segunda-feira, 20 de julho de 2026

" A Matrona Imoral" - Breve Biografia de Gilka Machado (1893-1980)


Gilka da Costa de Melo Machado (1893-1980), mais conhecida como Gilka Machado, foi uma poeta e escritora afro-brasileira. Foi uma das primeiras escritoras brasileiras a escrever poesia erótica no país. Suas poesias foram consideradas imorais e ela ficou conhecida na imprensa conservadora como a “matrona imoral”.

Gilka Machado casou-se com o poeta Rodolfo de Melo Machado (1885-1923) e teve dois filhos: Helios e Hélia, que se tornou uma das maiores bailarinas e atrizes do país sob o nome de Eros Volúsia (1914-2004).  Gilka Machado publicou o primeiro livro em 1915, Cristais Partidos. Logo depois a escritora publicou: A revelação dos perfumes (1916), Estado de alma (1917), Poesias (1915–1917) e Mulher Nua (1922). Em 1933, ganhou um concurso que a escolheu como a melhor poeta do século 20.

Gilka Machado nunca se disse anarquista. Porém, sempre foi muito lida e admirado pelos operários, libertários e socialistas. Além disso, a escritora tinha em seu círculo de amizade libertários e libertárias conhecidos como José Oiticica, Edgar Leuenroth, Maria Lacerda de Moura, Pereira da Silva, Elysio Carvalho, Manoel Bomfim e Raimundo Reis. A escritora era próxima a Maria Lacerda de Moura.  Em carta a anarquista feminista e individualista Maria Lacerda de Moura, Gilka Machado criticava as feministas de elite:  “quando a miséria nos acirra, é inútil recorrer a uma patrícia: ela não tem noção da caridade (que eu diria, solidariedade), do dever humano e só protege em dias determinados, por meio de chás concertos e requebros de tango; para elas a desgraça sempre é motivo de divertimento”.

Gilka Machado chegou a ser entrevistada pelo jornal A Plebe na década de 1910, onde demonstrou vários pontos em comum com o pensamento anarquista: aversão a política tradicional; aversão aos partidos políticos; e aversão ao poder patriarcal. Muitos jornais divulgaram palestras e conferências de Gilka Machado em associações e sindicatos obreiros. Gilka renegou convites para entrar na Academia Brasileira de Letras.  O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade definiu Gilka Machado como uma anarquista romântica, pois havia muito mais que sensualismo e erotismo na sua poesia. Havia preocupação social, de acordo com Drummond.

A escritora ganhou o Prêmio Machado de Assis em 1979. Devido ao preconceito da sociedade, como também o dos seus pares escritores, Gilka Machado escondia com pesada maquiagem clara seus traços negros. O escritor Afrânio Peixoto, ao visitá-la um dia, se surpreendeu com a habitação da escritora e com a verdadeira cor de pele de Gilka Machado afirmando que a escritora era, na verdade, uma “mulatinha muito escura”. Gilka da Costa de Melo Machado morreu em 10 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.

REFERÊNCIAS

CAMPOS, Humberto. Diário Íntimo.

MOURA, Maria Lacerda. A Mulher é uma Degenerada.

PLEBE, A. ano:1917

KARLLOS, JR. Brasil Negro Insurgente. Monstro dos Mares. 2026.

Autor:

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

quarta-feira, 15 de julho de 2026

ÀS ARMAS! O Levante de Manoel Bernardino no Maranhão (1921)

 



Manuel Bernardino de Oliveira foi um agricultor, professor e revolucionário brasileiro que liderou grupos armados contra latifundiários da região de Mata, perto de Codó, no Maranhão, durante a década de 1920. Jornais conservadores e a elite agrária o chamavam de Lênin maranhense, maximalista, fanático e diziam que Bernardino pretendia montar um soviete no interior do Maranhão. As principais fontes sobre a atuação de Manoel Bernardino são os jornais: A Pacotilha, Diário de São Luiz e o Diário Oficial do Maranhão. Bernardino chegou a dar entrevistas a alguns dos periódicos citados acima relatando fatos sobre a sua vida, suas ideias e planos.

Biografia: Manoel Bernardino (1882-1942)

Bernardino nasceu no Piauí em 1882. Viveu no Ceará e no Pará, onde trabalhou nos seringais. Morou em Belém e em São Luiz, onde travou contato com as ideias socialistas, mas sem detalhar em que situações. Como lavrador, já na região de Codó, Bernardino dedicou-se a lavoura de algodão. O estado só se fazia presente na região através da polícia e dos cobradores de impostos. Nesta mesma época, Bernardino e outros camponeses formaram a Liga de Defesa, com cerca de cem pessoas. A Liga de Defesa era um grupo de autodefesa dos agricultores como também um grupo de combate a roubos e estupros.

Manoel Bernardino integrou a Coluna Prestes no Maranhão e liderou cerca de 200 homens. Porém, entrou em conflito com lideranças da Coluna por defender a Reforma Agrária. Ele desertou em 1926. Ao voltar para o Maranhão em 1929, Bernardino havia se tornou um estrito vegetariano. Toda a comida que consumia era colhida do seu roçado. Segundo parentes, ele não consumia leite por ser “sangue de vaca” e não matava os insetos. Sua alimentação era a base de leite de coco.

Influências: Jesus, Kardec, Tolstoi e Zapata

Bernardino tinha uma modesta biblioteca em sua casa formada por livros e revistas enviadas de vários lugares. De acordo com seu sobrinho, Bernardino fazia parte da “Comunhão Esotérica do Pensamento“. Ele foi fortemente influenciado pelo espiritismo, por um cristianismo primitivo, hinduísmo, por religiões afro-indígenas e pelo Tolstoismo. O próprio Bernardino considerava Jesus Cristo um dos primeiros socialistas da História. Ele leu Kardec e Leon Denis, um socialista espírita. Nem todos os anarquistas da Primeira República eram ateus. Muitos anarquistas eram espiritualistas, tolstoianos, hinduísmo e espíritas: João Penteado, Edgar Leuenroth, Everardo Dias e Maria Lacerda de Moura (por alguns anos), por exemplo. Outros como José Oiticica e Everardo Dias eram de sociedades Maçônicas e Rosa Cruz.

Além das leituras religiosas, Bernardino assumiu ter sido influenciado pela Revolução Mexicana (1910-1920) e pelos jornais operários que traziam notícias das movimentações operárias como a Greve de 1917, em São Paulo, e a Insurreição Anarquista de 1918, no Rio de Janeiro. Provavelmente, Bernardino teve contato com a imprensa operária de São Luiz e de Codó. Os jornais elitistas do Maranhão, pelo contrário, o comparavam a Lenin, Antônio Conselheiro e aos cangaceiros.

Motivações

As causas apontadas para a insurreição em Mata foram a violência dos latifundiários, a desigualdade social, o descaso das autoridades e os impostos pesados. Os poetas cordelistas da região narraram que a luta de Bernardino foi motivada pela luta por construção de escolas na região. Na falta de escola, o próprio Bernardino deu aulas gratuitas na própria residência para lavradores e crianças da região em 1917.

