terça-feira, 22 de setembro de 2026

ANTÔNIO EVARISTO DE MORAES (1871-1939)


MORAES, Antônio Evaristo de. ( Rio de Janeiro, RJ. 26 de outubro de 1871 – Rio de Janeiro, RJ. 30 de junho de 1939). 

Advogado, jornalista, escritor e socialista negro. Foi abolicionista, republicano e socialista. Um dos fundadores do Partido Socialista e do Partido Operário. Escreveu o Direito Operário.

Antônio Evaristo de Moraes foi um notório advogado e jornalista negro brasileiro dedicado as causas operárias e socialistas. Foi um advogado bastante respeitado por anarquistas, comunistas e socialistas.

Evaristo Moraes começou militando tantão na causa abolicionista como na causa republicana, participando de clubes e publicando em jornais abolicionistas e republicanos. Com França e Silva, fundou o Partido Operário (1890) no Rio de Janeiro, considerada a primeira associação partidária socialista do Brasil. Como jurista, Evaristo de Moraes publicou: Estudos de Direito Criminal (1898); Apontamentos De Direito Operário (1905); Campanha Abolicionista (1924); entre outras. O socialista também participou da fundação do Grupo Clarté.

Na década de 1910, Evaristo de Moraes foi defensor da anistia dos marinheiros rebeldes condenados a prisão por conta da Revolta da Chibata (1910). Moraes defendeu o João Cândido, o Almirante Negro, um dos líderes da Revolta. Em 1917, na cidade de São Paulo, Evaristo de Moraes participou da defesa do  militante anarquista Edgard Leuenroth, acusado de ser o mandante de diversos episódios de saques, sabotagens e roubos durante a Greve Geral de 1917, na capital paulista. Na década de 1930, Moraes fundou o Partido Socialista, filiado a Segunda Internacional.

LUIZ DA FRANÇA E SILVA (Séc 19- 1894)

FRANÇA E SILVA, Luiz. ( Natal, RN. Séc. 19 – Rio de Janeiro, 24 de abril de 1894) sem mais informações de data de nascimento.

Tipógrafo socialista. Periodista socialista. Uma das grandes lideranças operárias do século 19.

Luiz da França e Silva foi um operário socialista brasileiro, natural de Natal, no Rio Grande do Norte. Ele foi bastante influenciado por socialista utópicos franceses como Saint Simon e Fourier.

França e Silva publicou e editou a Revista Tipographica, no Rio de Janeiro, em 1888. O socialista também fundou e publicou o jornal Echo Popular em março de 1890, também no Rio de Janeiro. França e Silva foi um dos fundadores do Partido Operário, um dos primeiros do país, no Rio de Janeiro. O operário chegou a presidir o partido. Em 1892, o socialista e outros operários organizaram o Congresso Operário ocorrido no Rio de Janeiro.

França e Silva faleceu em 24 de abril de 1894 e foi enterrado no Cemitério do São Francisco Xavier.

FOTO FONTE: Revista da Semana. data: 04/05/1894. n.103

BIBLIOGRAFICA

Claudio H.M. Batalha. Dicionário do movimento operário. Rio de janeiro do século xix aos anos de 1920. Militantes e organizações. Editora Fumdação Perseu Ábramo. Rio de Janeiro. 2008.

GUSTAVO DE LACERDA (1853-1909)

LACERDA, Gustavo de. ( Desterro (Florianópolis) PR, 21 de janeiro de 1853 – Rio de Janeiro, 04 de setembro de 1909).


Tipógrafo, periodista e propagandista socialista negro. Contribuiu com jornais operários e convencionais.

Gustavo de Lacerda nasceu em Desterro, atual Florianópolis, Paraná, no dia 21 de janeiro de 1853. Estudou na Escola Militar de Porto Alegre, mas foi expulso por escrever artigos sobre a paz. Após breve carreira militar, Gustavo de Lacerda vai trabalhar como guarda-livros em Santos.

Lacerda foi um ferrenho abolicionista durante o Império. Também foi republicano fundando jornais republicanos como O Rebate e A Nova Phase em 1889. Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, Gustavo de Lacerda ingressou na luta socialista. Lacerda e outros socialistas fundaram o jornal A Voz do Povo, em 1889, órgão de propaganda socialista e a favor da fundação de um partido operário. Em 1892, Lacerda se filiou ao Centro Socialista Radical. Durante uma greve dos carroceiros no Rio de Janeiro, Gustavo de Lacerda sofreu um atentado a tiros por conta de sua defesa ferrenha aos operários grevistas.

