terça-feira, 30 de junho de 2026
Dolores Cacuango Quilo (1881-1971)
Miguelina Acosta Cárdenas (1887-1933)
Miguelina Acosta Cárdenas (26/11/1887-26/10/1933) foi uma advogada e professora anarcafeminista considerada a primeira advogada da classe obreira e das mulheres peruanas.
Cárdenas estudou Direito numa época e numa instituição totalmente conservadoras. O país, assim como o Brasil, sofria a brutal influência do pensamento clerical em todas as esferas. Ela defendeu mulheres, homens, camponeses, operários, mestiços e indígenas, muitas vezes sem cobrar honorários.
Como educadora, escreveu sobre educação indígena, da mulher e da zona rural do país. também aderiu a proposta libertária da pedagogia moderna de Ferrer, mas também uma das primeiras pensadoras anticolonialistas do Peru.
Petronila Infantes (1911-1991)
em 1935 foi uma das fundadoras do Sindicato de Culinárias (S.C.). As cholas anarquistas da época não se deterão e farão história fundando novos sindicatos, integrados exclusivamente por mulheres: a União Feminina de Floristas, o Sindicato de Vendedoras de Aves e Ovos (que trabalhavam nos mercados populares), o Sindicato de Viajantes ao Altiplano (que agrupava mulheres que transitavam na fronteira entre a Bolívia e o Peru), os Sindicatos de Trabalhadoras de Vianda, de Fruteiras Varejistas ou de Leiteiras.
Até 1940, todas estas organizações (umas 12 no total) se reúnem em Congresso e refundam a FOF (Federação Obreira Feminina). Em pouco tempo, se afiliaram à FOL (Federação Obreira Local), a aguerrida e histórica organização anarcossindicalista boliviana.
As cholas libertárias, com Dona Peta à cabeça, serão as animadoras do movimento obreiro pacenho na próxima década. E colocarão o dedo na ferida: combaterão em um cenário conservador, racista, classista e patriarcal por excelência, como era a Bolívia dos anos 20 e 30. Levantarão demandas específicas e terão uma ampla frente de batalha: às reivindicações obreiras e libertárias, se somarão em um mesmo ângulo, a reivindicação de sua “choledad”, desenvolvendo um feminismo classista, concreto, original.
Petronila o exemplificará claramente: “(…) Pelo fato de ser mulher nos pagam menos que ao homem e nos fazem trabalhar mais (…)” Dali a necessidade de construir organizações gremiais específicas: “(…) Porque a organização das mulheres é assim: nós mesmas defender-nos, nós mesmas fazemos (…)”
Mãe solteira, sempre se negou ao casamento e às convenções patriarcais, religiosas e “morais” da época, porque “(…) O matrimônio é negócio para o cura e o notário (…)”.
Até 1935, Petronila foi uma das protagonistas da “Revolta do Bonde”, negando-se a descer do mesmo com sua saia e cestas, que “ofendiam e incomodavam” aos senhores e senhoras de classe média que não queriam compartilhar a viagem com “essas cholas”. Dona Peta, militante integral de dezenas de batalhas, não foi a “Rosa Parks” sul americana. Antes deveríamos dizer que Rosa Parks foi, vinte anos depois, a “Petronila do norte”.
Para quem queira seguir mergulhando na vida de Petronila e das cholas libertárias, deixamos bibliografia recomendada:
A.N.A: Agência de Notícias Anarquistas.
Margarita Ortega (1871-1913)
Margarita Ortega (1871-1913) foi uma anarquista mexicana. Participou da Revolução Mexicana na década de 1910. Foi bastante influenciada pelo Magonismo. Além de lutar nas linhas de frente magonistas e zapatistas, ela era responsável por transportar armas e outros mantimentos. Sua filha Rosaura Gortari (189?-1913) também lutou ao lado da mãe, na Revolução Mexicana (1910). Maria Ortega e Rosaura Gortari foram fuzilada em 1913 a mando do presidente Huerta.
Margarida Maria Alves (1933-1983)
Margarida Maria Alves nasceu em Alagoa Grande, no agreste da Paraíba, no dia 5 de agosto de 1933. Foi uma líder camponesa corajosa e destemida na defesa dos direitos dos trabalhadores rurais das usinas de cana de sua região.
