quinta-feira, 2 de julho de 2026

Almerinda Farias Gama (1899-1999) - Depoimento (1984)

Tipo de entrevista: História de vida.  Entrevistador(es): Angela Maria de Castro Gomes e Eduardo Navarro Stotz .   

Local: Rio de Janeiro, RJ, Brasil data: 08/06/1984 duração: 4h0min fitas cassete: 05 páginas: 78

Disponível em: Almerinda Farias Gama | CPDOC - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil

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 A. G. – Hoje é dia 8 de junho de 1984 e nós estamos tendo o prazer de começar uma entrevista com dona Almerinda de Farias Gama. 

 A. F. – O prazer maior é meu. 

 A. G. – Dona Almerinda, eu queria começar pedindo que a senhora declarasse o local e a data de seu nascimento. 

 A. F. – Por mais que isso possa ofender à minha vaidade de mulher, que deseja sempre parecer jovem, eu nasci na cidade de Maceió, estado das Alagoas, no dia 16 de maio de 1899. 

 A. G. – A senhora tinha muitos irmãos? 

 A. F. – Não. Um irmão mais velho que eu oito anos, que meu pai tinha levado para o matrimônio, e, desse matrimônio com Eulália da Rocha Gama – matrimônio de meu pai, José Antonio Gama –, nasceu primeiro Júlia, que faleceu aos vinte e um anos de idade, e, dois anos e meio depois, nasci eu. Vieram, depois, um garoto, que morreu pequenino, e uma criança que nasceu morta. Aí, cessaram os meus irmãos. No segundo matrimônio, minha mãe teve quatro filhos, mas só sobreviveu a segunda, Ester, também, hoje, já falecida, que era mais moça do que eu dez anos. Essa deixou quatro filhos, hoje só restam três. Eu, portanto, não tenho descendentes, porque casei com um primo, também alagoano, Benigno Farias Gama, do qual tive um filho que morreu pequenino, com quatro anos, no Rio de Janeiro. 

 A. G. – A senhora casou ainda em Alagoas? 

 A. F. – Não, eu casei no Pará, para onde emigrei aos oito anos de idade, após a morte de meu pai. 

 A. G. – Dona Almerinda, durante a sua infância a senhora morou em Maceió? 

 A. F. – Sempre em Maceió. 

 A. G. – Qual era a profissão do seu pai? 

 A. F. – Meu pai era comerciante e proprietário, ou seja, ele se empenhava muito em fazer construções populares, para dar assistência barata a gente humilde. Por isso, quando faleceu, deixou pequenos imóveis como herança. E possuía, também, carroças e animais de carga para o transporte de material de construção, que, naquele tempo, era o barro e a areia, porque as 1 casas eram quase sempre feitas de taipa, o cimento raramente se fazia presente naquelas casas modestas. 

 A. G. – Quer dizer, então, que o pai da senhora era um construtor? 

 A. F. – Construtor. 

 A. G. – Fazia comércio, mas como construtor. 

 A. F. – É, construtor. Também tinha uma venda, como se chama lá, um armazém, de maneira que ele tinha uma multiplicidade de atividades. 

 A. G. – E a sua mãe, ela trabalhava ou ficava em casa, como dona de casa? 

 A. F. – Minha mãe, apesar de ter o diploma de professora normalista, nunca exerceu a profissão de professora. Casou-se e sempre se dedicou ao lar. Nunca exerceu a profissão fora de casa. 

 A. G. – Agora, a senhora estudou, não é? Desde cedo a senhora foi para a escola? 

 A. F. – O meu estudo foi muito fracionado. Quando meu pai morreu, eu tinha oito anos de idade; completei oito anos no dia 16 de maio, ele morreu no dia seguinte. Eu já estava no segundo ano primário e, como ele morreu em maio, este ano de estudos foi perdido para mim, porquanto, em agosto, minha avó, que estava prestando assistência a ele em Alagoas, resolveu voltar para o Pará, onde moravam os outros filhos dela, e eu resolvi acompanhá-la. 