Em 1901, o socialista lançou um pequeno opúsculo chamando O Problema Operário No Brasil, defendendo a reforma agrária, diminuição da carga horária de trabalho e a melhoria do ambiente laboral. Era uma obra com influências de Tolstoi. No ano seguinte, Gustavo de Lacerda e Vicente de Souza fundaram o Partido Socialista Coletivista. Em 1908, Gustavo de Lacerda fundou a Associação Brasileira de Imprensa.  Gustavo de Lacerda morreu como indigente na Santa Casa de Misericórdia no Rio de Janeiro em setembro de 1909, aos 56 anos.

BIBLIOGRAFICA

Claudio H.M. Batalha. Dicionário do movimento operário. Rio de janeiro do século xix aos anos de 1920. Militantes e organizações. Editora Fundação Perseu Ábramo. Rio de Janeiro. 2008.

VICENTE DE SOUZA (1852-1908)

 SOUZA, Vicente Ferreira de. (Nazaré, BA 04 de outubro de 1852 – Rio de Janeiro, 18 de setembro de 1908).

Médico abolicionista, republicano e socialista negro. Professor e senador da república. Vicente de Souza também foi periodista. Fundador do Partido Socialista e do Centro das Classes Operárias.

Vicente Ferreira de Souza foi um médico, professor e jornalista socialista baiano radicado no Rio de Janeiro e bastante influente no meio operário no final do século 19 e início do século 20. Antes de militar como socialista, Vicente de Souza foi ferrenho defensor das causas republicanas e abolicionistas.

Na década de 1890, Vicente de Souza fez parte do Centro Socialista de Santos (1895-1896), publicando diversos artigos no jornal A Questão Social, periódico porta voz da associação. Na década seguinte, Vicente de Souza fundou com outros socialistas o Partido Socialista Coletivista (1902) e o Centro das Classes Operárias (1902). Em 1907, Vicente de Souza colaborava com a revista Nova Aurora, editada por Joel De Oliveira. Vicente de Souza morreu em setembro de 1908.

 

BIBLIOGRAFICA

Claudio H.M. Batalha. Dicionário do movimento operário. Rio de janeiro do século xix aos anos de 1920. Militantes e organizações. Editora Fundação Perseu Ábramo. Rio de Janeiro. 2008.

ELISA SCHEID


SCHEID, Elisa (Século 19, Rio de Janeiro – Século 20, Rio de Janeiro). Sem mais informações sobre datas de nascimento e óbito.

Professora e sindicalista. Militante socialista filha de pai alemão e mãe indígena. Presidiu o Partido Operário Independente e a União Operária de Engenho de Dentro.

Elisa Scheid foi uma professora parda e militante socialista ativa no Rio de Janeiro nos fins do século 19 e início do século 20.  Filha de Henrique Scheid, engenheiro de origem alemã, e Sabina Scheid, indígena. Custódio Scheid, irmão de Elisa Scheid, também foi um ativo militante socialista entre os ferroviários.

Desde cedo, Elisa Scheid aprendeu francês, inglês e alemão, como também algumas línguas indígenas. Elisa e os irmãos cresceram no bairro de Engenho Novo. Elisa Scheid foi uma das pioneiras no uso da educação como instrumento de mudança social e instrução operária. A militante fundou escolas e cursos noturnos gratuitos voltados para a instrução e conscientização dos operários.  Os cursos eram sediados na sede da União Operária de Engenho de Dentro. Scheid chegou a presidir o Partido Operário Independente em 1905.

A militante socialista também propagava suas ideias através de artigos publicados na imprensa operária anarquista e socialista, como, por exemplo, no jornal A União Operária.

BIBLIOGRÁFICA

Claudio H.M. Batalha. Dicionário do movimento operário. Rio de janeiro do século xix aos anos de 1920. Militantes e organizações. Editora Fumdação Perseu Ábramo. Rio de Janeiro. 2008.

