
Pedro Augusto Motta nasceu no Ceará no final do século 19. Não foram encontradas informações exatas sobre a data e o local do nascimento do libertário, mas, provavelmente, ele tenha nascido entre 1894 e 1895, de acordo com informações dos companheiros libertários de Pedro Motta. Também não foram encontrados dados sobre o local de nascimento, mas sabe-se que o operário viveu e militou na capital Fortaleza por alguns anos antes de mudar-se para São Paulo.
Pedro Motta foi periodista, poeta e tipógrafo. No início, Motta era socialista e foi um dos fundadores do Partido Socialista do Ceará (1919). Logo se converteu ao sindicalismo revolucionário anarquista. O libertário proferiu palestras e ajudou a fundar associações operárias no Ceará, como a Associação Graphica do Ceará (1920), União Geral dos Trabalhadores (1920), Federação dos Trabalhadores do Ceará (1921) e a União dos Trabalhadores Ambulantes de Fortaleza (1922).
Como jornalista, Pedro Motta publicou artigos libertários nos seguintes jornais operários de Fortaleza: A Voz do Graphico (1920-1922) e O Combate (1921). Assinou artigos libertários usando os pseudônimos Atom, Ordep, Vulcano, Plutão, Argos, Argus e Tupan. Motta também fez parte de campanhas libertárias através do Comitê Pró-Flagelados Russos (1921) e do Grupo Libertário Amigos d’A Plebe (1922). Em 1922, Motta lançou o livro de poesias libertárias Verbo de Fogo (1921) [2].
Por conta de perseguições políticas e ameaças contra a vida do libertário, Motta muda-se para São Paulo em 1923. O anarquista cearense logo se junta ao Centro Libertário Terra Livre, na capital paulista, e pouco tempo depois se torna um dos principais editores e redatores do lendário jornal anarquista A Plebe (1917-1951). Um dos primeiros artigos de Pedro Motta no periódico anarquista afirmava que era:
imprescindível a organização sindical anarquista, a fundação de escolas, grupos, núcleos de educação racionalistas, baseadas e regidas por programas delineados nos sãos princípios da grande ideia redentora – o comunismo anárquico. Precisamos, pois, em síntese completa, construir na integridade moral, intelectual e social de cada trabalhador a monumental concepção criadora de toda a Sociedade Futura, que é: DESTRUIR PARA CONSTRUIR. [3]
Prisão e deportação
Após a Revolta Paulista (1924), a ira autoritária do presidente Arthur Bernardes se voltou contra todos os militares revoltosos, mas também contra comunistas, anarquistas, inimigos pessoais de Bernardes, capoeiras, etc. Em 1924, Motta e dezenas de libertários foram presos. De São Paulo, o libertário é transferido para o Rio de Janeiro, onde passa meses trancafiado na sede da Polícia Central.
Em maio de 1925, Motta e seus companheiros foram enfiados dentro de uma navio-prisão onde foram obrigados a picar ferrugem. Depois, todos os que sobreviveram foram transportados para Clevelândia, no território do Oiapoque, no extremo norte do país, já na fronteira com a Guiana Francesa. Os anarquistas chamavam o Clevelândia de “Inferno Verde”.
O Martírio no “Inferno Verde”
A Colônia Agrícola de Clevelândia foi criada como um projeto de ocupação e colonização da área, visando a transferência de mão-de-obra nordestina para o local, em plena selva amazônica. Posteriormente, durante o autoritário governo de Arthur Bernardes, o espaço se tornou uma colônia penal, frequentemente definida como campo de concentração, sendo o maior símbolo da estratégia de necropolítica do autoritário Arthur Bernardes.
A colônia penal era abastecida regularmente por navios-prisões, como o Oiapock, o Cuyabá e o Comandante Vasconcellos, que despejavam na colônia penal centenas de presos políticos. Clevelândia foi transformada numa zona de morte para onde eram enviados comunistas, anarquistas, militares rebeldes, capoeiristas, vadios e mendigos. Vários anarquistas brasileiros e estrangeiros foram enviados para o “inferno verde”: Nino Martins, Manuel Ferreira Gomes (português), José Baptista da Silva, Antônio Salgado, Pedro Alves Carneiro, José Alves do Nascimento, José Maria Fernandes Varella, Domingos Passos, Antônio Alves da Costa (Antônio Roux), Domingos Braz (italiano), Pedro Augusto Motta, Biófilo Panclastra (colombiano), Thomas Derliz Borche (uruguaio) e Manoel Nicolau Paradas (espanhol).
