segunda-feira, 20 de julho de 2026

" A Matrona Imoral" - Breve Biografia de Gilka Machado (1893-1980)


Gilka da Costa de Melo Machado (1893-1980), mais conhecida como Gilka Machado, foi uma poeta e escritora afro-brasileira. Foi uma das primeiras escritoras brasileiras a escrever poesia erótica no país. Suas poesias foram consideradas imorais e ela ficou conhecida na imprensa conservadora como a “matrona imoral”.

Gilka Machado casou-se com o poeta Rodolfo de Melo Machado (1885-1923) e teve dois filhos: Helios e Hélia, que se tornou uma das maiores bailarinas e atrizes do país sob o nome de Eros Volúsia (1914-2004).  Gilka Machado publicou o primeiro livro em 1915, Cristais Partidos. Logo depois a escritora publicou: A revelação dos perfumes (1916), Estado de alma (1917), Poesias (1915–1917) e Mulher Nua (1922). Em 1933, ganhou um concurso que a escolheu como a melhor poeta do século 20.

Gilka Machado nunca se disse anarquista. Porém, sempre foi muito lida e admirado pelos operários, libertários e socialistas. Além disso, a escritora tinha em seu círculo de amizade libertários e libertárias conhecidos como José Oiticica, Edgar Leuenroth, Maria Lacerda de Moura, Pereira da Silva, Elysio Carvalho, Manoel Bomfim e Raimundo Reis. A escritora era próxima a Maria Lacerda de Moura.  Em carta a anarquista feminista e individualista Maria Lacerda de Moura, Gilka Machado criticava as feministas de elite:  “quando a miséria nos acirra, é inútil recorrer a uma patrícia: ela não tem noção da caridade (que eu diria, solidariedade), do dever humano e só protege em dias determinados, por meio de chás concertos e requebros de tango; para elas a desgraça sempre é motivo de divertimento”.

Gilka Machado chegou a ser entrevistada pelo jornal A Plebe na década de 1910, onde demonstrou vários pontos em comum com o pensamento anarquista: aversão a política tradicional; aversão aos partidos políticos; e aversão ao poder patriarcal. Muitos jornais divulgaram palestras e conferências de Gilka Machado em associações e sindicatos obreiros. Gilka renegou convites para entrar na Academia Brasileira de Letras.  O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade definiu Gilka Machado como uma anarquista romântica, pois havia muito mais que sensualismo e erotismo na sua poesia. Havia preocupação social, de acordo com Drummond.

A escritora ganhou o Prêmio Machado de Assis em 1979. Devido ao preconceito da sociedade, como também o dos seus pares escritores, Gilka Machado escondia com pesada maquiagem clara seus traços negros. O escritor Afrânio Peixoto, ao visitá-la um dia, se surpreendeu com a habitação da escritora e com a verdadeira cor de pele de Gilka Machado afirmando que a escritora era, na verdade, uma “mulatinha muito escura”. Gilka da Costa de Melo Machado morreu em 10 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.

REFERÊNCIAS

CAMPOS, Humberto. Diário Íntimo.

MOURA, Maria Lacerda. A Mulher é uma Degenerada.

PLEBE, A. ano:1917

KARLLOS, JR. Brasil Negro Insurgente. Monstro dos Mares. 2026.

Autor:

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

quarta-feira, 15 de julho de 2026

ÀS ARMAS! O Levante de Manoel Bernardino no Maranhão (1921)

 



Manuel Bernardino de Oliveira foi um agricultor, professor e revolucionário brasileiro que liderou grupos armados contra latifundiários da região de Mata, perto de Codó, no Maranhão, durante a década de 1920. Jornais conservadores e a elite agrária o chamavam de Lênin maranhense, maximalista, fanático e diziam que Bernardino pretendia montar um soviete no interior do Maranhão. As principais fontes sobre a atuação de Manoel Bernardino são os jornais: A Pacotilha, Diário de São Luiz e o Diário Oficial do Maranhão. Bernardino chegou a dar entrevistas a alguns dos periódicos citados acima relatando fatos sobre a sua vida, suas ideias e planos.