Trabalhou como rendeira e também na agricultura. Foi a primeira mulher a ser presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande. A outra mulher seria Maria da Penha, também na década de 1980. Margarida também ajudou a fundar o Centro de Cultura e Educação do Trabalhador Rural. A educação era vista por Margarida Alves como um importante arma na conscientização dos camponeses. O centro existe até hoje.
Margarida fundou também o Movimento de Mulheres do Brejo (MMB) que defendia os direitos das mulheres camponesas do brejo paraibano. Enquanto esteve à frente do Sindicato, Margarida ajudou e incentivou a abertura de ações jurídicas que visavam garantir direitos básicos dos trabalhadores. Foram centenas de ações em favor dos trabalhadores.
Estas vitórias aumentaram a ira do Grupo da Várzea, uma espécie de sindicato de latifundiários, fazendeiros, 4 usineiros e sicários que por décadas ameaçou e assassinou lideranças históricas, como João Pedro Teixeira. Em agosto de 1983, após inúmeras ameaças, Margarida foi assassinada dentro de sua casa por pistoleiros a mando do latifúndio local.
Seu filho e o seu marido presenciaram toda a ação. Margarida deixou um exemplo de coragem. Sua biografia ainda inspira pessoas de todo o Brasil. Em Brasília, A Marcha das Margaridas é um evento anual inspirado na luta de Margarida Maria Alves
Os Velhos Tempos - Lesado Ruas (1966-2018)
Lesado Ruas (1966-2018) foi um anarcopunk, negro, gay, nascido no Ceará na década de 1960 e bastante ativo no movimento anarco-punk cearense dos anos 1980 e 1990. Lesado Ruas sofreu inúmeros preconceitos dentro do movimento punk. O livro é uma autobiografia que descreve parte de sua militância anarquista durante dos anos 1980 e 1990 em Fortaleza. Produzido de maneira artesanal, o livro traz um relato confessional brutal, seco e sincero, sem nenhum tipo de reparo ortográfico ou rigor acadêmico.
Branqueamento do Forró...
Esta semana, vendo vídeos no youtube, percebi como é nítido e brutal o branqueamento da música popular brasileira. A maioria dos cantores, cantoras e grupos musicais está “embranquecida” para satisfazer os gostos do mercado brasileiro. Não são poucos os artistas de pagode, do forró, do sertanejo e do axé que tentam esconder ou mesmo apagar os traços étnicos originais de suas raízes negras, pardas e indígenas. O fenômeno não é novo, nem brasileiro. Elvis, Joplin, Morrison, Eminem, Matysiahu e SOJA são paradigmas de branqueamento replicados e adotados pelos mercados fonográficos e televisivos de todo o mundo.
Vejamos o caso do nosso Forró. Entre as décadas de 1940 e 1950, o baião invadiu o mercado fonográfico brasileiro com artistas negros e pardos: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Ary Lobo, João Do Vale, Trio Nordestino, Três do Nordeste, Dominguinhos, Guadalupe, Almira, etc. Com o surgimento da Jovem Guarda, o baião e outros ritmos brasileiros passaram a ser vistos como coisas ultrapassadas, rurais e velhas. A partir dos anos 1990, a lógica do mercado predominou sobre a lógica da qualidade.
A grande mídia passou a definir determinados padrões étnicos e estéticos camuflando novas práticas de eugenia: procedimentos estéticos e métodos de branqueamento disfarçados de livre arbítrio e liberdade corporal. Mesmo com o surgimento de novas artistas nordestinos negros e pardos como Socorro Lira, Cátia de França, Chico César, Maestrinho e Sandra Belê, o branqueamento do forró parece gradual, rápido e constante. Aqueles que não ostentam o “capitalismo estético", de traços embranquecidos, paisagens de instagram distantes da realidade brasileira, no hedonismo destrutivo e autoritário são invisibilizados.
Pra Não Dizer Que Não Falei do Passaredo...
Ei favelado
Tu quilombola
Ei joga-bola
Vem revoltado
Ei carcerário
Tu imigrante
Ei estudante
Vem proletário
Ei, maloqueiro
Tu nordestino
Ei clandestino
Vem juremeiro
Manos e Minas
Punks, Sem-Terra
Povos da floresta
Irmãos do Haiti
Nunca calados!
Punhos cerrados!
Que os zômi vem aí!
Que os zômi vem aí!
(Tayguar Jr)
No Meio do Morro Vinha uma Tropa...