As movimentações dos camponeses de Bernardino passaram a estar na mira das autoridades. Uma suposta carta de Bernardino foi interceptada pela polícia. A carta revelava um possível “batismo de sangue” do grupo armado de Manuel Bernardino. Um dos trechos da suposta carta de autoria de Bernardino interceptada pelas autoridades dizia: que o povo armado faça a Câmara! Às armas! Para Frente!

De acordo com as autoridades, Bernardino era um inteligente propagador do socialismo e defendia a derrubada dos governos para fundar um sistema em que vigorasse os interesses do povo. As autoridades afirmavam que Bernardino comandava um exército de cerca de mil lavradores.

Os boatos sobre uma revolução comandada pelos caboclos de Bernardino se espalharam pela região. Latifundiários montaram suas próprias milícias particulares. As autoridades oficiais também destacaram soldados para a região. Ao todo cerca de 600 homens armados foram mobilizados para combater o exército popular de Bernardino.

Os Fuzilamentos de Matta (1921)

Em 29 de julho de 1921, no distrito de Matta, Codó, o levante armado liderado por Bernardino foi duramente reprimido pelas forças militares do Maranhão. O destacamento liderado pelo tenente Henrique Dias foi enviado ao local. No local, o tenente encontrou, prendeu e “interrogou” velhos, crianças e mulheres, mas nenhuma revolta.

Alguns prisioneiros foram amarrados nas árvores para serem “interrogados”. O episódio terminou com a execução de pelo menos quatro pessoas, lavradores pobres caboclos e negros. Pelo menos duas vítimas eram filhos de Maria Paca, uma das integrantes do grupo de Bernardino.  Integrantes do próprio destacamento militar assumiram e denunciaram os fuzilamentos ordenados pelo Tenente Henrique Dias. Jornais oposicionistas afirmavam que mais de cem pessoas haviam sido executadas e que os corpos serviam de comida para os urubus. As notícias chegaram ao governador do Maranhão que abriu um inquérito para apurar os fatos.

O inquérito militar confirmou a execução de quatro pessoas. Elas foram assassinadas numa antiga estrada. Os corpos foram enterrados em valas comuns. Tempos depois, surgiram boatos de que mais 14 ossadas haviam sido encontradas. Os populares também denunciaram que alguns agricultores estavam desaparecidos desde o fatídico dia. Atualmente, o local onde os corpos dos quatro camponeses foram encontrados chama-se “O Cemitério dos Afuzilados”. Os culpados pela execução foram julgados e absolvidos por unanimidade.

Manoel Bernardino de Oliveira morreu em 1942, aos 60 anos.

FONTES:

ALMEIDA, Giniomar Ferreira: O Lenine Maranhense: fuzilamentos e cultura histórica no interior do Maranhão. (1921). UFPB-2010.

FERREIRA, John Kennedy.  ORGANIZAÇÃO DAS IDEIAS SOCIALISTAS NO MARANHÃO; Revista de Políticas Públicas, vol. 22, pp. 347-366, 2018. Universidade Federal do Maranhão.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Canto

Um canto antigo

Vem no vento amigo

Vem andar comigo

Nesta solidão!


Um canto vindo

De um tempo lindo

Vem dizer: é findo!

Esta escravidão!


Um canto justo

Sem lamento ou custo

Vem causar o susto 

Nesta ilusão!


Um canto forte

Sem medo da morte

Vem mostrar o norte

Nesta confusão!

Enquanto for carne...

 As roupas que me vestem

Não escondem o meu ser

Os prédios que me cercam

Não comprimem meu espírito

O asfalto que me move

Não desfaz minha raiz

Enquanto for carne

Meu coração pulsará

O ritmo ancestral

10 breves tópicos sobre o Anticolonialismo

 


1. De forma geral, colonialidade é a repetição e manutenção de práticas e conhecimentos que geram a ideia de que certos povos, línguas, continentes e histórias são inferiores a outros

2. O contracolonialismo/anticolonialismo é um conjunto de práticas e teorias combativas que visa destruir as sequelas de anos e anos de dominação colonial impostas aos povos asiáticos, africanos, latinos, originários etc.

3.contracolonialismo/anticolonialismocultura, nas estruturas sociais e políticas de muitos países. Mais que isso: também estão fincadas na mente e nos corpos das vítimas do processo colonial.

4. A ideologia colonialista sempre se reinventa. Nas últimas décadas, o surgimento de novos procedimentos estéticos deu novo fôlego a ideologia do “branqueamento” no Brasil. Harmonizar também pode ser uma tentativa de omitir ou apagar traços e ângulos corporais considerados “indesejáveis”.

5. Pessoas progressistas também podem reproduzir ideologia colonialista, mesmo que não percebam. Ser ateu, evolucionista ou vegan não isenta ninguém de práticas e discursos racistas/colonizados.

6. Todos aqueles que desejam, por exemplo, lutar contra o racismo, o genocídio indígena/palestino e os neofascismos devem buscar novos fundamentos e fontes de saberes fora da zona de conforto/conhecimento na qual estão acostumados.

7. Atitudes e pensamentos contracolonialismo/anticolonialismo andam juntos. Pequenas ações e reflexões diárias ajudam a destruir resquícios de colonialismos.

8. contracolonialismo/anticolonialismo deseja fazer voltar para os povos silenciados os espaços de protagonismo e de voz ativa que sempre tiveram.

o O contracolonialismo/anticolonialismo é a destruição de estereótipos racistas persistentes.

10. o contracolonialismo/anticolonialismo é sentir outras melodias e ritmos. Ouvir Cesária Évora ou Taiguara é tão contracultural/rebelde quanto ouvir Rage Against The Machine ou Childish Gambino.

WHITE ANARCHIST EXPLAINING...


 • Durante um debate ou uma conversa sobre África, o WHITE ANARCHIST vai querer te ensinar algo sobre o continente ou sobre os povos originários, com toda autoridade de quem não sabe nada.

 • O WHITE ANARCHIST vai dizer que não é eurocentrismo usar dread e moicano apenas como simples adornos estéticos. 

 • O WHITE ANARCHIST usará a retórica do antepassado negro/não branco para tentar trazer para si mesmo algum tipo de autoridade, neutralidade ou permissão quando o assunto envolver questões étnicas.

• O WHITE ANARCHIST vai desconsiderar, minimizar ou menosprezar outras formas de associações e experiências comunalistas que não sejam nos moldes do anarquismo/socialismo tradicional europeu, materialista, branco.

 • O WHITE ANARCHIST enxergará opressão somente nas mulheres que usam burca. Mas não enxergará tanta opressão assim sobre os corpos das mulheres ocidentais que se matam para ter um corpo dito “perfeito”. 

 • Quando o assunto for imigração, o WHITE ANARCHIST fará um jogo duplo: vai dizer que defende direitos humanos para todos, mas, na verdade, ele estará “rezando” para que certos imigrantes (árabes e subsaarianos) não invadam a sua querida e “liberal” Europa/USA. 

