicos do Brasil. Em 1925, Manuel Rocha foi secretário-geral dessa União, e em 1926 seu vice-presidente. Com a renúncia forçada do então presidente Amaro de Araújo, assumiu este cargo. Afastado do sindicato entre 1928 e 1932, retomou para participar do movimento de "reorganização sindical".

5 - Olinto Rabelo de Morais (1886-1967) era baiano e chegou ao Rio em 1914. Após participar das atividades de várias associações operárias vinculadas à FORJ, foi um dos fundadores da União Geral dos Metalúrgicos e, quando da "reorganização sindical" de 1932, ocupou vários cargos na diretoria do novo sindicato. Preso e solto várias vezes ao longo de sua vida, sempre manteve a militância sindical.

José Casini (1895-1959) nasceu em Minas Gerais. Em 1922, foi secretário ¬geral da Federação Metalúrgica do Rio de Janeiro. Foi também um dos fundadores da Aliança dos Operários Metalúrgicos de Niterói, da qual foi presidente em 1925. Membro do Partido Comunista, representou os trabalhadores brasileiros num congresso em Moscou em 1927, e em 1928 foi eleito membro do Comitê Central. Em 1932, também integrou a "reorganização sindical", tendo sido o primeiro presidente do sindicato então criado.

6 - Amaro de Araújo era um operário ferreiro, natural de Alagoas, que che¬gou ao Rio de Janeiro já experimentado nas lutas operárias da cidade do Recife. Em 1923, com a reorganização dos metalúrgicos na União dos Operários Metalúrgicos do Brasil. foi eleito presidente dessa associação. Permaneceu no cargo até 1926, quando foi afastado por pressão de um grupo de trabalhadores auto-intitulado "vanguarda metalúrgica", ligado ao PC, então interessado em infiltrar-se e ganhar a direção dos sindicatos cariocas. Sobre o sindicato dos metalúrgicos, ver Eduardo Stotz, A União dos Trabalhadores Metalúrgicos na construção do sindicato corporativista; 1920-45, Niterói, UFF, mimeo.

7 - É interessante observar que o depoente insistirá na designação "anarquista" mesmo ao relatar reuniões com pessoas conhecidas na época como comunistas. É com o decorrer do relato e com a participação dos entrevistadores que o termo comunista ingressará e tomará conta de sua fala. A resistência do depoente em dissociar anarquismo de comunismo é ilustrativa de como era e continuou sendo difícil separar essas duas experiências para um militante do movimento operário.

8 - Auto Lázaro Correia presidiu a União dos Operários Metalúrgicos do Brasil logo após a deposição de Amaro de Araújo em 1926.

9 - O Bloco Operário foi formado pelo PC tendo em vista as eleições para a Câmara dos Deputados de 24 de fevereiro de, 1927. Seus dois candidatos foram Azevedo Lima, médico e conhecido político de São Cristóvão, e João da Costa Pimenta, líder operário muito respeitado e conhecido e o maior responsável pela formação da União dos Trabalhadores Gráficos. Contudo, só Azevedo Lima foi eleito, passando a representar o BO no Congresso. Em 1928, o então Bloco Operário e Camponês (BOC) voltou a lançar candidatos, dessa vez para o Conselho Municipal do Rio de. Janeiro. Otávio Brandão e Minervino de Oliveira foram eleitos e tomaram posse, apesar das dificuldades do reconhecimento eleitoral. Finalmente, em 1929, o PC resolveu não aderir à Aliança Liberal e lançou como seu candidato à presidência da República o mesmo Minervino de Oliveira. O clima nesse, ano já era distinto do de 1926-7, e a repressão foi intensa.

10 - Francisco Mangabeira era filho de, João Mangabeira, político baiano que participaria da fundação do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 1947. Veio para o Rio quando da eleição de seu pai para a Câmara dos Deputados e, ainda como estudante, da Faculdade de Direito, integrou a diretoria provisória da Federação da Juventude Comunista, Embora tendo-se afastado do PC, foi um dos organizadores da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e secretário de. seu diretório nacional. Preso por ocasião da revolta de 1935, foi libertado em maio de 1937, passando a exercer a advocacia liberal.

11 - Roberto Morena (1902-1978) era um marceneiro carioca que desde 1917 iniciou sua militância política entre os trabalhadores. Anarquista e depois comunista, participou do movimento que, resultou na criação da Confederação Sindical Latino-Americana em Montevidéu. Preso várias vezes ao longo dos anos 3D, lutou na Guerra Civil Espanhola de 1937 a 1939 e esteve em um campo de concentração na Argélia. Voltou ao Brasil em 1943, e em 1945 foi eleito para a direção do PCB, além de ter sido escolhido secretário-geral da Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB).

12 - João da Costa Pimenta foi anarquista, comunista e um dos integrantes da "cisão barbosista", que deu origem ao grupo trotskista no Brasil. Considerado um dos mais brilhantes e ativos líderes do movimento operário das primeiras décadas do século, militou no Centro Cosmopolita do Rio e, como gráfico, foi um dos principais responsáveis pela organização da União dos Trabalhadores Gráficos (UTG) em 1926.

13 - A greve geral dos gráficos em São Paulo teve início em março de 1929 e durou mais de três meses, terminando por acordos parciais. A greve foi violentamente reprimida pela polícia, e a sede da UTG em São Paulo invadida e fechada. Mesmo assim, os gráficos resistiram e receberam apoio de vários sindicatos do país.

14 - Cristiano Cordeiro era natural de Pernambuco e foi um dos fundadores do PCB em 1922. Como Everardo Dias, era maçom. Membro do PC durante toda a vida, foi contrário ao levante de 1935 por discordar dessa forma de l uta, mas dele participou.

15 - João Cabanas (1895-1974) era paulista e tenente quando aderiu ao movimento militar de 1924 contra o governo de Artur Bernardes, tornando-se um personagem mítico por seus feitos militares. Em 1935, já em oposição a Vargas, assinou juntamente com outros militares a ata de fundação da ANL. Em julho de 1937, esteve preso em Natal, e em novembro denunciou o golpe de Vargas que implantou o Estado Novo.

16 - Paulo Lacerda, irmão de Fernando e Maurício de Lacerda, era jornalista e foi importante nome do Partido Comunista. Participou das campanhas eleitorais do BOC, sendo lançado em 1929 como candidato ao Senado pelo Distrito Federal. Passou boa parte de sua vida em prisões e fugas, e após 1931 tentou o suicídio, acabando por enlouquecer.


FONTES: 1935 - Natal Rio Grande do Norte Insurreição Revolução Intentona - Rede Estadual de Direitos Humanos RN Rio Grande do Norte Potiguar Natal DHnet - Direitos Humanos na Internet


CAMPOS, Beatriz Luedemann. João Lopes de Souza: a trajetória política de um trabalhador negro revolucionário no Brasil. Dissertação. Mestrado em História – Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos, 2025.

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