 

 

CATERGORÍAS DESCRIPTIVAS

 

1. Periodización: 1900-1907

2. Famílias Políticas: socialismo

3. Movimientos Sociales: socialismo/ sindicalismo

4. Ocupación: maestra

5. Represión: -----

6. Nível Educativo:-----

7. Gênero: feminina

8. Nacionalidad: brasileña

9. Religión: ------

10. Etnia: negra

domingo, 6 de setembro de 2026

ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2024 - CIMI

 Em 2024, foram registrados por órgãos públicos 211 assas sinatos de indígenas no Brasil. Do total de vítimas, 159 eram do gênero masculino e 52, feminino. Os estados que registraram maior número de mortes indígenas por assassi nato foram Roraima (57), Amazonas (45) e Mato Grosso do Sul (33). A maioria dos assassinatos (71 vítimas, ou 33,6% do total) vitimou indígenas de 20 a 29 anos de idade. As informações foram obtidos junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), a secretarias estaduais de saúde e ao Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), por meio de pedidos realizados via Lei de Acesso à Informação (LAI) e de consultas a bases de dados públicas disponibilizadas pelos órgãos. Como em anos anteriores, é importante ressaltar que os dados obtidos junto a órgãos públicos são parciais e continuam sendo atualizados ao longo do ano, podendo sofrer alterações à medida que as bases de informação são alimentadas. Por essa razão, buscamos cotejar as diferentes fontes e incluir as informações mais atualizadas, entre SIM, secretarias estaduais de saúde e Sesai. 

Também é necessário destacar que há diferenças de abrangência entre as diferentes bases de dados. As informa ções fornecidas pela Sesai e obtidas pelo Cimi via Lei de Acesso à Informação (LAI) são restritas aos óbitos registrados junto às comunidades e povos assistidos pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) da secretaria. O SIM e as secre tarias estaduais, por sua vez, incluem, além das informações da Sesai, dados de indígenas que podem não estar abrangidos pelo atendimento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS). Como as especificações acerca do povo, território ou comunidade a que pertenciam as vítimas não são fornecidas e este campo sequer existe nos dados disponibilizados pelas secretarias e pelo SIM, não é possível fornecer detalhes e análises mais aprofundadas sobre as informações obtidas.

Em 2024, com base em informações obtidas pelas equipes missionárias em diferentes regiões do país e em notícias publicadas nos diversos meios de comunicação, o Cimi regis trou 53 casos que resultaram em 55 indígenas assassinados. Embora esse conjunto de registros seja menor do que o número de mortes violentas de indígenas informado por fontes oficiais, ele permite observar, ainda que de forma limitada, o contexto em que esses assassinatos ocorreram. Por isso, mesmo utilizando os dados do SIM, das secretarias de saúde e da Sesai como base principal, o Cimi opta por manter uma sistematização própria dos casos de assassinatos de indígenas no Brasil. Esses homicídios ocorreram nos estados do Acre (3), Alagoas (1), Amazonas (5 casos, 6 vítimas), Bahia (7), Ceará (1), Maranhão (4), Mato Grosso do Sul (16), Mato Grosso (1), Paraná (1), Rio Grande do Sul (2) Roraima (7 casos, 8 vítimas), Santa Catarina (2), São Paulo (1) e Tocantins (1). Dentre os registros, os principais meios empregados foram armas brancas (23 casos) e armas de fogo (19), além de outros 13 assassinatos por espancamento, enforcamento e outros meios. 

O ano foi marcado por uma série de conflitos territoriais e assassinatos envolvendo brigas ou desavenças, muitas vezes potencializadas por bebida alcoólica. Do total, 35 das vítimas foram homens, 18 mulheres e 2 crianças. Um dos casos mais cruéis de violência em 2024 acon teceu no sul da Bahia, no território tradicional Caramuru-Ca tarina Paraguaçu. A liderança indígena Maria Fátima Muniz de Andrade, conhecida como Nega Pataxó, foi brutalmente assassinada. O crime ocorreu durante um ataque realizado por aproximadamente 200 homens, que teriam sido articulados pelo grupo “Movimento Invasão Zero”, que realizou uma ação de reintegração de posse ilegal. Os fazendeiros invadiram a área retomada pelos indígenas, fortemente armados, e dispa raram contra a comunidade; além de Nega, outros indígenas foram feridos por tiros, entre eles o cacique Nailton Pataxó Hã-Hã-Hãe, irmão dela.  Segundo relato dos indígenas, policiais militares presentes no local observaram a cena sem intervir ou prestar socorro. A liderança Nega foi atingida enquanto estava com seu maracá nas mãos e não resistiu aos ferimentos. A perícia realizada pela Polícia Civil identificou que o disparo que matou Nega partiu da arma apreendida com um dos dois homens presos em flagrante no ataque. Ambos foram identificados como integrantes do Movimento Invasão Zero. 