No meio do morro, vinha uma tropa
Vinha uma tropa no meio do morro
Nunca me esquecerei
Daquela noite dantesca
Dos corpos negros cancelados
De pupilas opacas, escancaradas.
Nunca me esquecerei daquela noite em que...
No meio do morro, vinha uma tropa!
(Tayguar Jr)
Amélio Robles: Herói transgênero da Revolução Mexicana (1910)
A Revolução Mexicana (1910-1920) também teve em suas fileiras homens trans. Fato bastante avançado para uma época em que pouco se criticava os papéis tradicionais de gêneros.
O caso mais conhecido é o do Coronel Amélio Robles Ávila (1889-1984). Nascido Amélia Robles, Amélio não apenas se “travestiu” para lutar, mas exigiu que fosse tratado de acordo com a sua vontade. Foi um coronel respeitadíssimo e fiel ao zapatismo até o fim da vida. Amélio nasceu em Xochipala no Estado de Guerreiro, Sul do México, no dia 3 de novembro de 1889.
Amélio Robles ingressou no Exército Zapatista em 1911 e participou de diversas campanhas para arrecadar fundos para a causa revolucionária. Devido a sua bravura, Coronel Robles esteve a frente de destacamentos armados e combates contra as tropas federais mexicanos nas montanhas do sul do país.
Este é o caso mais conhecido, mas não foi o único: Luz Barrera foi outro homem trans guerrilheiro zapatista. Também Angel Jimenez foi guerrilheiro zapatista a lutar na Revolução Mexicana. A mutabilidade de gênero também é praticada entre outros povos originários, como os Mapuches. Emília Errera Obrecht foi uma trans anarquista de origem mapuche que lutou pelo direito do seu povo, como também por sua liberdade de gênero.
No Brasil, entre os povos originários, tivemos as Cudinas entre os povos da Cultura Mabaya-Guaicuru. As Cudinas eram mulheres trans que assim se definiam e assim eram tratadas por todos da cultura Mbayá-Guaicuru, nos séculos 18 e 19.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).
domingo, 28 de junho de 2026
Domingos Passos, o Zumbi operário!
Domingos Passos – A
Manhã (02/1927)
Domingos Passos foi um anarquista afro-indígena nascido no Brasil e ativo, principalmente, no Rio de Janeiro durante a década de 1920. Ele foi um operário da construção civil e se destacou como habilidoso orador e palestrante anarquista. Passos foi um dos anarquistas mais perseguidos pelas autoridades do país. Foi preso dezenas de vezes. Sofreu diversas torturas e perseguições das autoridades do Rio e de São Paulo.
Além das autoridades e militares, Passos combateu a influência das ideias comunistas soviéticas nos sindicatos operários. Por causa desse duplo enfrentamento, o anarquista atraiu o ódio tanto da esquerda (soviética) como da direita. O libertário negro também fez parte de grupos teatrais operários e anticlericais. Ele ainda escreveu alguns artigos para jornais operários do país: A Plebe; Spartacus; O Syndicalista etc. Os artigos relatavam perseguições e violências policiais, mas também faziam propaganda do comunismo libertário.
Durante os brutais anos do governo Arthur Bernardes (1922-1926), os anarquistas foram perseguidos, presos e exilados. Libertários estrangeiros foram expulsos do Brasil. Já os anarquistas brasileiros foram capturados e enviados para regiões remotas do país, como o Oiapoque. A Colônia Penal de Clevelândia, no território do Oiapoque, extremo norte do país, foi uma das mais mortais prisões que o Brasil já teve.
Sobreviventes de Clevelândia afirmaram que 40% dos apenados enviados para Clevelândia morreram. Ou seja,
em pouco mais de 2 anos de funcionamento quase 500 pessoas morreram de fome,
doenças desconhecidas e maus-tratos. A título de comparação, nos 21 anos de
Ditadura Militar (1964-1985), cerca de 400 pessoas foram assassinadas ou
desapareceram.
Domingos Passos foi um dos enviados para o "inferno verde". Lá sofreu todo tipo de privações, violências e enfermidades. Testemunhou seus colegas libertários definhando e morrendo. Passos foi um dos únicos libertários a escapar do local por dentro da mata densa. Ele conseguiu se refugiar na Guiana Francesa. Em Caiena, ele pediu auxílio às autoridades consulares brasileiras, mas foi ignorado. De Guiana foi para Belém do Pará. Retornou para o Rio de Janeiro meses depois num navio lotado de ex-prisioneiros de Clevelândia.
