sexta-feira, 3 de julho de 2026

Praxedes: Um Operário No Poder (1985) - Moacyr de Oliveira Filho

Praxedes: Um Operário no poder. A Insurreição de 1935 vista por dentro. Moacyr de Oliveira Filho Editora Alfa-Omega,1985.

" Essas breves considerações históricas sobre a Insurreição de 1935 servem para situar o pano de fundo da vida política brasileira naqueles dias. Este livro não pretende ser um tratado histórico, uma análise política daquele movimento. Ao contrário, ele é apenas um depoimento jornalístico de um dos principais participantes da Insurreição em Natal, o sapateiro José Praxedes de Andrade, secretário de aprovisionamento do Governo Popular Revolucionário e membro da direção Regional do Partido Comunista do Brasil, na época da revolta." 

"Citado de passagem das obras escritas sobre a Insurreição, Praxedes nunca havia sido ouvido sobre esses episódios. Alguns historiadores chegam mesmo a mencionar que o sapateiro José Praxedes nunca mais foi visto desde a derrota do movimento em Natal 6. Vivendo na mais absoluta clandestinidade e sob o nome falso de Eduardo Pereira da Silva, desde que conseguiu fugir de Natal, no começo de 1936, só em 1984 – quando o localizei vivendo próximo de Salvador, sob sua nova identidade – é que Praxedes deixou sua clandestinidade voluntária, ao prestar um longo depoimento sobre sua vida e a Insurreição de 1935."

"No dia 6 de abril de 1900 – alvorecer de um novo século –, na aldeia velha da lagoa de Pajuçara, na margem esquerda do Rio Potengi, distrito da Vila dos Tremoços, nascia José Praxedes de Andrade. Começava ali uma longa e agitada trajetória de vida. Descendente direto dos índios potiguares, o menino Praxedes nascia no seio de uma pobre família de origem camponesa. Seu pai trabalhava na roça, arando um pedaço de terra de propriedade da família. Morando numa casa de taipa, a família dedicava seu tempo à criação de bois, cabras e porcos. “Era pouca coisa. Só dava mesmo para o consumo da família”, conta Praxedes. As terras de seu pai ocupavam uma extensão de aproximadamente um quilômetro, acima da foz do rio Redinha até a Lagoa do Gramoré."

"Na verdade, o seu interesse pela política e pelas coisas de sua terra começou bem cedo, ainda na escola primária, e teve um inspirador nativo: o índio Poty, herói da luta contra os invasores holandeses: 

- 'À medida em que eu fui compreendendo e tendo lições sobre a descoberta do Brasil, ouvindo as histórias dos índios potiguares que habitavam as margens do rio Potengi, exatamente no lugar onde nasci, vendo com meus próprios olhos os vestígios de sua civilização, minha cabeça passou a trabalhar em cima dessas informações. Cada vez que ouvia falar das aventuras do índio Poty aumentava meu espírito de nacionalismo e de amor pelo lugar onde nasci. Poty, sem dúvida, foi o meu primeiro herói e um dos principais responsáveis pelo meu interesse pela política' – relembra Praxedes."

"Foi quando cursava a Escola Técnica que as primeiras notícias da Revolução Russa de 1917 chegam ao Brasil, ainda de forma discreta, tímida, dissimulada. Mesmo assim, Praxedes consegue captar nas entrelinhas dos jornais o verdadeiro significado histórico daquele acontecimento e isso provoca outra transformação importante em sua cabeça."

“Eu já tinha aquela coisa do Poty e do Frei Miguelin, herói da Revolução de 1817, a Confederação do Equador na cabeça e quando comecei a ler sobre a Revolução Russa fiquei ainda mais animado. Consegui entender o que estava acontecendo por lá e, então, passei a pregar entre os colegas da escola a defesa da Revolução Russa, a necessidade dos operários se organizar também aqui no Brasil para conquistar o poder. Foi uma coisa espontânea, que surgiu naturalmente dentro de mim. Ninguém me falou nada, me ensinou nada. Apenas lia as notícias nos jornais e ficava entusiasmado. Era como se o índio Poty estivesse no meio daquele movimento” 

"As notícias sobre a Revolução Russa chegavam a Natal através de poucas linhas publicadas no jornal A República, o jornal oficial do Rio Grande do Norte. “O jornal dizia que os anarquistas tinham usurpado o poder na Rússia e quando lia isso ficava danado porque achava que eles tinham tomado o que era deles mesmo” – conta Praxedes."

 “Comecei a achar que aquilo estava certo e que nós poderíamos tentar fazer o mesmo no Brasil. Até aí não tinha lido nada sobre marxismo. O que eu sabia era coisa da minha cabeça mesmo, coisa que eu sentia dentro de mim. Nessa época só havia lido “A Bíblia” e os livros escolares. Mais nada. O meu entusiasmo pela Revolução Russa foi totalmente espontâneo”.

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