 • O WHITE ANARCHIST defenderá um veganismo eugenista, evolucionista e racista. Dividirá a humanidade entre os veganos e os não veganos. E assim como o seu Deus Morrissey qualificará como subespécies todas as culturas e etnias que não sigam o veganismo eugenista. 

 • O WHITE ANARCHIST defenderá que o materialismo é a única verdade das coisas do  mundo. Ou seja, todas as manifestações espirituais e religiosas serão vistas como formas supersticiosas, atrasadas e primitivas de entender o mundo.

* O WHITE ANARCHIST encontrará mil e um panos para passar quando o assunto for Darwin e o darwinismo social. E assim como os religiosos afirmam que a palavra de Deus foi deturpada, os evolucionistas eurocêntricos também dirão que as ideias de Darwin foram desviadas.

Anarquismo Rizomático

 

AYA - Adinkra da Resistência.

O projeto Iluminista convenceu quase todo o mundo de que a Europa e, mais tarde, os EUA são os portadores da verdade. Dessacralizou montes, rios e animais, não apenas para “conhecer melhor”, mas para torná-los “coisas” e “matérias-primas” de fácil mercantilização. O conhecimento artificial e científico iluminista apartou os indivíduos da natureza.

O cientificismo também convenceu muita gente de que existiam raças humanas hierarquizadas em graus de superioridade e inferioridade. Claro que os europeus, inventores desta hierarquia, se colocaram no topo do pódio. Tomaram para si a noção linear de tempo cristã. No lugar do “paraíso”, a Humanidade alcançaria o Progresso. O povo escolhido, eram os europeus. Em vez de Deus, a Ciência. Em vez da fé, a razão.

A Ciência iluminista se espalhou pelo mundo nos mesmos navios e vagões que levavam colonizadores, escravagistas, administradores, latifundiários, etc. Tal conhecimento operou e ainda opera como o imperialismo europeu: dissolvendo costumes tradicionais e saberes orgânicos de povos originários, impondo um conhecimento estranho a estes povos.

O anarquismo é o filho rebelde do Iluminismo. Foi um dos primeiros movimentos iluministas a criticar o próprio Iluminismo. Certas características do anarquismo, porém, carregam ainda consigo muito do eurocentrismo: a crença na razão iluminista superiora a outras epistemes não europeias; o modelo de homem racional/revolucionário/ocidental; a crença cega no evolucionismo de base eurocêntrica, entre outras. Este projeto fechado em si mesmo, prejudica a reconstrução coletiva do anarquismo.

Para poder dialogar com as lutas contemporâneas, o anarquismo necessita abandonar de vez o seu antigo projeto cientificista, linear e eurocêntrico. Abandonar o modela sistêmico arborescente, onde o conhecimento “cresce” a partir de um tronco fundador, isolado e imutável, e adotar um modelo rizomático de construção de saber e de prática libertárias.

O rizoma é um conceito da dupla de filósofos Deleuze e Guatarri. Descentralizado, o rizoma não tem hierarquia. É uma estrutura típica de coletivos anarquistas, associações libertárias e movimentos artísticos. O estado, as associações hierárquicas, as instituições tradicionais operam de acordo com o modelo “arborescente”, com o tronco representando uma autoridade central. Várias filosofias não-ocidentais se abrem para a construção e recepção de conhecimento, como as filosofias ubuntu (bantu) e tekoá (guarani), por exemplo.

O pensamento rizomático opera em conjunto com a tática da máquina de guerra. As máquinas de guerra são manifestações rizomáticas. Uma máquina de guerra é um conceito que nada tem a ver com qualquer sentido militarista ou bélico. Na verdade, trata-se de um conceito de caráter anti-militarista e anti-autoritário. Trata-se de formas de resistências nômades e temporárias.

As máquinas nômades abrem caminhos e operam através de associações libertárias que funcionam de forma descentralizada, autônoma e horizontal. São práticas e agrupamentos que a todo o momento se insurgem contra a formação de hierarquias bem como a submissão a estas mesmas hierarquias: blocos autônomos de carnaval, bibliotecas comunitárias, coletivos em favelas e periferias, sabotagens, mutirões, boicotagem.

As Zonas Autônomas Temporárias (TAZ), detalhadas por Hakim Bey, são exemplos de Territórios e experiências rebeldes, mas que não visam uma revolução no sentido clássico. Não pretendiam a criação de um estado revolucionário nos moldes de Cuba ou URSS.  Sociedades secretas, Hacktivismo, piratas, quilombos, Confederações Indígenas, Zapatistas, Rojava, Mapuches, coletivos anarquistas vão se fazendo comunidades horizontais de acordo com as demandas, conflitos e experiências cotidianas.

A essência do Estado é a dominação e submissão de povos, a formação de territórios, a imposição de línguas, identidades e costumes. É a eliminação da diversidade. É a exploração e a demonização do outro. É o principal motor da necropolítica: deixar morrer aqueles que não se “adequam” ao estado. As máquinas de guerra, ao contrário, traçam rotas de fugas, inventam novas línguas e identidades.

domingo, 12 de julho de 2026

ANARQUISMO CONTEMPORÂNEO

 


ANARQUISMO CONTEMPORÂNEO 

Após 200 anos, anarquistas de todas as cores, lugares e gêneros continuam a incessante luta libertária contra o capital e o estado. El@s estão em todas as partes, mas apenas os anarquistas dos EUA e da Europa ganham visibilidade. No continente africano, @s anarquistas estão envolvidos em lutas armadas, movimentos sociais e outras causas específicas. 

Na África do Sul, o coletivo anarquista ZABALAZA está envolvido com Ocupações Populares nas grandes cidades da África do Sul juntamente com ABAHLALI BASEMJONDOLO, um Movimento dos Moradores de Favelas da África do Sul. Este coletivo já teve mais de 20 militantes assassinados pelas autoridades sul africanas. No Sudão, os anarquistas da Grupo Anarquista do Sudão pegam em armas para combater e defender os seus ideais. Os conflitos no Sudão já deixaram mais de 15 mil mortos e causaram a migração de milhões de sudaneses. Em outubro de 2025, mais 4 militantes anarquistas morreram em combate contra as forças autoritárias e genocidas do país. Os nomes deles: Faisal Adam Ali, Radwan Abdel Jabbar (“Kahraba”), Adam Kibir Musa, Abdel Ghaffar Al-Tahir (“Al-Sini”). 

 No Oriente Médio, a Luta Anarquista de Rojava é uma organização armada libertária curda que luta contra o estado autoritário da Síria desde 2012. A Luta Anarquista assume o anarquismo social, se opondo tanto ao anarquismo individualista quanto ao comunismo marxista-leninista. O grupo é um dos 4 grupos que assumem o anarquismo como orientação política. O grupo, assim como as Forças Guerrilheiras Internacionais e Revolucionárias do Povo, defende a defesa dos direitos LGBTQ+, e conta com a participação de combatentes transgênero.

 Na América Latina, existem diversas experiências libertárias. No México, o EZLN continua firme e forte com projeto zapatista em Chiapas desde os anos de 1990. No Chile e na Argentina, grupos de ação direta Mapuches seguem em combate contra invasões dos seus territórios. As retomadas são ações que visam a reapropriação dos antigos territórios dos povos originários. Na Bolívia e no Perú, os povos Aimarás e incas continuam organizados de forma eficazes contra os agentes autoritários dos países. O katarismo e o movimento Cocalero são fortíssimos na Bolívia. 