No Rio de Janeiro, o incansável libertário retomou a luta sindical libertária. Na mesma proporção, as autoridades policiais continuaram a persegui-lo. Domingos Passos foi preso novamente. Desta vez, ele foi enviado para as matas de Sengés, no Paraná. Daí, Domingos conseguiu manter os últimos contatos com antigos companheiros. Em 1929, Passos deixou de se comunicar. Alguns libertários afirmaram que Domingos Passos desistiu da luta para manter-se vivo. Outros falaram que o libertário havia sido morto pela polícia. Outros afirmaram que o libertário se mudou para um lugar distante. O que importa é que a luta e o legado de Domingos Passos permanecem vivos!
Suma Qumaña. Sumak Kawsay! - ANARQUISMO NA BOLÍVIA
O anarquismo está presente na Bolívia desde o início do século 20. Diferente da Argentina, do Brasil e do Uruguai, onde o anarquismo de base europeia era mais forte, o anarquismo boliviano teve na presença dos povos originários a sua peculiaridade. O anarquismo influenciou, mas foi muito mais influenciado pelos aimarás, quéchuas, guaranis e as cholas da Bolívia. Uma das principais figuras do anarquismo boliviano foi Petronila Infantes, la Doña Peta. Ela liderou o Sindicato de Culinária em La Paz e era bastante influenciada pelo anarco-sindicalismo. Petronila Infantes era uma Chola.
Las Cholas são mulheres indígenas e mestiças que vivem na Bolívia e se caracterizam pelas saias longas, tranças e chapéu. Esta indumentária foi imposta pelos colonizadores, mas hoje foi ressignificada e virou símbolo de resistência indígena. Petronila e outras anarquistas indígenas, como Rosa Rodriguez e Catalina Mendoza, lideraram diversos movimentos insurgentes na capital boliviana. Uma dessas ações visava acabar com a proibição de trafegar em bondes impostas as cholas. Hoje, as cholas são consideradas as fundadoras e guardiãs da culinária boliviana.
Suma Qumaña. Sumak Kawsay!
Os dois conceitos acima são sinônimos de viver bem. São conceitos da filosofia aimará e são alternativas ao individualismo, à agressividade e competitividade da sociedade liberal. 12 Suma Qumaña é um projeto do agora.
Não é uma utopia futurista que se implantada viria a reformar e melhorar a humanidade. O Suma Qumaña se baseia no respeito implantado agora, no presente. É pura tradição aimará. É uma forma de convivência entre o próximo e com a natureza de forma ética e respeitável. É a filosofia essencial dos povos aimarás. É mais que solidariedade entre classes. É uma noção de ligação com a natureza e com outros seres humanos. As filosofias aimarás são antecessoras ao anarquismo e ao socialismo. Ou seja, os movimentos operários bolivianos tiveram muito mais influência de conceitos ancestrais do que do anarquismo e socialismo europeu. É uma prática e filosofia decolonial, pois não vê os outros como seres e culturas a serem eliminadas ou apagadas. É uma filosofia de resistência. Reconhece e valoriza a diversidade. Se nega a inclinar-se a culturas impositivas e agressivas. É ser ético com a natureza e com os outros.
Brasil Negro Insurgente | Anarquistas e socialistas libertários pretos e pardos da Primeira República (1889-1930)
Mais do que exceções em um movimento dominado por figuras brancas e imigrantes europeus, esses sujeitos constroem uma genealogia afro-brasileira da insurgência, uma história viva e radical que desestabiliza as narrativas oficiais sobre o operariado, o anarquismo e o socialismo no país.
Ao responder à pergunta incômoda “onde estão os libertários negros na historiografia brasileira?”, o autor desmonta explicações racistas que insistiram, por décadas, na suposta ausência das populações negras das ideias revolucionárias. O resultado é um mapa político de resistência, pedagogia e luta.
Entre os nomes reunidos estão homens e mulheres, operários, intelectuais, militantes de base, sindicalistas, educadores e agitadores culturais que atuaram nas ruas, nas greves, nos jornais e nas associações populares. Suas histórias revelam como a luta por emancipação racial e social sempre estiveram entrelaçadas no Brasil.