Biografia: Manoel Bernardino (1882-1942)

Bernardino nasceu no Piauí em 1882. Viveu no Ceará e no Pará, onde trabalhou nos seringais. Morou em Belém e em São Luiz, onde travou contato com as ideias socialistas, mas sem detalhar em que situações. Como lavrador, já na região de Codó, Bernardino dedicou-se a lavoura de algodão. O estado só se fazia presente na região através da polícia e dos cobradores de impostos. Nesta mesma época, Bernardino e outros camponeses formaram a Liga de Defesa, com cerca de cem pessoas. A Liga de Defesa era um grupo de autodefesa dos agricultores como também um grupo de combate a roubos e estupros.

Manoel Bernardino integrou a Coluna Prestes no Maranhão e liderou cerca de 200 homens. Porém, entrou em conflito com lideranças da Coluna por defender a Reforma Agrária. Ele desertou em 1926. Ao voltar para o Maranhão em 1929, Bernardino havia se tornou um estrito vegetariano. Toda a comida que consumia era colhida do seu roçado. Segundo parentes, ele não consumia leite por ser “sangue de vaca” e não matava os insetos. Sua alimentação era a base de leite de coco.

Influências: Jesus, Kardec, Tolstoi e Zapata

Bernardino tinha uma modesta biblioteca em sua casa formada por livros e revistas enviadas de vários lugares. De acordo com seu sobrinho, Bernardino fazia parte da “Comunhão Esotérica do Pensamento“. Ele foi fortemente influenciado pelo espiritismo, por um cristianismo primitivo, hinduísmo, por religiões afro-indígenas e pelo Tolstoismo. O próprio Bernardino considerava Jesus Cristo um dos primeiros socialistas da História. Ele leu Kardec e Leon Denis, um socialista espírita. Nem todos os anarquistas da Primeira República eram ateus. Muitos anarquistas eram espiritualistas, tolstoianos, hinduísmo e espíritas: João Penteado, Edgar Leuenroth, Everardo Dias e Maria Lacerda de Moura (por alguns anos), por exemplo. Outros como José Oiticica e Everardo Dias eram de sociedades Maçônicas e Rosa Cruz.

Além das leituras religiosas, Bernardino assumiu ter sido influenciado pela Revolução Mexicana (1910-1920) e pelos jornais operários que traziam notícias das movimentações operárias como a Greve de 1917, em São Paulo, e a Insurreição Anarquista de 1918, no Rio de Janeiro. Provavelmente, Bernardino teve contato com a imprensa operária de São Luiz e de Codó. Os jornais elitistas do Maranhão, pelo contrário, o comparavam a Lenin, Antônio Conselheiro e aos cangaceiros.

Motivações

As causas apontadas para a insurreição em Mata foram a violência dos latifundiários, a desigualdade social, o descaso das autoridades e os impostos pesados. Os poetas cordelistas da região narraram que a luta de Bernardino foi motivada pela luta por construção de escolas na região. Na falta de escola, o próprio Bernardino deu aulas gratuitas na própria residência para lavradores e crianças da região em 1917.

As movimentações dos camponeses de Bernardino passaram a estar na mira das autoridades. Uma suposta carta de Bernardino foi interceptada pela polícia. A carta revelava um possível “batismo de sangue” do grupo armado de Manuel Bernardino. Um dos trechos da suposta carta de autoria de Bernardino interceptada pelas autoridades dizia: que o povo armado faça a Câmara! Às armas! Para Frente!

De acordo com as autoridades, Bernardino era um inteligente propagador do socialismo e defendia a derrubada dos governos para fundar um sistema em que vigorasse os interesses do povo. As autoridades afirmavam que Bernardino comandava um exército de cerca de mil lavradores.

Os boatos sobre uma revolução comandada pelos caboclos de Bernardino se espalharam pela região. Latifundiários montaram suas próprias milícias particulares. As autoridades oficiais também destacaram soldados para a região. Ao todo cerca de 600 homens armados foram mobilizados para combater o exército popular de Bernardino.

Os Fuzilamentos de Matta (1921)

Em 29 de julho de 1921, no distrito de Matta, Codó, o levante armado liderado por Bernardino foi duramente reprimido pelas forças militares do Maranhão. O destacamento liderado pelo tenente Henrique Dias foi enviado ao local. No local, o tenente encontrou, prendeu e “interrogou” velhos, crianças e mulheres, mas nenhuma revolta.