 Como se vê, o anarquismo segue vivo entre os povos do sul global!

Forças Reacionárias Massacram a População no Sudão (01/11/2025)

 

 Declaração da Federação Anarquista 

 As "Forças de Apoio Rápido" cometeram mais um massacre em Kordofan do Norte (um estado do Sudão). Mataram centenas de pessoas, incendiaram casas e saquearam os bens da população. Somente na cidade de El Fasher, mais de 2.000 cidadãos foram mortos. 

 Essa força paramilitar, sob o comando do Serviço Geral de Inteligência do Sudão, sitia El Fasher há 18 meses para quebrar a resistência popular. Alimentos, medicamentos e todos os outros meios de sobrevivência foram cortados de mais de 1,2 milhão de habitantes. De acordo com uma declaração do Grupo Anarquista no Sudão, datada de 1º de novembro de 2025, quatro camaradas anarquistas morreram em El Fasher enquanto defendiam a cidade. Seus nomes são: Faisal Adam Ali, Radwan Abdel Jabbar ("Kahraba"), Adam Kibir Musa e Abdel Ghaffar Al-Tahir ("Al-Sini"). 

Ao contrário do que a grande mídia divulga, esta guerra está sendo travada por gangues militar-capitalistas, impulsionadas para a linha de frente com o objetivo de esmagar o movimento de massa de 2019 que aspira à liberdade e à justiça social. Essas gangues armadas já mataram mais de 150.000 pessoas e forçaram outras doze milhões ao exílio. As potências imperialistas e seus aliados regionais, sejam os Estados Unidos, a União Europeia ou as petro monarquias do Golfo, apoiam essas gangues beligerantes sudanesas. A Federação Anarquista condena veementemente o massacre da população sudanesa e une sua voz à dos camaradas anarquistas no Sudão que clamam por uma luta contra esta guerra. 

 Federação Anarquista 3 de novembro de 2025

 https://monde-libertaire.net/?articlen=8664

A TERRA DÁ, A TERRA QUER - Nego Bispo

 



Na década de 1940 houve uma grande campanha de regularização das terras pela escrita. Isso ocorreu no Piauí e também no resto do Brasil. A lei dizia que as pessoas que ocupavam a terra seriam chamadas de posseiros. Essa lei colocou um nome, coisificou essas pessoas. Não éramos posseiros, éramos pessoas… O que isso significou para nós?

A partir do momento em que a lei diz que somos posseiros, ela está cumprindo um papel importante para o colonialismo. O colonialismo nomina todas as pessoas que quer dominar. Às vezes fazemos a mesma coisa sem perceber: quando temos um cachorro, por exemplo, damos a ele um nome, mas não um sobrenome. Os colonialistas dão um nome, mas não dão um sobrenome porque o sobrenome é o que expressa o poder. O nome coisifica, o sobrenome empodera. Então, ao nos chamar de posseiros, nos colocaram em uma situação de dominação, obrigando-nos a cumprir os contratos que a nominação de posseiros nos impunha.

Os contratos do nosso povo eram feitos por meio da oralidade, pois a nossa relação com a terra era através do cultivo. A terra não nos pertencia, nós é que pertencíamos à terra. Não dizíamos “aquela terra é minha” e, sim, “nós somos daquela terra”. Havia entre nós a compreensão de que a terra é viva e, uma vez que ela pode produzir, ela também precisa descansar. Não começamos a titular nossas terras porque quisemos, mas porque foi uma imposição do Estado. Se pudéssemos, nossas terras ficariam como estão, em função da vida.

           O poder quilombola sobre as terras é um poder baseado na palavra, na atitude, na relação – e não na escrita. Quando o Estado veio para demarcar as terras, meu avô se recusou, dizendo: “Como vamos demarcar uma coisa que já é nossa?”. Assim, os brancos chegaram, compraram as terras e nós perdemos o direito sobre elas. Mesmo os mais velhos que, naquela época, haviam demarcado as suas terras, ao morrerem as perderam porque os seus herdeiros não fizeram inventários.

A maioria das terras das comunidades tradicionais no Brasil são consideradas espólios, pois ninguém fez escritura. Mas se hoje em dia nós fazemos, porque nos é imposto, tem algo mais grave implicado. Para fazer o título é preciso ter um laudo antropológico – mesmo com a lei dizendo que ser quilombola é autodeclaratório – e um laudo agronômico. É a mais sofisticada utilização da inteligência do Estado para identificar o perfil da resistência.

 Por que precisaríamos de um antropólogo para nos diagnosticar, ler os costumes, as tradições, a nossa cultura? Porque quem mais ameaça hoje o sistema são os povos e comunidades tradicionais, pois somos donos de um saber transmitido espontaneamente pela oralidade, sem cobrar nada por isso.

O nosso povo, por não saber ler, não sabia como funcionavam as escrituras, perdendo assim muitas possibilidades de viver nas suas terras. Então o nosso povo resolveu que alguém de nós deveria saber ler e escrever para enfrentar essa situação. Fui formado para isso e faço isso até hoje. Por isso digo que não sou um pensador, mas um tradutor do pensamento do meu povo. E para o meu povo também sou um tradutor do pensamento do colonialista.

Quando estamos discutindo colonização, quilombos, seus modos e significações, nós estamos tentando compreender o que faz o colonialista pensar como pensa e como devemos pensar para não nos comportarmos como ele.

Nosso povo foi trazido de África para cá. Diferentemente dos nossos amigos indígenas, que foram atacados em seu território podendo falar suas línguas, cultivar suas sementes, dialogar com seu ambiente. Nós fomos tirados dos nossos territórios para sermos atacados no território dos indígenas. E aí nós precisávamos e precisamos – e temos conseguido – ser muito generosos. Porque mesmo tendo sido trazidos para o território dos indígenas, nós não disputamos o território com eles. Nós disputamos com o colonialista o território que eles tiraram dos indígenas, e isso nos dói. Mas precisamos fazer isso. Senão, onde vamos viver?

A surpresa para os colonialistas e a felicidade para nós é que, quando nós chegamos ao território dos indígenas, encontramos modos parecidos com os nossos. Encontramos relações com a natureza parecidas com as nossas. Houve uma grande confluência nos modos e nos pensamentos. E isso nos fortaleceu. E aí fizemos uma grande aliança cosmológica, mesmo falando línguas diferentes. Pelos nossos modos, a gente se entendeu.

Fui orientado pelos nossos mais velhos a tentar compreender por que o povo colonialista faz isso com outro povo. Eu fui pela Bíblia, eu fui pelo que eles escreveram. E encontrei na Bíblia, no Gênesis, uma boa explicação. “O Deus Jeová disse ao homem: por que tu me desobedeceste? A terra será maldita por tua causa. Tu haverás de comer com a fadiga do suor do teu rosto. A terra te oferecerá espinhos e erva daninha. E todos os teus descendentes serão perpetuamente amaldiçoados”.