“Brasil negro insurgente” é uma obra urgente para tempos de apagamento. Ao devolver rostos negros e mestiços aos anarquismos e socialismos brasileiros, o livro propõe um novo ponto de partida: o reconhecimento da insurgência negra como parte constitutiva e não marginal da utopia libertária.
ONDE COMPRAR? Brasil negro insurgente — Editora Monstro dos Mares
Blog Terra Sagrada
O Terra Sagrada é um espaço dedicado à luta pela terra e pela preservação do meio ambiente. Atuamos como um canal de apoio às causas indígena, quilombola, camponesa e popular. Acreditamos que a informação é uma ferramenta de resistência e transformação social.
Aqui, você encontrará notícias e análises diretas sobre lutas e conquistas territoriais, além de um mergulho profundo na cultura, no folclore, nas tradições e nas medicinas ancestrais desses povos.
No que Acreditamos
Este é um ponto de encontro para todos que almejam um mundo de:
Liberdade e Pluralidade: Respeito à diversidade de povos e pensamentos.
Solidariedade: Apoio mútuo nas causas populares.
Equilíbrio Ambiental: Defesa ativa de todo o ecossistema.
Aprendendo com o passado e com a sabedoria dos povos originários, atuamos no presente para construir um futuro melhor e mais digno para todos os seres vivos.
O blog é editado e mantido por Alex Goulart Baseia.
Alex é jornalista graduado pela Universidade Cruzeiro do Sul, com uma trajetória de décadas dedicada ao ativismo antifascista e à defesa das liberdades. Sua atuação é marcada pelo compromisso inabalável com as causas dos povos indígenas e afro-brasileiros.
Além de sua formação técnica, Alex integra o Instituto de Estudos Ancestrais (Origens), onde atua como trabalhador das medicinas sagradas, unindo o rigor jornalístico à sabedoria ancestral. Morador e militante da comunidade do Rio Pequeno, em São Paulo, ele traduz seus valores em uma luta contínua e sincera pelas causas populares.
sábado, 27 de junho de 2026
Anarquismo no Pará: a morte do anarquista Plácido de Albuquerque (1920)
Em 1920, dois operários anarquistas foram escolhidos para representar os trabalhadores do Pará no Terceiro Congresso Operário Brasileiro, organizado pela C.O.B no Rio de Janeiro: José da Silva Gama e João Plácido de Albuquerque. José da Silva Gama nasceu em Maceió, mas cedo mudou-se para Belém. Se tornou um anarquista a partir das leituras de Kropotkin, Gorki e Tolstoi. Já era bem conhecido por participar de grupos de propaganda libertária em Belém.
Já João Plácido de Albuquerque nasceu em 1885, em Minas Gerais, se mudou para Belém do Pará ainda jovem. Começou a militância anarquista em 1913. Entre 1913 e 1920 foi um incansável militante anarquista da cidade. Plácido foi perseguido e demitido de inúmeras vezes. Com outros libertários, fundou grupos de propaganda anarquista na capital paraense. Enquanto não tinha emprego, Plácido fabricava e vendia cigarros para poder sobreviver. Em 1917, em artigo publicado A Plebe, João Plácido informava, bastante animada, o surgimento de diversas associações de classes em Belém. Por causa destes históricos favoráveis, Silva Gama e Plácido Albuquerque embarcaram no navio Campos para o Rio de Janeiro representando o proletariado paraense.
Ao chegarem na capital, os dois libertários foram abordados e presos acusados de serem ladrões e anarquistas perigosos. Telegramas enviados pela polícia do Pará para a polícia do Rio de Janeiro informavam a ida de dois militantes anarquistas. Os dois foram levados para a Delegacia Central. Silva Gama se mostrou mais reservado do que seu companheiro. Por sua vez, Plácido Albuquerque não negou o motivo de estar naquela cidade. Disse que representava o operariado de Belém. Relatou aos policiais a dificuldade de trabalhar mais de 8 horas por dia numa cidade como Belém. Ao final das explicações ironizou: “Não era melhor que me prendessem lá, poupando-me da viagem?”
Da Central de Polícia, Plácido foi levado ao Hospital onde morreria dias depois. José da Silva Gama denunciou que os dois sofreram maus tratos e Plácido falecera por conta das torturas sofridas. O corpo do operário foi velado na sede da União da Construção Civil. O enterro de Plácido, no Cemitério do Caju, capital federal, foi acompanhado por mais de mil operários que entoavam hinos libertários como Filhos do Povo. O caixão foi baixado ao canto da Internacional.