 A. G. – Ah, então, a senhora foi para o Pará acompanhando a sua avó? 

 A. F. – Sim. É preciso notar que eu resolvi, porque essa é a expressão. Minha avó tinha determinado que levaria apenas a minha irmã mais velha, posteriormente o meu irmão mais velho também seguiria e eu, como menor, ficaria fazendo companhia à minha mãe. Mas, no dia do embarque, eu estava angustiada, com saudade da minha irmã, que ia partir, com uma saudade antecipada da minha avó, que me dispensava muito carinho, e a curiosidade de conhecer o Pará, de conhecer os meus outros parentes, os outros tios, os primos. 

 A. G. – A família do seu pai? 

 A. F. – A família do pai. Então, eu disse à minha avó: “Eu quero também ir para o Pará.” Isso no dia do embarque. Meu tio, irmão de minha mãe, tinha ido ao centro da cidade comprar as passagens, e eu disse: “Eu quero, eu quero. Mirindinha, me leva, eu quero ir para o Pará.” E, 2 quando ele chegou, a minha avó disse: “A menina também quer ir para o Pará.” Ele disse: “Mas não tem mais tempo de comprar passagem. Vamos ver se conseguimos comprar a passagem, então, a bordo. O navio parte à noite.” E assim foi. Apresentada ao comandante do navio no dia seguinte - porque o navio levantou âncora à meia-noite -, no dia seguinte, eu fui apresentada como contrabando ao comandante, e ele permitiu que eu viajasse de carona até Belém do Pará. 

 A. G. – E, nessa ocasião da sua ida para o Pará, a senhora frequentava escola mesmo ou a sua mãe dava aulas. Porque às vezes acontecia isso. Nessa ocasião, a senhora ia à escola ou recebia ensinamentos em casa? 

 A. F. – Ao chegar no Pará... 

A. G. – Não, antes de ir para o Pará, nesse período inicial. 

 A. F. – No período inicial, eu frequentava escola, uma escola particular. Naquele tempo era muito fácil, as mensalidades eram muito acessíveis. Meu pai me matriculou e eu ia, porque minha mãe me preparava direitinho, me vestia com a minha irmã, e nós íamos sozinhas ao colégio e voltávamos. Nos primeiros dias, íamos acompanhadas por meu tio para aprender o caminho. 

 A. G. – Depois, iam só. 

 A. F. – Depois, íamos sozinhas. 

 A. G. – Quer dizer que os irmãos todos estudavam, os homens e as mulheres? 

 A. F. – Todos estudavam. 

 A. G. – E o pai da senhora fazia questão disso? 

 A. F. – Fazia questão disso. Sempre fez. 

 A. G. – Então, quando a senhora vai para o Pará, a sua mãe fica em Maceió? 

 A. F. – Fica em Maceió. Porque havia negócios a tratar, havia os bens imóveis a administrar, casa comercial também, a herança a liquidar. E aconteceu o pior: ela se engraçou, lá, de uma criatura e casou. Contraiu segundas núpcias com uma criatura que não a merecia. Tanto assim, que pouco depois, alguns anos depois, se separaram, e ela ficou muito desamparada, porque eu desejava muito dar auxílio, mas era criança, não podia dar o auxílio que ele 3 precisava. Porque o segundo marido tinha malbaratado toda a herança com que ela tinha ficado. 

 A. G. – E ela chega a ir para o Pará, ou a sua mãe continua morando em Maceió? 

 A. F. – Continua morando em Maceió. Foi para o Pará quando a minha irmã casou, mas não se adaptou. 

 A. G. – Quer dizer, então, que, nesse período posterior à sua infância, a senhora fica com a sua avó paterna? 

 A. F. – Com a avó paterna e principalmente com a tia, a filha desta avó, Emília Gama. Esta fez o curso de obstetrícia na Bahia, na Faculdade de Medicina da Bahia, curso este que eu era de opinião, e sou de opinião, que deveria ser restabelecido nas faculdades de medicina, e que faz parte daquela Conferência da criança... 