Em agosto, o homem acusado como autor do crime foi solto da prisão preventiva após o pagamento de fiança de 20 salários mínimos (R$ 28.240), por decisão da 1ª Vara Federal de Itabuna. Outro caso marcante do contexto de violência contra os povos indígenas no ano de 2024 foi o assassinato do jovem Neri Ramos da Silva, Guarani Kaiowá de 23 anos que foi morto com um tiro na cabeça durante uma operação policial na TI Ñande Ru Marangatu, em Antônio João (MS). No dia 18 de setembro, os policiais realizaram uma violenta ação contra a retomada realizada pelos indígenas na Fazenda Barra, sobre posta à terra indígena homologada há quase duas décadas. Indígenas acusaram os policiais de arrastar o corpo de Neri e alterar a cena do crime, o que gerou revolta entre os Guarani e Kaiowá, que tentaram recuperar o corpo do jovem.

O ataque que vitimou Neri foi precedido por uma intensificação das agressões e das ameaças contra os Guarani e Kaiowá, e inseriu-se no contexto da série de ataques reali zados contra comunidades indígenas em outros territórios da região, como a TI Panambi - Lagoa Rica. Na noite de 17 de setembro, vídeos feitos em Antônio João anunciavam a iminência da agressão.  Dias antes, em 12 de setembro, outro ataque da PM contra a retomada da fazenda Barra, em Ñande Ru Marangatu, havia deixado uma mulher e dois homens Guarani Kaiowá feridos. Na noite do mesmo dia, a Justiça Federal de Ponta Porã publicou uma decisão autorizando a atuação da polícia estadual em proteção à propriedade privada, legitimando a violência contra a comunidade indígena. Em abril, em Santa Catarina, Ariel Paliano, jovem lide rança Xokleng da aldeia Kakupli, na TI Ibirama La Klãnô, foi assassinado. Seu corpo foi encontrado com ferimentos na cabeça e parcialmente queimado nas margens da estrada entre Itaiópolis e José Boiteux. Paliano havia deixado sua residência para comprar alimentos em uma mercearia, quando teria sido vítima de uma emboscada. Além disso, a moradia da vítima foi incendiada, reforçando a suspeita de um ataque direcionado. 

]A casa de Ariel já havia sido alvo de um ataque a tiros anteriormente. No Amazonas, Tadeu Kulina, da TI do Médio Rio Juruá, foi espancado até a morte, tendo o seu rosto completamente desfigurado. Tadeu foi encaminhado para Manaus pelo Dsei Médio Solimões para acompanhar a esposa Corima Kulina, que estava com gravidez de risco. Chegando na capital, o casal foi encaminhado diretamente para a maternidade, sem acompanhamento. Nenhum dos dois conhecia a cidade de Manaus, e não falavam nem entendiam português. Dias depois, indígenas comunicaram à polícia o desaparecimento de Tadeu. Ele foi encontrado morto e, segundo o Boletim de Ocorrência, a causa da morte foi espancamento. O caso passou a ser investigado pelo MPF em dois processos: um civil, para apurar as causas que deixaram o casal em situação de vulnerabilidade, e um criminal, que investiga o assassi nato. Em Mato Grosso do Sul, uma adolescente de 16 anos foi encontrada morta, pendurada em uma árvore na comunidade indígena Sassoró. Os suspeitos do crime, que estão foragidos, tentaram encobri-lo simulando suposto suicídio da vítima. Os ferimentos encontrados no corpo e os sinais de estupro, somados aos depoimentos das testemunhas, apontaram se tratar de um feminicídio. 




ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2023 - CIMI

 Em 2023, dados obtidos pelo Cimi junto ao Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM) e à Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) registraram a ocorrência de pelo menos 208 assassinatos de indígenas no Brasil. Como em anos anteriores, os estados que registraram o maior número assassinados foram Roraima (47), Mato Grosso do Sul (43) e Amazonas (36), que representam 39% do total. Os crimes foram registrados em 26 estados do país e vitimaram 179 homens e 30 mulheres. A maioria das vítimas, 171, tinha entre 20 e 59 anos de idade, e 19 delas tinham até 19 anos. Houve uma queda considerável nos casos que envolvem menores de idade em relação aos anos anteriores. É importante ressaltar que os dados obtidos junto a órgãos públicos são parciais e continuam sendo atualizados ao longo do ano, podendo sofrer alterações à medida que as bases de informação são alimentadas. Por essa razão, buscamos incluir as informações das fontes mais atualizadas, entre SIM, secretarias estaduais de saúde e Sesai. Há, ainda, possíveis diferenças de abrangência entre as bases de dados, visto que as informações fornecidas pela Sesai e obtidas pelo Cimi via Lei de Acesso à Informação (LAI) são restritas aos óbitos registrados junto às comunidades e povos assistidos pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). Como as especificações acerca do povo, território ou comunidade a que pertenciam as vítimas não são fornecidas e este campo sequer existe nos dados disponibilizados pelas secretarias e pelo SIM, não é possível cotejar dados de dife rentes fontes nem fornecer detalhes e análises mais aprofun dadas sobre as informações obtidas.

Em 2023, com base em informações obtidas pelas equipes missionárias em diferentes regiões do país e em notí cias publicadas nos diversos meios de comunicação, o Cimi registrou 81 casos que resultaram em 88 indígenas assassinados. Cabe ressaltar, como de costume, que este conjunto de registros é significativamente menor do que a quantidade de mortes violentas de indígenas registradas pelas fontes oficiais. No entanto, diferente dos dados obtidos junto a órgãos públicos, este conjunto de casos permite vislumbrar alguns detalhes, ainda que de forma limitada, sobre o contexto em que ocorreram estas mortes. Por isso, mesmo utilizando os dados obtidos junto ao SIM e à Sesai como fonte primordial para a contabilização de assassinatos de indígenas, o Cimi tem optado, ao longo destes anos, por manter uma sistematização própria dos assassinatos de indígenas no Brasil. Esses homicídios ocorreram nos estados do Acre (8), Amapá (1), Amazonas (7), Bahia (18), Ceará (1), Espírito Santo (2), Maranhão (8), Mato Grosso do Sul (19), Mato Grosso (2), Minas Gerais (1), Pará (2), Paraná (1), Rio Grande do Sul (7) Roraima (8), Santa Catarina (1), Tocantins (1) e no Distrito Federal (1). O ano foi marcado por uma série de conflitos territoriais e assassinatos envolvendo brigas ou desavenças, muitas vezes potencializadas por bebida alcoólica. Do total, 68 das vítimas foram homens e 17 mulheres. 31% das mortes registradas pelo Cimi foram ocasionadas por arma de fogo, 29% por arma branca perfurante e 12% por espancamento. No extremo sul da Bahia, no início do ano, os jovens Pataxó Samuel Cristiano, de 23 anos, e Nauí Brito, de 16, foram mortos na BR-101, a caminho do povoado de Montinho. Eles foram alvejados a tiros nas costas enquanto se deslocavam para uma retomada realizada pelo povo Pataxó na Terra Indígena (TI) Barra Velha do Monte Pascoal, onde viviam. A comuni dade relatou que ambos haviam saído de moto para comprar alimentos. No dia 30 de janeiro, um soldado da Polícia Militar (PM) foi preso, suspeito de participar das mortes dos dois jovens indígenas. Em dezembro, o cacique Lucas Santos Oliveira, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, foi assassinado quando retornava da cidade para a TI Caramuru Catarina Paraguassu. Dois homens em uma moto atiraram contra ele, que também estava de moto, com o filho na garupa. Lucas Pataxó era uma figura importante em sua comunidade, ocupando diversos cargos e lutando pelos direitos de seu povo. No nordeste do Pará, Agnaldo, do povo Turiwara, foi assassinado a tiros ao amanhecer dentro das terras que a empresa Agropalma disputa com indígenas, em uma emboscada enquanto buscavam alimentos. Com Agnaldo, estava Jonas, que foi ferido na cabeça, e José Luís que também foi atingido, mas o medalhão do cordão que usava que amorteceu o impacto. A região tem sido marcada por denúncias de pressão e violência de empresas que praticam o monocultivo do dendê sobre as comunidades e territórios indígenas, especialmente dos povos Turiwara e Tembé. No Maranhão, o número de assassinatos entre indígenas do povo Guajajara seguiu alto: sete das oito vítimas no estado. 