REFERÊNCIAS
KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente; Ed. Monstro dos Mares. 2025
RODRIGUES, Edgar. Companheiros.
PERIÓDICOS
GAZETA DE NOTÍCIAS. Data: 25/04/1920. N.114
A PLEBE.18/08/1917.N.10.P.2.
GAZETA DO RIO. 25/04/1920. N. 114
A RUA. 24/04/1920.N.103.
A VOZ DO POVO.26/04/1920.N.79.
____________.01/05/1920.N.84.
____________. N. 84. 01/05/1920.
____________.03/05/1920.N.85.
BIOGRAFIA AUTOR
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO!
Félix Cantalício Aracuyu: mestizo anarquista!
Félix Cantalício Aracuyú nasceu em Belén, departamento de Concepción, Paraguai. Ele era filho de mãe guarani e pai negro. El Mestizo Aracuyu, como era conhecido, foi um operário anarco-sindicalista bastante ativo e influente tanto no Paraguai como na Argentina.
Félix Aracuyú começou a sua vida militante na década de 1910. Em 1913, em Assunción, Aracuyu se filiou a Sociedade de Resistência Pintores Unidos, de orientação anarquista. Nesta época, ele ajudou a fundar o Centro Obrero Regional Paraguayo (CORP). Aracuyu ficou conhecido por ser um excelente e carismático orador operário bastante respeitado entre seus pares. Suas palestras e conferências eram feitas tanto no idioma espanhol como no idioma guarani. Por conta de sua popularidade e de sua militância, Félix Aracuyú foi bastante perseguido pelas autoridades paraguaias. Em 1924, diante uma grande greve de operários em Assunção, o governo paraguaio levou adiante uma brutal repressão. A polícia e o exército invadiram associações operárias e levaram presos diversos sindicalistas anarquistas. Aracuyú foi um destes sindicalistas presos.
Os presos foram deportados para Puerto Mariño, num lugar chamado Pão de Açúcar, no estado do Mato Grosso, Brasil, onde foram abandonados e deixados para morrer. Guiados por Aracuyú, os operários fugitivos chegaram ao Paraguay após percorrerem, por 40 dias, mais de 1000 km, se alimentando de frutos e de pequenas caças. A partir de então, Aracuyú se fixou na Vila de Encarnacion onde se envolveu com o movimento operário do local. A cidade ficava a poucos quilômetros de Posadas, em Misiones, Argentina. Em Encarnación, as comemorações do Primeiro de Maio de 1926 foram organizadas pelo Centro Obrero Regional, liderado por Aracuyu, e a Liga de Obreros Marítimos, liderado por Tomás Jara, na Argentina. Os dois operários eram anarquistas e fizeram palestras para milhares de pessoas naquele dia. Ciríaco Duarte, outro grande anarquista paraguaio, se tornou libertário após assistir este evento.
Cantalício Aracuyu foi um dos envolvidos no famoso episódio conhecido como a Tomada de Encarnación (La Toma de Encarnación), em 1931. Cerca de 80 anarquistas e comunistas tentaram tomar a cidade de Encarnación e criar uma experiência libertária. De Encarnación, o plano era estender as ideias e as práticas comunistas libertárias para todo o país. Mas o sonho libertário de Encarnación durou apenas 16 horas. O exército foi enviado para reprimir o evento, mas vários operários conseguiram escapara para Foz do Iguaçu, no Brasil. Félix Aracuyú, porém, foi atingido com um tiro na nuca que lhe atravessou a boca. Milagrosamente, ele sobreviveu, mas foi preso. Em 1932, foi solto e concedeu entrevista a um repórter relatando toda a sua experiência libertária.
Na década de 1930, o anarquista continuou a militância fazendo palestras e conferências no território argentino, quase sempre no idioma guarani. Félix Cantalício Aracuyú, El Mestizo Aracuyú, morreu em 1982, no Paraguai.
REFERÊNCIA
Margarucci, Ivanna y Schroeder, Diego (2022), “Aracuyú, Cantalicio“, en Diccionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas. Disponible en https://diccionario.cedinci.org
León Naboulet, El primer amago de tendencia anarquista en el Paraguay. La toma de Encarnación, Posadas, Jean Valjean, 1932.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO!