 A. G. – Sei, que a senhora mencionou há pouco, e que nós vamos voltar a conversar. 

 A. F. – Sim. De maneira que ela era quem dirigia praticamente a casa, que, portanto... 

 A. G. – Ela era solteira? 

 A. F. – Era solteira. Morreu solteira, com setenta e poucos anos. 

 A. G. – A família do seu pai morava em que cidade do Pará: Belém?

 A. F. – Belém. 

 A. G. – Belém mesmo. Então, a senhora vai morar em Belém. 

 A. F. – Fui morar em Belém. 

 A. G. – A família do seu pai tinha que tipo de negócios em Belém?

 A. F. – Meu tio mais velho, mais velho do que meu pai dois anos, porque meu pai era de 1866 e esse era de 1864, este meu tio era funcionário municipal, trabalhava no mercado municipal. O mais moço, Manoel Gama, era tipógrafo e trabalhava no “A Província do Pará”. 

 A. G. – Trabalhava em jornal, portanto. 4 

 A. F. – Trabalhava em jornal. Chegou mesmo a ser chefe de seção, e ele tinha um certo privilégio, porquanto naquele tempo havia dois grandes partidos políticos lá: os lemistas e os lauristas. Ele era lemista. 

 A. G. – Lemista e laurista por quê? 

 A. F. – Lemistas era os partidários de Antônio José de Lemos, um grande político maranhense que foi chefe político no Pará, foi prefeito da cidade – lá se chamava intendente, o prefeito. Belém deve a ele ainda os grandes progressos de que desfrutou e ainda hoje desfruta. De forma que aqueles que eram partidários de Antônio Lemos gozavam naturalmente das benesses do partido. E os lauristas eram os de Lauro Sodré, que, quando eles fizeram a deposição do velho Lemos – aliás, uma deposição muito triste, muito lamentável, porquanto ele foi arrastado pelas ruas como um Cristo, e a casa dele de morada foi queimada, incendiada com todos os ricos presentes que lhe davam; ele não os usava, os mantinha lá como verdadeiro museu. E incendiaram também o edifício de “A Província do Pará”, que foi restaurado, hoje é sede do Instituto de Educação. O velho Lemos, meu tio, então, trabalhava no... 

 A. G. – Então, seu tio era partidário do grupo dos lemistas.

 A. F. – É, dos lemistas, toda a família. E, por isso, minha tia foi nomeada posteriormente a parteira da Santa Casa de Misericórdia. 

 A. G. – Era uma coisa bem rara, na época, uma mulher estudar, não é? 

 A. F. – Muito. 

 A. G. – Como a senhora falou. Ainda mais estudar obstetrícia, e ir a Salvador estudar. Portanto, ela saiu da cidade onde morava e foi para outra cidade. Sozinha, dona Almerinda? 

 A. F. – Não, não. Ela foi, e ela nunca se separava da sua mãe, da minha avó. Ela levou mãe, a irmã mais velha, e, ao passar por Alagoas, pediu ao meu pai para levar também meu irmão mais velho. Talvez por uma gentileza. Aí, ele ficou com ela lá; os dois anos que ela estudou o meu irmão também passou em Salvador. Aliás, eu quero aproveitar a oportunidade para dizer que eu sou contra a proliferação de universidade no Brasil. País nenhum está em condições de possuir tantas universidades. Essas universidades são uma limitação do ensino. Naquele tempo, nós tínhamos uma grande faculdade de medicina em Salvador e uma grande faculdade de medicina no Rio de Janeiro. As famílias que queriam matricular os seus filhos, ou os 5 mandavam acompanhados – o que era muito raro, como aconteceu com a minha tia -, ou mandavam os rapazes sozinhos e eles se agrupavam em repúblicas de estudantes, com mensalidades modestas. Mas as faculdades eram muito bem aparelhadas, tinham muito material didático, tinham anfiteatros, tinham laboratórios, dispunham de tudo. E bons professores, os melhores professores. Ora, nós não podemos, nos vinte e um estados que nós tínhamos, ter vinte e uma universidades com vinte e um mil e tantos professores, como hoje se quer ter. 

 A. G. – Dona Almerinda, eu estou percebendo que a senhora já falou várias vezes, e é uma pessoa importante, da sua avó paterna. E avô? A senhora tinha avô paterno? 