pertenciam ao povo, a maioria delas da TI Arariboia. Neste território, a violência no início do ano foi tamanha que vitimou, inclusive, um não indígena: Raimundo Ribeiro da Silva, 57 anos, era motorista da Sesai e casado com uma Guajajara, com quem vivia na aldeia Abraão. Em janeiro, foi assassinado a tiros1. No Rio Grande do Sul, Jonas, Kaingang de 26 anos, foi morto em meio ao conflito territorial ligado à demarcação da TI Passo Grande do Rio Forquilha, em Sananduva (RS). Mais uma vítima da morosidade no processo demarcatório. A área é habitada por mais de 45 famílias Kaingang e a demarcação é solicitada desde 2000. Na TI Yanomami, em fevereiro, um jovem foi morto e outro ferido por garimpeiros na região de Homoxi. Outros dois Yanomami foram assassinados na região de Parima. As vítimas foram atingidas por tiros, e devido à dificuldade de acesso à região de mata fechada, os corpos demoraram a ser removidos. Em abril, durante um ritual fúnebre da comunidade Uxiu às margens do rio Mucajaí, na TI Yanomami, um jovem Yano mami de 24 anos foi atingido na testa por disparos de garim peiros que passavam num barco durante a cerimônia. Outro homem, que também foi ferido no ataque, faleceu meses depois, devido aos ferimentos sofridos no abdômen. Na zona urbana de Tocantinópolis (TO), em setembro, Davi Dias, do povo Apinajé, foi morto com golpes na cabeça enquanto dormia em frente a um estabelecimento comercial. Ele foi encontrado durante a madrugada por um vigilante, que o havia visto horas antes, dormindo. Quando passou novamente pelo indígena, notou que ele estava ferido.



ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2022 - CIMI

 Em 2022, dados obtidos junto à Sesai, ao Sistema de Infor mação Sobre Mortalidade (SIM) e às secretarias de Saúde de Roraima, Bahia e Mato Grosso do Sul registraram 180 assassinatos de indígenas no Brasil. Os estados que regis traram o maior número de indígenas assassinados foram Roraima (41), Mato Grosso do Sul (38) e Amazonas (30). Os crimes foram registrados em 25 estados do país e vitimaram 137 homens, 41 mulheres e duas pessoas de sexo ignorado. A maioria das vítimas, 119, tinham entre 20 e 59 anos de idade, e 48, mais de um quarto do total, tinham até 19 anos. É importante ressaltar que os dados são parciais e conti nuam sendo atualizados ao longo do ano, podendo sofrer alte rações à medida que as bases de informação são atualizadas. Por essa razão, buscamos incluir as informações com as fontes mais atualizadas, entre SIM, secretarias e Sesai.

Há ainda possíveis diferenças de abrangência entre as três bases de dados, visto que as informações fornecidas pela Sesai, e obtidas pelo Cimi via Lei de Acesso à Informação (LAI), são restritas aos óbitos registrados junto às comuni dades e povos assistidos pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). Como a especificação acerca do povo a que pertenciam as vítimas não são fornecidas pela Sesai e este campo sequer existe nos dados disponibilizados pelas secretarias e pelo SIM, não é possível fornecer detalhes e análises mais aprofundadas sobre as informações obtidas. Buscando fazer um balanço dos assassinatos de indí genas durante os quatro anos sob o governo de Jair Bolsonaro (PL), também foram compilados dados atualizados referentes aos anos de 2019 a 2021. Em todo o período, conforme dados extraídos em julho de 2022, foram assassinados 795 indígenas no Brasil: 196 em 2019,216 em 2020 e 203 em 2021. A média de indígenas assassinados no período de 2019 a 2022, portanto, foi de 198,75 por ano. Ao longo dos quatro anos, Roraima (208), Amazonas (163) e Mato Grosso do Sul (146) mantiveram-se como os três estados com maior número de assassinatos registrados. Juntos, os três estados concentraram 65% dos homicídios praticados contra indígenas no período. 

