Inocêncio Matoso Andrade da Câmara
Pires (1898-1966) foi médico, periodista e militante libertário negro nascido
em Luanda, capital de Angola colonizada por Portugal, em 4 de março de
1898. Mudou-se para Lisboa onde se
formou em Medicina. Câmara Pires combateu o capitalismo, o fascismo e o
colonialismo em três continentes: África, Europa e América (do Sul).
Na universidade Pires se filiou a
grupos antifascistas, como o Grupo de Defensa Acadêmicos (GDA) e
do Bloco Acadêmico Anti Fascista. O
libertário também foi filiado a Federação Anarquista Revolucionária de
Portugal (FARP) e da Federação Anarquista Ibérica (FAI),
e um dos maiores opositores do Estado Novo Salazarista (1933-1976). Pires
também colaborou com a imprensa libertária, nos periódicos Liberdade,
Rebelião, Seara Nova e no Avante! Além de estar na frente
de combate durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), Câmara
Pires fez parte do Grupo dos Budas, que contrabandeava armas da de
Portugal para a Espanha. O grupo era formado por Jaime Zuzarte, Jaime
Alberto de Castro Moraes, Armando Cortesão e outros.
Com o fim da Guerra Civil, Câmara Pires
se mudou para o Brasil em 1939 e manteve relações com os anarquistas
brasileiros na capital federal. Colaborou com o periódico Ação
Direta[1].
Neste jornal, o libertário chegou a afirmar que o nacionalismo era uma “lepra
da humanidade”. pois seria uma entidade sempre
contrária a solidariedade, liberdade e fraternidade humanas.No Centro de
Estudos José Oiticica palestrou contra o colonialismo na África
alertando que a mudança de governo nos territórios africanos dominados não
significaria a efetiva emancipação social dos negros. Câmara Pires integrou o
grêmio carnavalesco Pierrots da Caverna, como conselheiro
fiscal da associação.
Na década de 1930, Câmara Pires se
correspondeu com Emma Goldman (1869-1940), radicada nos Estados
Unidos da América. As correspondências tratavam sobre a vida de refugiados
espanhóis na Inglaterra e de uma rede solidária de acolhimento de refugiados
espanhóis em Paris. Em uma dessas correspondências, Pires noticia, em espanhol,
o aprisionamento de companheiros libertários em campos de concentração
nazistas. As cartas também revelam doações enviadas a Câmara Pires com a
finalidade de financiar armas e produtos básicos para os antifascistas na
Guerra Civil.
No início dos anos de 1950, Câmara
Pires mudou-se para a França, onde fixou residência que serviu também de
acolhimento para diversos imigrantes e refugiados africanos. Com o advento do Pan-africanismo
e do movimento Negritude, o libertário passou a militar também a
favor da libertação dos povos africanos. O libertário foi representante do Movimento
Pela Libertação de Angola (MPLA) em Paris, participando de ações e
planos anticoloniais.
Mesmo
integrando um movimento marxista-leninista, Pires não abandonou as ideias
libertárias, sendo, talvez, o único anarquista no MPLA. O objetivo comum a
socialistas, comunistas e libertários era o fim do colonialismo português e a
libertação do povo angolano.
Inocêncio Matoso Andrade da Câmara
Pires morreu em Paris, no dia 8 de abril de 1966, aos 68 anos de idade, sem
conseguir ver a libertação dos povos africanos dominados por Portugal.
REFERÊNCIAS
·
AÇÃO DIRETA. N.39.
108/08/1947. Por que me tornei anarquista?.
·
DÁSKALOS, Sócrates. Um
testemunho para a História de Angola. Lisboa. Vega.2000
·
KARLLOS, Jr. Brasil
Negro Insurgente. Ed. Monstro dos Mares. 2025.
·
RODRIGUES, Edgar. Companheiros.
Vol.01. 1994.
·
THE EMMA GOLDMAN PAPERS – Internet
archive. Letter,1938 may 19,
London [to I. da Camara Pires],
Marseille [France] / [Emma Goldman].
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