O anarquismo negro na África do Sul (1910-1920)
Antes do Apartheid, porém, existiam outras formas/táticas de controle, como a Lei de Passes, onde as populações negras e indianas eram obrigadas a portarem passaportes com registros especificando lugares, horários e moradias das pessoas não-brancas. O segregacionismo era replicado pela maioria dos trabalhadores brancos pobres.
Os primeiros sindicatos da África do Sul, criados no fim do século 19, também eram restritos aos brancos. Os brancos pobres defendiam o trabalhismo restrito: bem estar social, direitos trabalhistas e reserva de trabalho para operários brancos. Esse quadro predominou até meados dos anos de 1910. O anarquismo na África do Sul surge num contexto de dominação colonial e de brutal segregação racial. Uma das associações mais radicais surgidas no período foi a International Social League (ISL) que tinha como:
objetivo declarado da ISL, de ser uma organização que atravessasse a linha de cor, era radical demais para a maioria dos trabalhadores brancos, que não reagiam bem às incessantes tentativas da ISL para reformar os sindicatos existentes. Na verdade, os oradores da ISL enfrentavam uma considerável e crescente violência no final da década de 1910.
A Liga Internacional Socialista (ISL), criada na segunda metade dos anos de 1910 e de orientação sindicalista revolucionária, foi uma associação libertária e interracial, anti-capitalista e anti-segregacionista. Ao contrário do trabalhismo branco, ideologia dos sindicatos sul africanos restritos aos brancos, os sindicatos anarquistas defendiam além da filiação de negros e asiáticos nas associações o fim das leis de passes e o fim de outras formas de segregação racial.
O anarquismo sindicalista atraiu muitos operários negros e indianos: Fred Cetiwe, Johnny Gomas [foto], Hamilton Kraai, Bernard L. E. Sigamoney e T. W. Thibedi, para citar alguns. O professor anarquista indiano Bernard Singamoney foi um militante bastante ativo na África do Sul na década de 1910. Foi filiado ao Sindicato Industrial dos Trabalhadores Indianos em Durban e a ISL.
O militante Hamilton Kraai foi bastante ativo na ISL além de ser membro dos Trabalhadores Industriais da África. Organizou diversos protestos e atos de desobediência civil contra as leis do passe em 1919. Já Fred Cetiwe foi um dos mais radicais defensores do socialismo revolucionário da ISL. Ele pregava abertamente o fim do sistema capitalista e do segregacionismo.
Thibedi William foi um professor anarco-sindicalista sul africano nascido no ano de 1888. Na cidade de Johanesburgo, Thibedi ingressou na Liga Internacional Socialista, de orientação sindicalista revolucionária, em 1915. Esta associação era uma das maiores da África do Sul e Thibedi se tornou um dos mais carismáticos representantes anarquistas da Liga. A ISL chegou a ser atacada por hooligans brancos da África do Sul.
Já Johnny Gomas nasceu em 1901, na cidade do Cabo. Gomas foi alfaiate e também ingressou na ISL. Também foi filiado ao Sindicato Industrial dos Têxteis de Kimberley. Em meados dos anos de 1920, Gomas fez parte do Partido Comunista na África do Sul. Ele morreu em 1979.
O anarquismo sindicalista das duas primeiras décadas do século 20, na África do Sul, desempenhou, portanto, um papel fundamental na luta contra o sistema colonial, o preconceito racial e as políticas segregacionistas. Comunistas, sindicalistas e libertários negros e indianos foram pioneiros na luta contra a opressão dos povos não-brancos na África do Sul.
[1] WALT, Lucien Van Der. Negro e Vermelho. anarquismo, sindicalismo revolucionário e pessoas de cor na África Meridional nas décadas de 1880-1920.
REFERÊNCIAS
WALT, Lucien Van Der. Negro e Vermelho. anarquismo, sindicalismo revolucionário e pessoas de cor na África Meridional nas décadas de 1880-1920.
CNT. (2011). “Zabalaza: A Voice for Organised Anarchism in South Africa”, Barcelona: CNT. Retrieved 4 January 2012.
“About Us”, Zabalaza Books. Retrieved 4 January 2012.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO!
" A Matrona Imoral" - Breve Biografia de Gilka Machado (1893-1980)
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