Morreram dentro do “inferno Verde”: Nicolau Paradas, Nino Martins, José Maria Fernandes Varella e José Alves do Nascimento. Conseguiram fugir até Saint-George, na Guina Francesa: Domingos Passos, Domingos Braz e Pedro Augusto Motta. Em dezembro de 1925, Pedro Augusto Motta escreve sua última carta, relatando a morte dos companheiros Varella, Martins, Paradas e Nascimento [4]. Infelizmente, no dia 15 de janeiro de 1926, Pedro Augusto Motta morreu vítima da desnutrição e de uma doença não informada, conforme carta publicada no jornal A Plebe [5].
Camarada: Se não fosse a situação horrível e desoladora porque estamos passando neste momento, não te pediria coisa alguma. Peço-te que faças o possível de falar com outros camaradas afim de nos arranjar recursos para nos tirarem desta situação em que jazemos. Quando chegamos em S. Jorge, na Guiana Francesa, ainda tínhamos alguns recursos enviados daí pelos companheiros. Depois, porém, de aqui estaremos um mês e tanto, esses recursos se esgotaram e ficamos numa situação crítica, pois não há trabalho. O camarada Pedro A. Motta faleceu aqui no dia 12 de janeiro, devido a falta de medicamentos e de alimentação, como outros tem falecido.
Pedro Augusto Motta foi um dos mais ativos anarquistas do Brasil, atuando através da poesia, do jornalismo e da militância sindical. O anarquista cearense viveu e morreu em consonância com a ética libertária da qual amava, defendia e praticava. A Anarquia, poema de Pedro Motta, sintetiza o pensamento libertário do anarquista cearense 6:
Anarquia não é o que propala
por toda a parte a casta exploradora,
e nem tão pouco o germe que assinala
da Humanidade a clava destruidora.
Mas sim; a Anarquia é a luz que fala
às multidões de povos, que a opressora
lei do despotismo, a fogo e a bala,
traz sujeitas ao jugo da penhora
que até hoje, despótica, domina
pela força selvática e assassina
da IGNORÂNCIA que reina ante a VERDADE…
A Anarquia pois, é portadora inata
Da Idéia verdadeira e intemerata
Que sintetiza em suma a Liberdade…
[1] Historiador formado pela UEPB. Bibliografia: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT). BLOG PLUMA NEGRA: https://plumahnegra.blogspot.com/
[2] A Plebe, nº 208, 01/05/1923.
[3] A Plebe. Nº 186. Data: 22/07/1922.
[4] A Plebe. Nº 245, 12/02/ 1927.
[5] A Plebe. Nº 245, 12/02/ 1927.
[6] Voz do Graphico. Nº 17. Data: 14/01/1922.
REFERÊNCIAS
BRAGA, Francisco Victor Pereira. Pedro Augusto Motta: Militância Libertária e Verbo de Fogo. 2013. 300f. – Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-graduação em História, Fortaleza (CE), 2013
DULES, John W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.
FOOT HARDMAN, F. Nem pátria nem patrão: a vida operária e a cultura anarquista no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1983.
GONÇALVES, Adelaide & SILVA, Jorge E. (Org.). A Imprensa Libertária no Ceará (1908 – 1922). São Paulo: Imaginário, 2000.
KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente: biografias de negros e pardos libertários no Brasil (1889-1930). Editora Monstro dos Mares, 2026.
RODRIGUES, Edgar. O Anarquismo no Teatro, na Escola e na Poesia. Rio de Janeiro: Achiamé Editora, 1992.
Os Companheiros 5. Florianópolis: Insular, 1998.
SAMIS, Alexandre. Clevelândia: Anarquismo, Sindicalismo e repressão política no Brasil. São Paulo: Imaginário, 2002.
PERIÓDICOS
A Plebe, nº 208. Data: 01/05/1923;
, nº 186. Data: 22/07/1922;
, nº 245. Data: 12/02/ 1927.
A Voz do Graphico, nº 17. Data: 14/01/1922.
fonte: O verbo de fogo de Pedro Augusto Motta (1890-1926)
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS ANARQUISTAS
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