 A. F. – Infelizmente, não. Ele morreu de uma – naquele tempo se chamava uma congestão cerebral, hoje, não sei -, quando foi fazer uma visita a um enteado, o único enteado dele... 

 A. G. – Quer dizer que, nessa família da senhora, as mulheres tinham uma presença forte, não é? A avó, a tia... ]

A. F. – Tinham, porque meu avô morreu quando eu não era nascida ainda, não cheguei a conhecê-lo.

 A. G. – Sei. A senhora continuou a estudar em Belém? 

 A. F. – Ah, imediatamente. Cheguei em Belém no dia 2 de setembro de 1907 e, logo no início das aulas, no ano seguinte, em janeiro, Emília Gama, a minha tia, me matriculou no quarto grupo escolar José Veríssimo. Porque nós fomos morar no bairro de Batista Campos, e a cidade tinha sete grupos escolares estaduais: primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo. Todos eles padronizados, verdadeiros palacetes, salas amplas, escadarias de mármore, um luxo. Fora as escolas municipais e as escolas isoladas do estado. Quando eu voltei... 

 A. G. – Esses grupos escolares que a senhora está mencionando como sendo muito bem aparelhados, eles eram particulares? 

 A. F. – Não, eles eram do estado. O ensono completamente gratuito e muitíssimo elevado, um grau muito elevado. Os alunos que saíam do curso desses grupos – havia quatro anos de curso elementar e mais dois anos do curso complementar, formando o curso primário -, qualquer aluno encontrava emprego em qualquer lugar, em qualquer banco. 6 

 A. G. – O que se estudava, mais ou menos, nos anos iniciais, nesses quatro anos? 

 A. F. – Estudava-se Português, Aritmética, Geometria, História do Brasil e Especial do Pará, Desenho. Geometria já falei, não é? 

 A. G. – Já falou. Aritmética e Geometria, portanto. 

 A. F. – É, e Geografia. Geografia Geral e Especial do Pará. Nós estudávamos Especial: rios, igarapés, baías, vilas, cidades, exportação, produção e tudo mais. 

 A. G. – Estudavam com que tipo de material? Por exemplo, livros. Que tipo de material era usado para se poder ter esse tipo de conhecimento, inclusive, especificamente, em relação ao Pará, como a senhora está mencionando, de História e Geografia do Pará, por exemplo? 

 A. F. – Nós tínhamos autores locais. No primeiro anos havia um livro de Paulino de Brito. Paulino de Brito era um mestre amazonense, mas que fez toda a sua vida pedagógica em Belém do Pará. O livro era um livro de um formato grande, talvez vinte e dois por trinta e três, o tamanho mais ou menos do formato do papel almaço. Um livro cartonado, todo ilustrado, com as letras biloloridas. 

 A. G. – Bonito! 

 A. F. – Era. Assim, pa-pa-gai-o: eles faziam uma sílaba em preto, a outra em vermelho, a outra em preto, separadinhas para o aluno e com a ilustração em cima. E, assim, aprendia-se a soletrar e aprendia-se a ler. Depois, estudava-se a Gramática. A Gramática também era de Paulino de Brito. Ele tinha a Gramática Elementar... 

 A. G. – Então, ele escrevia sobre História, sobre Geografia? 

 A. F. – Não. Geografia já era outro autor. 

 A. G. – Sobre História e sobre Português. 

 A. F. – É. O livro de Paulino de Brito era a Gramática, ele tinha a Gramática Elementar e a Gramática Complementar. Na Gramática Elementar vinham definições de substantivos, etc. Agora, na Gramática Complementar já vinham mais especificidades: a sintaxe, a morfologia e outros assuntos mais profundos. Agora, a Aritmética era de Tito Cardoso de Oliveira, um baiano que também se radicou em Belém do Pará. Eu tive a fortuna de estudar na Aritmética Elementar de Tito Cardoso de Oliveira, na Aritmética Complementar e Comercial de Tito 7 Cardoso de Oliveira, e de ter sido aluna de Tito Cardoso de Oliveira na Escola Prática de Comércio. E Geografia, nós tínhamos Virgílio Cardoso de Oliveira. Era um baiano – esse eu não conheci, era irmão de Tito -, também entrava em grande profundidade e em grandes detalhes, falava não somente... Ah, sim, Geografia e Cosmografia, nós estudávamos também Cosmografia. Isto, naturalmente elementar. Estudávamos as constelações, as galáxias, as estrelas principais, movimento da Terra... 