Nesse momento, esse deus da Bíblia do colonialista – melhor dizendo, eurocristão monoteísta – desterritorializou um povo. Se ele amaldiçoou a terra para aquele povo, este povo não poderia nem tocar naquela terra. Se ele disse que aquela terra estava oferecendo ervas daninhas e espinhos, ele disse que aquele povo não podia comer nem dos frutos, nem das folhas, nem de nada que aquela terra oferecia.

Se ele disse que aquele povo tinha que comer com a fadiga do suor do seu rosto, nesse momento ele criou o trabalho como ação de sintetização da natureza. Ao mesmo tempo ele criou também uma doença que eu chamo de cosmofobia. O medo do cosmo, o medo de deus. Esse povo eurocristão monoteísta se sente desesperado.

Mas nós tivemos que aprender também a conviver com esse deus. E até o aceitamos. Porque, se é deus, deve ser bom. Então, além de ter nossas deusas e nossos deuses, nós ainda temos esse deus. E aí foi onde eles começaram a perder. Porque eles só têm um deus e ainda dividiram com a gente. E nós temos vários. Como eles só têm um deus, eles só olham numa direção. Então o olhar deles é vertical, é linear, não faz curva. Assim é o pensar e o fazer deles. Como nós temos várias divindades, conseguimos olhar e ver a nossa divindade em todos os cantos. Vemos de forma circular, pensamos e agimos de forma circular e, para nós, não existe fim, sempre demos um jeito de recomeçar.

Nosso pensamento é um pensamento que nos permite dimensionar melhor as coisas, os movimentos e os espaços. Nos espaços circulares cabe muito mais do que nos espaços retangulares. E isso nos permite conviver bem com a diversidade e nos permite sempre achar que o outro é importante, que a outra é importante. A gente sempre compreende a necessidade de existirem as outras pessoas.

O povo afro inventou a capoeira. Os eurocristãos inventaram o futebol. Tem um jogo no Mineirão e digamos que tenha 40 mil pessoas nas arquibancadas e 22 pessoas no campo. Digamos que o Cruzeiro e o Atlético estão jogando hoje e o Neymar veio assistir ao jogo. Saiu lá da Europa para assistir ao jogo. Num determinado momento, o time para o qual o Neymar torce está perdendo, e ele pede para entrar no jogo. Pode? Como é que o Neymar, torcendo para um time, quer defender este time e não pode entrar em campo?

Vamos para o outro lado. Tem uma roda de capoeira, e agora vem um europeu, que nunca viu a capoeira. Tem 50 pessoas jogando capoeira, e esse que nunca viu a capoeira pede para entrar. Pode? A capoeira é rodando, o samba é rodando, o batuque, a gira nos terreiros de umbanda e de candomblé… Tudo para nós é rodando. Tudo para os colonizadores é linear. É um olhar limitado a uma única direção.

Os quilombos são perseguidos exatamente porque oferecem uma possibilidade de viver diferente. Não é por conta da cor da nossa pele. Nos documentos da Igreja que eu avaliei, as autorizações e as permissões para que povos fossem escravizados não dizem a cor da pele desses povos, dizem a religiosidade. A bula de 1455 do Papa Nicolau V diz que quem deve ser escravizado são os pagãos e os sarracenos. Ela não diz que é preto, nem branco, nem indígena. São os pagãos. São os povos que têm uma cosmologia. Que povos são esses? São povos que continuam comendo dos frutos das árvores. São povos que não obedeceram à orientação do deus eurocristão. São povos que não sentem obrigação de trabalhar. São povos que não precisam comer com a fadiga do suor, porque a natureza já oferta a comida.

Conceitos que achamos que se parecem muito com os de “bem viver” e de “viver bem” são o “viver de forma orgânica” e o “viver de forma sintética”. Bem viver é viver de forma orgânica e viver bem é viver de forma sintética. Compreendemos que há um saber orgânico e um saber sintético.

Enquanto o saber orgânico é o saber que se desenvolve desenvolvendo o ser, o saber sintético é o que se desenvolve desenvolvendo o ter. Somos operadores do saber orgânico e os colonialistas são operadores do sintético.

Quando o deus dos brancos disse que a terra estava amaldiçoada por causa de Adão e Eva e que comeriam com a fadiga do suor, ele disse que não poderiam desfrutar da natureza como ela se apresenta. Logo, eles precisariam sintetizar tudo. E assim eles saíram mundo afora sintetizando – inclusive a si próprios. Grande parte do pensamento dos brancos é sintetizado.

O pensamento produzido nas academias é um pensamento sintético. É um saber voltado para a produção de coisas. O pensamento operacionalizado pela escrita é um pensamento sintético, desconectado da vida. Já o nosso pensamento, movimentado pela oralidade, é um pensamento orgânico.

O ser tem pouco valor no saber sintético, apesar de ser o criador do ter. Já o ter é a criatura que devora o seu criador. As pessoas atuam sempre em função do ter. Até a biologia está se tornando sintética. Logo vocês vão comer bife sem precisar de boi…

A nossa avaliação é que, neste exato momento, estamos vivenciando uma das maiores possibilidades de um fim desse mundo eurocristão, monoteísta, colonialista e sintético. Esse mundo está chegando ao fim. Não é à toa que estamos vivendo esse desespero, essa grande confusão. Mas, por incrível que pareça, estamos vivendo também uma nova confluência.

Trabalho com os conceitos de “confluência” e “transfluência”. Confluência foi um conceito muito fácil de elaborar porque foi só observar o movimento das águas pelos rios, pela terra. Transfluência demorou um pouco mais porque tive que observar o movimento das águas pelo céu. Para entender como um rio que está no Brasil conflui com um rio que está na África eu demorei muito tempo. E percebi que ele faz isso pela chuva, pelas nuvens. Pelos rios do céu. Então, se é possível que as águas doces que estão no Brasil cheguem à África pelo céu, também pelo céu a sabedoria do nosso povo pode chegar até nós no Brasil.

É por isso que, mesmo tentando tirar nossa língua, nossos modos, não tiraram a nossa relação com o cosmo. Não tiraram a nossa sabedoria. É por isso que nós conseguimos nos reeditar de forma sábia, sem agredir os verdadeiros donos desse território que são os irmãos indígenas. Nós tivemos essa capacidade porque os nossos mais velhos que estavam em África, apesar de sermos proibidos de voltar para lá, vieram pela cosmologia. Isso é o que nós chamamos de transfluência.

Tanto os quilombolas quanto os indígenas do Brasil só passaram a ser sujeitos de direito na Constituição de 1988. Até essa Constituição, ser quilombola era ser criminoso e ser indígena era ser selvagem. A Constituição de 1988 disse que nós temos direito a regularizar as nossas terras pela escrita – o que é uma agressão, porque pela escrita nós passaríamos a ser proprietários da terra. Mas os nossos mais velhos nos ensinaram a lidar com essa agressão.