Alguns prisioneiros foram amarrados nas árvores para serem “interrogados”. O episódio terminou com a execução de pelo menos quatro pessoas, lavradores pobres caboclos e negros. Pelo menos duas vítimas eram filhos de Maria Paca, uma das integrantes do grupo de Bernardino.  Integrantes do próprio destacamento militar assumiram e denunciaram os fuzilamentos ordenados pelo Tenente Henrique Dias. Jornais oposicionistas afirmavam que mais de cem pessoas haviam sido executadas e que os corpos serviam de comida para os urubus. As notícias chegaram ao governador do Maranhão que abriu um inquérito para apurar os fatos.

O inquérito militar confirmou a execução de quatro pessoas. Elas foram assassinadas numa antiga estrada. Os corpos foram enterrados em valas comuns. Tempos depois, surgiram boatos de que mais 14 ossadas haviam sido encontradas. Os populares também denunciaram que alguns agricultores estavam desaparecidos desde o fatídico dia. Atualmente, o local onde os corpos dos quatro camponeses foram encontrados chama-se “O Cemitério dos Afuzilados”. Os culpados pela execução foram julgados e absolvidos por unanimidade.

Manoel Bernardino de Oliveira morreu em 1942, aos 60 anos.

FONTES:

ALMEIDA, Giniomar Ferreira: O Lenine Maranhense: fuzilamentos e cultura histórica no interior do Maranhão. (1921). UFPB-2010.

FERREIRA, John Kennedy.  ORGANIZAÇÃO DAS IDEIAS SOCIALISTAS NO MARANHÃO; Revista de Políticas Públicas, vol. 22, pp. 347-366, 2018. Universidade Federal do Maranhão.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Canto

Um canto antigo

Vem no vento amigo

Vem andar comigo

Nesta solidão!


Um canto vindo

De um tempo lindo

Vem dizer: é findo!

Esta escravidão!


Um canto justo

Sem lamento ou custo

Vem causar o susto 

Nesta ilusão!


Um canto forte

Sem medo da morte

Vem mostrar o norte

Nesta confusão!

Enquanto for carne...

 As roupas que me vestem

Não escondem o meu ser

Os prédios que me cercam

Não comprimem meu espírito

O asfalto que me move

Não desfaz minha raiz

Enquanto for carne

Meu coração pulsará

O ritmo ancestral

10 breves tópicos sobre o Anticolonialismo

 


1. De forma geral, colonialidade é a repetição e manutenção de práticas e conhecimentos que geram a ideia de que certos povos, línguas, continentes e histórias são inferiores a outros

2. O contracolonialismo/anticolonialismo é um conjunto de práticas e teorias combativas que visa destruir as sequelas de anos e anos de dominação colonial impostas aos povos asiáticos, africanos, latinos, originários etc.

3.contracolonialismo/anticolonialismocultura, nas estruturas sociais e políticas de muitos países. Mais que isso: também estão fincadas na mente e nos corpos das vítimas do processo colonial.

4. A ideologia colonialista sempre se reinventa. Nas últimas décadas, o surgimento de novos procedimentos estéticos deu novo fôlego a ideologia do “branqueamento” no Brasil. Harmonizar também pode ser uma tentativa de omitir ou apagar traços e ângulos corporais considerados “indesejáveis”.

5. Pessoas progressistas também podem reproduzir ideologia colonialista, mesmo que não percebam. Ser ateu, evolucionista ou vegan não isenta ninguém de práticas e discursos racistas/colonizados.

6. Todos aqueles que desejam, por exemplo, lutar contra o racismo, o genocídio indígena/palestino e os neofascismos devem buscar novos fundamentos e fontes de saberes fora da zona de conforto/conhecimento na qual estão acostumados.

7. Atitudes e pensamentos contracolonialismo/anticolonialismo andam juntos. Pequenas ações e reflexões diárias ajudam a destruir resquícios de colonialismos.

8. contracolonialismo/anticolonialismo deseja fazer voltar para os povos silenciados os espaços de protagonismo e de voz ativa que sempre tiveram.

o O contracolonialismo/anticolonialismo é a destruição de estereótipos racistas persistentes.

10. o contracolonialismo/anticolonialismo é sentir outras melodias e ritmos. Ouvir Cesária Évora ou Taiguara é tão contracultural/rebelde quanto ouvir Rage Against The Machine ou Childish Gambino.

" A Matrona Imoral" - Breve Biografia de Gilka Machado (1893-1980)

Gilka da Costa de Melo Machado (1893-1980), mais conhecida como Gilka Machado , foi uma poeta e escritora afro-brasileira. Foi uma das pri...