 A. G. – As escolas tinham bastante meninas? 

 A. F. – As escolas tinham muitas meninas. ]

A. G. - Meninas e meninos mais ou menos igualmente? 

 A. F. – É, mais ou menos igualmente. As aulas eram separadas. Geralmente era assim: esses prédios dos grupos escolares tinham dois pavimentos, o térreo e o primeiro andar. No térreo, ficavam os meninos, e, no primeiro andar ficavam as meninas. Agora, na hora da saída tocava a sineta e saíam as meninas. Qualquer encontro era na rua. 

 A. G. – E na hora do recreio? Tinha recreio? 

 A. F. – Recreio era o mesmo. 

 A. G. – Separados. 

 A. F. – Separados, cada um separado. 

 A. G. – Mas os professores eram comuns? Os mesmo professores que ensinavam para os meninos ensinavam para as meninas? 

 A. F. – Não. 

 A. G. – Também, não. Eram professores diferentes? 

 A. F. – Cada um era lotado em determinada aula. Não havia tempo para sair para dar em outra escola. 

 A. G. – Não, eu não estou falando de outra escola. Estou perguntando se o professor que dava aula para a turma dos meninos também dava para a turma das meninas.

 A. F. – Não, porque eu estou dizendo: as classes se reuniam em andares diferentes e cada professor ficava no seu andar.

***

A. G. – Durante este período em que esteve na Escola Comercial, a senhora continuou lendo? 

 A. F. – Lendo sempre. 

 A. G. – Isso era estimulado pela escola? 

 A. F. – Não. A escola não tomava conhecimento. 

 A. G. – O estímulo vinha mais da família. 

 A. F. – Vinha mais da família. Ou, talvez, do hábito, porque acaba tornando-se quase um vício. É como, hoje, a televisão, quase todo mundo vê novela. 24 

 A. G. – Mas alguém faz o hábito da gente, não é? 

 A. F. – Ah, é. 

 E. S. – Mas, fora romances, a senhora lia outro tipo de literatura também? Algum ensaio, alguma coisa mais filosófica ou social? 

 A. F. – Não me dedicava muito a isso, só quando, por acaso, me caía alguma coisa. Uma vez, por exemplo, eu peguei em um folheto de Tolstoi. Meu irmão viu e disse: “Ih, tu não vais entender nada disso.” [Risos]

*** 

A. G. – Servia refeições. 

 A. F. – Servia refeições na hora do almoço. De forma que era um almoço muito alegre, muito divertido, porque era gente moça, gente alegre, gente de um lugar onde eu estava há pouco tempo, me enchiam de vida, traziam assuntos. Aquilo, para mim, era uma alegria. Entre as pessoas que frequentavam, havia também moças do comércio, e algumas delas, que eu não me 33 recordo o nome, sabendo pelas minhas palestras, minhas conversas, minhas brincadeiras, que eu era feminista, que eu era libertária, perguntaram por que eu, então, não me aproximava de Bertha Lutz, da Federação. Eu disse que não tinha tido nenhum contato. Então, elas disseram que já tinham estado lá e sabiam, e me deram, então, o endereço, que seria interessante eu aparecer. 

 A. G. – Elas, portanto, frequentavam a Federação. 

 A. F. – Frequentavam. Mas eu confesso que não me recordo mais o nome delas. Eu, então, comecei a frequentar e fui muito bem recebida por Bertha Lutz, que viu em mim um elemento aproveitável, e eu passei a trabalhar com ela. Com Bertha; com Carmen Velasco Portinho, que veio a casar, depois, com o irmão de Bertha, doutor Gualter Lutz; a doutora Sapienza, Luiza Sapienza, que era professora e médica; a Beatriz Pontes de Miranda, que era casada com o nosso jurisconsulto, Pontes de Miranda; Maria Sabina de Albuquerque, poetisa; e muitas outras. Comecei, então, a trabalhar. 

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