Se as cidades, com todas as suas armas, não vivem em paz, e nós da comunidade vivemos em paz sem as armas, logo vê-se que não são as armas que resolvem os problemas. Por isso meu tio Antônio dizia para transformarmos as armas em defesa. Mãe Joana, também uma das minhas grandes mestras, dizia que a vasilha de dar é a mesma de receber. Logo, se eu te aponto um revólver é porque tenho medo de um revólver. E essa disputa não tem fim.

Assim, discutir a regularização das terras pela escrita não significa concordar com isto, mas significa que adotamos uma arma do inimigo para transformá-la em defesa. Porque quem vai dizer se somos quilombolas não é o documento da terra, é a forma como vamos nos relacionar com ela. E nesse quesito nós e os indígenas confluímos. Confluímos nos territórios, porque nosso território não é apenas a terra, são todos os elementos.

EDUCAÇÃO COMO A DOMESTICAÇÃO DO ESPAÇO INTERIOR (2014) - Layla Abdel Rahim

 


EDUCAÇÃO COMO A DOMESTICAÇÃO DO ESPAÇO INTERIOR (2014)

Layla AbdelRahim

Desde a infância, somos ensinados que tudo no mundo existe em uma cadeia alimentar como um "recurso" a ser consumido por aqueles mais altos na cadeia e, simultaneamente, como consumidores de "recursos" que estão mais abaixo nessa hierarquia predatória. Também nos dizem que a vida selvagem é faminta, cheia de perigos mortais e que a civilização nos poupou de uma existência curta e brutal. Quando crianças, passamos a acreditar que a vida na civilização é boa para nós, na verdade até indispensável para nossa própria sobrevivência.

A civilização atual, ou seja, a europeia/ocidental, deve sua existência à Revolução Agrícola, que nasceu no Crescente Fértil com a domesticação do trigo emmer no Oriente Médio por volta de 17.000 a.P. — um evento seguido pela domesticação de cães no Sudeste Asiático por volta de 12.000 a.P. e civilizações paralelas independentes na América do Norte por volta de 11.000 a.P. Assim, uma nova concepção de alimento alimentou essa prática socioambiental, pois levou alguns humanos a mudar suas estratégias de subsistência daquelas baseadas em uma concepção do ambiente como selvagem ou existente para seu próprio propósito e apoiando a diversidade de vida, para ver o mundo como existindo para fins humanos, a ser gerenciado, possuído e consumido.

Assim, a civilização não começou simplesmente como uma revolução agrícola; Na verdade, a revolução ocorreu na concepção ontológica e monocultural do mundo como existente para uso e consumo humano, criando assim a necessidade de conceitos como recurso, hierarquia e trabalho. Como a civilização está enraizada na apropriação de alimentos e "recursos naturais", bem como no trabalho escravo (cães, cavalos, vacas, mulheres, mineiros, agricultores, etc.), todas as nossas instituições hoje inadvertidamente atendem a essas construções e às necessidades geradas por essa perspectiva monocultural. Por isso, toda instituição ou empresa contemporânea tem um departamento de "recursos humanos" e, assim, está ligada à gestão, eliminação e proteção da propriedade de recursos "naturais" e outros. [2]

Assim, tudo, incluindo os humanos, tornou-se "profissionalizado" e, assim, dividido em categorias de gênero, étnicas, raciais e outras, especializadas em áreas específicas do trabalho, caindo assim em nichos definidos da "cadeia alimentar". A linguagem reflete essas categorias e naturaliza a opressão. Para por exemplo, nas línguas europeias, a humanidade é confundida com masculinidade. A palavra "mulher" nos permite aceitar inconscientemente que a feminilidade implica um aspecto da humanidade que apaga nossa animalidade (feminina), excluindo assim os animais não humanos despersonificados dos privilégios concedidos a alguns animais (um pequeno grupo de primatas) por pertencerem à "humanidade". Além disso, ao separar essas categorias de humanidade, animalidade, feminilidade, masculinidade, raça, etnia, etc., a linguagem oculta a essência racista, especista e patriarcal da civilização, onde mulheres humanas e não humanas foram relegadas a uma classe especializada na produção de recursos humanos e não humanos.

Quando crianças, somos programados pela linguagem para aceitar nossos lugares e papéis "especializados" no ciclo da opressão. Consequentemente, os africanos eram forçados a trabalhar em plantações ou minas. As classes mais baixas ou despossuídas na Europa foram transformadas em servos e depois em operárias de fábrica. Vacas se tornaram "comida", trabalho e/ou entretenimento de cavalos, animais selvagens exterminados ou caçados por diversão, só para citar alguns exemplos. Tais explosões de culturas socioambientais ocorreram esporadicamente em sociedades humanas e não humanas ao longo da história da vida. No entanto, até que as civilizações do Oriente Médio e do Egito conquistassem a Europa, esse paradigma de subsistência baseado na exploração e no consumo nunca havia alcançado a escala global que vivenciamos hoje.

Crescendo no Sudão, aprendi, já na quinta série, sobre civilização por meio de um currículo britânico e, desde então, as margens do Tigre, do Eufrates e o Vale do Indo têm capturado minha imaginação. No entanto, continuei intrigado com a dissonância entre o profundo sentimento de felicidade e serenidade que experimentei na infância na presença da selvageria e a suposição subjacente na epistemologia civilizada que retratava o mundo como inóspito para nós, onde a vida significava luta e sofrimento. Mesmo aceitando esse sofrimento e luta até meus vinte e poucos anos, eu sabia, no fundo, que estar no mundo e no meu corpo era uma fonte incrível de alegria quando não se submetia aos decretos religiosos, capitalistas ou civilizados para obedecer aos mais altos na hierarquia da "cadeia alimentar" e trabalhar, explorar os outros, matar e consumir.

Essa conexão entre comida, colonização e civilização sempre foi articulada nos livros escolares como algo positivo, inteligente e importante. Começando pelo nosso currículo mais inicial, a escolaridade obrigatória nos doutrina a acreditar na necessidade de colonizar o meio ambiente por uma perspectiva monocultural e nos força a participar desse projeto colonizador.

A colonização bem-sucedida depende da extensão em que os recursos domesticados são capazes de gerar valor excedente de produtos, serviços ou carne para seus proprietários/consumidores com gasto mínimo. Para isso, quem domestica deve modificar o propósito de ser vítima de existência selvagem por um motivo incontido para alguém que existe para trabalhar da forma mais eficiente possível e produzir o máximo no menor tempo, no menor espaço possível e com a menor energia possível (alimentos e outros gastos energéticos). O domesticador também deve "educar" ou convencer os "recursos" de que eles são recursos. A civilização então começa com a modificação da paisagem interna do ser domesticado. Quanto mais cedo esse processo começar, melhor, preferencialmente ao nascer e até antes da concepção, quando o próprio conceito de criança é construído sobre a compreensão de que sua razão de ser é servir à ordem social "superior", externa, abstrata, chamada "bem social". A civilização, portanto, precisava e assim criou um sistema de modificação do comportamento das crianças por meio de uma imposição sistemática de informação, lógica e esquemas civilizados, a saber: escolarização.

Um fisiologista anarquista soviético e diretor do laboratório de fisiologia do desenvolvimento em Moscou entre 1935 e 1978, Ilya Arshavsky, via a natureza selvagem como um lugar de moralidade porque a natureza selvagem é guiada pela empatia e pelo conhecimento de que a vida deve florescer em diversidade para que prosperemos. A natureza selvagem não tem escolha a não ser colaborar com a diversidade e a vida, ele diz. A civilização, em contraste, diz Arshavsky, é imoral, porque os civilizados se concederam o direito de escolher se punem ou não, se torturam ou não, se matam ou não. Mais importante ainda, ele explica como a criação e a educação civilizadas são responsáveis pela devastação ecológica, guerra e outras formas de brutalidade contra animais e a natureza selvagem. [3] Não é por acaso, portanto, que a educação civilizada ocorre na esterilidade da escola, onde as crianças são trancadas a maior parte da vida entre quatro paredes e são ensinadas, por meio da imprensa e outros meios de comunicação, como ter sucesso trabalhando na civilização para reforçar a hierarquia.

Em qualquer escola ao redor do mundo, com exceção dos animais em gaiolas ou criados de criação mantidos para treinar crianças na domesticação, as crianças são mantidas afastadas de outras espécies e até mesmo de diferentes faixas etárias e gerações de humanos. Além disso, a estrutura socioeconômica do espaço público e a desigualdade na distribuição da riqueza segregam as crianças em idade escolar por classe mesmo nas escolas onde se tenta misturar gêneros, grupos étnicos e classes socioeconômicas. De forma tangível, as escolas garantem que as crianças sejam privadas da possibilidade de vivenciar a vida fora dos muros ou além da rede familiar limitada, porque até mesmo os relacionamentos familiares são secundários ao tempo que as crianças passam na escola e à importância dada à escolaridade. Portanto, eles não adquirem conhecimento real de como o mundo prospera ou sofre, ou de como seu paradigma civilizado de subsistência faz com que outros sofram e morram.

Anos de isolamento prejudicam a capacidade das crianças de se identificarem com outras pessoas humanas e não humanas e as tornam propensas a aceitar posições éticas enraizadas na alienação, hostilidade à natureza selvagem e ignorância. Na verdade, imoralidade, crueldade e ignorância constituem as características mais proeminentes da civilização. Se o objetivo da educação é proliferar a civilização, então faz sentido que, seja essa agenda articulada ou não, as escolas trabalham para incutir essas qualidades nos futuros "recursos humanos" e, portanto, a competitividade, o bullying e outras formas de violência que são comuns nas escolas atuais refletem essa base. 

Por outro lado, em ontologias selvagens, os seres nascem para seu próprio propósito e prazer de existir. Sua própria existência é, portanto, sua razão de ser em si. O fato de seres selvagens continuarem existindo sem que ninguém lhes ensine a fazer isso demonstra que crianças humanas e não humanas são programadas para aprender a viver; E como não podem prosperar em um ambiente moribundo, também aprendem que o melhor para os seres vivos é manter um equilíbrio de diversidade na comunidade da vida. Essa epistemologia, ou forma de nos conhecer e conhecer o mundo, está enraizada na premissa fundamental da selvageria: ou seja, se a vida aconteceu na Terra, é porque as condições eram favoráveis à vida e, se o mundo é bom para a vida, então os seres vivos, pelo simples fato de viverem, sabem o que é melhor para eles. O melhor para os seres vivos é saúde, diversidade e felicidade.

A aquisição desse conhecimento requer presença e a capacidade de compreender o estado emocional e experiencial daqueles que compartilham o espaço, o mundo de cada um. Como escreve Erica-Irene Daes em nome do Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas estabelecido em 1982 sobre os povos cujas culturas de subsistência se baseiam em relações socioambientais selvagens sustentáveis:

"Os povos indígenas consideram todos os produtos da mente e do coração humanos como inter-relacionados e como provenientes da mesma fonte: a relação entre o povo e sua terra, seu parentesco com os outros seres vivos que compartilham a terra e com o mundo espiritual. Como a fonte última de conhecimento e criatividade é a própria terra, toda a arte e ciência de um povo específico são manifestações das mesmas relações subjacentes..." 

Portanto, em sociedades selvagens, espera-se que as crianças aprendam por meio da experiência e da interação com famílias e comunidades empáticas e protetoras, onde a criança é incentivada a tentar, testar e experimentar a si mesma e ao seu entorno. Animais não humanos e não domesticados permitem que a criança desenvolva seus instintos e forje relacionamentos biodiversos por meio da experiência, empatia e autorrealização, não importa o quão obscura essa auto-realização possa parecer para os outros. Existem inúmeros exemplos que abrangem sociedades humanas e outras animais. O povo Semai da Malásia nos oferece uma ilustração contemporânea dessas culturas de criação e infância.

Como muitas outras sociedades indígenas ao redor do mundo, os Semai não impõem restrições além de jogos violentos ou competitivos ou ao responder a perigos imediatos e fatais.  Eles não coagem crianças a servir nem praticam qualquer forma de punição psicológica, moral ou física contra elas, porque veem a criança como desejadora e capaz de aprender simplesmente vivendo e desfrutando da segurança do amor incondicional que a comunidade proporciona.  Nessas sociedades, assim que começam a engatinhar, as crianças assimilam a cultura da higiene e das interações sociais, por exemplo, aprendem rapidamente onde ir ao banheiro sem livros, narrativas ou a ameaça de ostracismo. Eles também aprendem que qualquer expressão de crueldade, incluindo o consumo de animais que criam, não faz parte de uma "cadeia alimentar natural", mas constitui canibalismo e faz parte do contexto maior de violência que marca relações civilizadas. 

Portanto, a pedagogia não pode ter lugar na natureza selvagem. Ela só pode existir em sociedades civilizadas onde a intenção é integrar as crianças como futuros "recursos" em uma hierarquia estabelecida de consumo (de esforço, trabalho e vidas). Essa "integração" exige um sistema educacional que modifique o comportamento, as necessidades e os desejos das crianças. Isso é domesticação propriamente dita e implica padronização do propósito: a cadeia alimentar para a qual tudo e todos supostamente existem. Diferente da natureza, onde é vital que as crianças aprendam a responder à mudança e à diferença de forma inovadora, porém simbiótica, na civilização, o controle do que, quando e como as crianças aprendem constitui uma parte indispensável de um currículo fixo e abstrato, destinado a prepará-las para trabalhar em ambientes controlados e previsíveis, produzindo e atendendo às necessidades dos proprietários. A educação é, portanto, um sistema de domesticação que depende do confinamento, isolamento, pensamento formulaico e linguagem representacional, em vez de presença e experiência pessoal, cujo objetivo é erradicar idiossincrasias e, em vez disso, inculcar, por meio da dor e da retirada de alimentos, o "conhecimento", ou a noção de que se existe não para o próprio prazer, mas como recurso de trabalho ou sustento para outra pessoa.

Essa modificação do propósito e do ser de cada um torna-se o foco das relações intergeracionais e constitui a experiência mais característica da infância, durando, pelo menos, até a idade adulta, se não até a universidade e a pós-graduação. Essa prática parte da suposição de que as crianças não aprenderão a viver (na civilização) e servir aos outros como recursos, a menos que sejam forçadas a aprender por meio de ameaças e de uma infligência sistemática de dor emocional e/ou física. E, claro, essa é uma afirmação correta, pois as crianças sabem que existem para aproveitar a vida, não para torturá-la, não para sofrer com ela, e não para extinguê-la. A resistência à domesticação sempre foi forte. Por isso, leva décadas para erradicar a vontade selvagem e quase nenhum tempo para que humanos e não humanos se tornem selvagens.

Nesse sentido, a comida está no nexo entre domesticação, colonização, civilização e educação, pois constitui o recurso, o método e a razão subjacente da violência civilizada. Especificamente, a retração de alimentos e a indução da fome é o método de treinar pessoas não humanas para servir aos interesses dos domesticadores humanos. Os animais humanos são domesticados da mesma forma por meio da ameaça de pobreza ou fome, que, em sua essência, trata da retração de alimentos e constitui o principal método pedagógico na formação de recursos humanos: as escolas usam notas e outras punições psicológicas e físicas para coagir os futuros recursos (trabalhadores) a cumprir a ordem hierárquica. Ou seja, boas notas prometem um lugar mais alto na cadeia alimentar; Notas mais baixas e relatórios ruins ameaçam fome, falta de moradia, isolamento social e sofrimento de desemprego ou de tarefas simples em empregos mal remunerados em condições frequentemente horríveis. As avaliações escolares servem para justificar a apatia daqueles que exploram o sofrimento e o trabalho daqueles que esse sistema socioeconômico hierárquico força ao fundo da cadeia alimentar. Em outras palavras, crueldade, apatia e alienação são artificialmente incutidas nas instituições de "aprendizagem" para civilizar e colonizar recursos humanos e não humanos em nome da comida e simultaneamente por meio da alimentação. Essas qualidades não são efeito colateral ou resultado de um acidente indesejável da "natureza humana"; elas estão no cerne de uma agenda civilizada. Na verdade, eles são parte intrínseca do mecanismo que garante sua proliferação.

Portanto, não é surpresa que, como nunca antes, o século passado tenha visto uma globalização sem precedentes da escolarização obrigatória, onde a formação do habitus das crianças civilizadas se tornou amplamente restrita à sala de aula, cuja estrutura hierárquica exige obediência a pessoas de autoridade de maior patente (por exemplo, professores e líderes de turma nomeados) e onde as crianças aprendem ouvindo o professor e lendo e escrevendo. As aulas são organizadas por idade, não são permitidos estranhos, e esse confinamento das crianças em espaços com colegas da mesma idade elimina a possibilidade de as crianças vivenciarem o caos da vida cotidiana no mundo real. No século passado, a alfabetização e as línguas coloniais foram impostas às crianças ao redor do mundo, independentemente de sua origem cultural ou se o trabalho que acabariam realizando exige habilidades de leitura ou escrita, especialmente em uma língua estrangeira e colonial.

Minha própria infância é uma ilustração perfeita dessa colonização e suas complexidades. Quando morava na Rússia, minhas opções de currículos escolares eram limitadas ao russo, que era a língua oficial da União Soviética, e das nações satélites "amigas" e, quando nos mudamos para o Sudão, fui educado em inglês e árabe, ambos línguas colonizadoras na África. Além disso, toda a minha educação foi antropocêntrica e majoritariamente eurocêntrica e alienada da vida real da paisagem do nordeste africano em que vivi e que foi devastada para atender às necessidades "ocidentais/do Oriente Médio" e coloniais — primeiro para trabalho escravo humano, depois para marfim roubado de elefantes assassinados, depois algodão, cobre, urânio e, por fim, petróleo, entre inúmeras outras violações da vida. Após a independência da Grã-Bretanha em 1956, o Sudão herdou as fronteiras coloniais e permaneceu uma entidade colonial por sua inscrição na hierarquia da ordem econômica "pós" colonial, continuando assim o legado da mineração, escravidão, exploração, guerra e desertificação, reencenando assim o paradigma da exploração da cadeia alimentar predatória. Isso é verdade para todos os Estados-nação do mundo contemporâneo, pois não pode haver soberania na civilização, que é o colonialismo em si, invadindo e conquistando nossa paisagem interna e externa.

Como o método mais eficaz de domesticação, a educação sempre desempenhou um papel fundamental em tudo isso. Historicamente, quando árabes e depois europeus colonizavam um novo lugar, a primeira coisa que faziam era abrir escolas, ou madraça e kottab em árabe. No entanto, apesar da relação causal entre civilização, sofrimento e devastação ambiental, quanto mais desesperadora a situação ecológica se torna, mais dolorosamente "aprimorada" se torna a escolarização civilizada e mais os pais exigem isso para seus filhos, aceitando a propaganda do Estado de que a educação é a resposta.

No entanto, os dez mil anos de civilização demonstraram que foi a própria civilização que provocou violência organizada, espalhou pobreza entre as classes despossuídas de animais não humanos e humanos, cuja desnutrição, estresse e exploração enfraqueciam o sistema imunológico, enquanto condições de vida apertadas facilitavam a disseminação de doenças contagiosas e epidemias. Por exemplo, Armelagos e colegas discutem em sua pesquisa paleontológica de 1991 como o sedentismo e a agricultura aumentaram as taxas de mortalidade precoce, afetando particularmente negativamente mulheres, crianças e adultos mais velhos.  Segundo eles, o crescimento repentino da população neolítica ocorreu apesar do aumento da mortalidade, reduzindo os intervalos entre os nascimentos e aumentando o número de nascimentos por mulher.

Em outras palavras, a civilização exigia recursos humanos descartáveis para militares, policiamento e trabalho pesado, e essa demanda foi atendida pela adoção de um paradigma patriarcal que aumentou as populações monoculturais, deteriorando o sistema imunológico de indivíduos, grupos e todo o meio ambiente. Mas eu não aprendi isso na escola. Procurei essa pesquisa por conta própria. Pois, quanto mais educados nos tornamos, mais longe nos afastamos da lembrança da felicidade de simplesmente estar no mundo, de pisar levemente na terra para não machucá-la. Ainda assim, pais entrincheirados no projeto civilizador, independentemente de seu lugar nele, continuam acreditando que, se as pessoas forem ainda mais educadas, domesticadas ainda mais profundamente e punidas ainda mais, então a felicidade — em qualquer compreensão superficial que os civilizados possam ter — virá.

Não sei se, neste ponto, a crise ecológica é evitável. No entanto, ainda precisamos fazer tudo ao nosso alcance para enfrentar sua causa raiz e detê-la. Isso exige uma reavaliação completa da epistemologia que impulsiona a civilização e, portanto, a abolição de todas as formas de coerção e encarceramento, incluindo, ou talvez começando com, as escolas.

" A Matrona Imoral" - Breve Biografia de Gilka Machado (1893-1980)

Gilka da Costa de Melo Machado (1893-1980), mais conhecida como Gilka Machado , foi uma poeta e escritora afro-brasileira. Foi uma das pri...