DADOS DO CIMI CAPÍTULO II Violência Contra a Pessoa Em 2022, com base em informações obtidas pelas equipes de diferentes regiões do país e em notícias publicadas nos diversos meios de comunicação, o Cimi registrou 69 assassinatos de indígenas nos estados do Acre (3), Amazonas (9), Bahia (9), Amapá (1), Maranhão (5), Mato Grosso do Sul (19), Mato Grosso (1), Paraíba (6), Pernambuco (1), Paraná (4), Roraima (5), Santa Catarina (3), São Paulo (1) e Tocantins (2). O ano foi marcado por uma série de conflitos e de assas sinatos de lideranças e de indígenas ligados à luta pela terra e pela proteção de seus territórios. No Mato Grosso do Sul, quatro indígenas foram assassinados neste contexto, entre os meses de maio e setembro. Em maio, Alex Recarte Vasques Lopes, jovem Guarani--Kaiowá de 18 anos, foi assassinado no município de Coronel Sapucaia (MS), na fronteira com o Paraguai, depois de deixar a Reserva Indígena Taquaperi para buscar lenha numa área do entorno da TI. Lá, teria sido assassinado, e seu corpo foi encontrado do lado paraguaio da fronteira. A situação causou indignação entre os povos Kaiowá e Guarani, e motivou um intenso movimento de retomadas – que teve como reação de fazendeiros outros assassinatos de lideranças indígenas. Em junho, o Guarani Kaiowá Vitor Fernandes, de 42 anos, foi assassinado durante uma truculenta operação policial que visava despejar os indígenas da retomada denominada de Tekoha Guapoy, realizada numa área que os Guarani e Kaiowá afirmam ter sido subtraída da Reserva Indígena de Amambai (MS). O ataque violento e ilegal da Polícia Militar, realizado sem ordem judicial, deixou outros indígenas feridos e ficou conhecido como “massacre de Guapoy”. Nos meses seguintes, outros dois Guarani Kaiowá ligados ao Tekoha Guapoy foram assassinados: Márcio Moreira, lide rança da retomada, foi morto a tiros em uma situação com aspectos de emboscada em julho, e Vitorino Sanches, comer ciante e apoiador de Guapoy, foi morto, baleado, no centro da cidade de Amambai (MS), em setembro. Vitorino, uma liderança de 60 anos de idade, já havia sobrevivido a uma emboscada em agosto, na qual chegou a ser atingido e hospitalizado. Além de Vitorino, os meses de setembro e outubro foram marcados por uma série de casos graves e impactantes em diferentes regiões do país. No extremo sul da Bahia, Gustavo Silva da Conceição, garoto Pataxó de apenas 14 anos, foi assassinado durante um violento ataque a tiros contra uma retomada na TI Comexatibá. Os ataques de pistoleiros e grupos armados que os indígenas caracterizam como “milicianos” passaram a ser recorrentes contra as comunidades Pataxó das TIs Barra Velha do Monte Pascoal e Comexatibá. A paralisação dos processos demarcatórios e o avanço de fazendeiros e da especulação imobiliária motivou os indígenas a realizarem retomadas, cuja reação, também neste estado, foi com violência extrema. Meses antes, em março, Vitor Braz, Pataxó de 22 anos, foi assassinado a tiros em Porto Seguro (BA), após reclamar do barulho causado por uma festa clandestina na praia da Ponta Grande. A festa ocorria em local próximo à aldeia Novos Guerreiros, numa área que é reivindicada pelo povo Pataxó como parte da TI Ponta Grande. No espaço de apenas uma semana, três indígenas Guaja jara da TI Arariboia foram assassinados em circunstâncias | Conselho Indigenista Missionário – Cimi semelhantes, no Maranhão. Dois dos homicídios – de Jael Carlos Miranda Guajajara e de Janildo Oliveira Guajajara – ocorreram na madrugada de 3 de setembro, e o outro, de Antônio Cafeteiro Sousa Silva Guajajara, ocorreu na madrugada do dia 11. Janildo era integrante do grupo dos Guardiões da Floresta, que realiza atividades de proteção e monitoramento territorial na TI Arariboia – onde são frequentes as invasões e ameaças de madeireiros, caçadores e posseiros. Ele foi morto com tiros nas costas no município de Amarante do Maranhão. Jael foi encontrado morto por indígenas às margens da rodovia MA-006, que corta a TI, próximo a um povoado denominado “Jacaré”. A comunidade Guajajara afirma que o corpo possuía marcas de espancamento e que Jael teria sido, possivelmente, morto a pauladas. Já Antônio Cafeteiro, da aldeia Lagoa Vermelha, foi assassinado com seis tiros na estrada que leva ao povoado Jiboia, localizado no município de Arame (MA), próximo à TI. Em outubro, um líder indígena do grupo Xirixana, iden tificado apenas como Cleomar, foi morto num ataque a tiros de garimpeiros na região do Uraricoera, dentro da TI Yanomami, no estado de Roraima. Na mesma ocasião, um adolescente de 15 anos ficou ferido, atingido por um disparo de arma de fogo.



ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2021 - CIMI

                 Com base na Lei de Acesso a Informação, o Cimi buscou obter, junto à Sesai, números relativos a indígenas assassinados no ano de 2021, assim como em relação aos povos a que pertenciam, idade e gênero. Num primeiro momento, as respostas obtidas do órgão responsável pela atenção à Saúde Indígena retornaram dados com números baixos e sem a informação acerca do povo das vítimas, negada com a justificativa de que tais informações viola riam “a privacidade e intimidade dos indígenas falecidos”, com base Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). O Cimi recorreu à Controladoria-Geral da União (CGU) e obteve decisão favorável do órgão de controle; as novas informações, entretanto, não chegaram a tempo para análise e inclusão no relatório. Por este motivo, o dado acerca do número de indígenas assassinados foi obtido junto ao Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM) e às secretarias de Saúde do Mato Grosso do Sul e de Roraima.

             Cabe ressaltar que estes dados, que também não trazem informação acerca do povo dos óbitos indígenas, compreendem um universo mais amplo do que o abarcado pelo Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) – o qual, apesar das reivindicações de inúmeros povos indígenas, não abrange os indígenas que vivem em contexto urbano nem muitos povos que vivem em acampamentos e retomadas, no contexto da luta pela terra. Como em anos anteriores, Amazonas, Mato Grosso do Sul e Roraima continuam com os números mais altos de indígenas assassinados. Do total de 176 homicídios indígenas registrados, 29 vítimas eram mulheres, 146 eram homens e o gênero de uma não foi identificado. A maioria dos assassinatos, 118 (67%), vitimou indígenas de 20 a 59 anos. Chama atenção, porém, o grande número de homicídios de indígenas até 19 anos: foram 39, mais de um quinto do total registrado em 2021.

                        Em 2021, o Cimi registrou 77 assassinatos de indígenas nos estados do Acre (6), Amazonas (6), Bahia (14), Maranhão (1), Mato Grosso (1), Mato Grosso do Sul (17), Minas Gerais (1), Pará (2), Paraná (9), Rio de Janeiro (1), Rio Grande do Sul (7), Rondônia (2), Roraima (7), São Paulo (1) e Tocantins (2). Os dados foram obtidos através de informações das equipes de base do Cimi nas regiões onde atuam e através de notícias publicadas nos diversos meios de comunicação. Dez vítimas eram mulheres – número que reflete o aumento de casos de feminicídio entre indígenas – e 52 eram homens; as vítimas incluem seis adolescentes e nove crianças, que foram mortas de forma brutal, como em alguns dos casos ocorridos no Acre, no Amazonas e no Rio Grande do Sul. No Acre, um menino do povo Kulina, de apenas 12 anos de idade, foi assassinado com crueldade quando estava pescando com um primo, outra criança de 10 anos, em um lago fora do território indígena. 

                Os dois meninos retornavam à aldeia quando foram abordados por um homem embriagado, que afirmava que o lago era dele e que os “caboclos” não deve riam pescar lá. O homem atirou contra as crianças e atingiu o menino mais velho, que caiu no rio – seu primo conseguiu pular da canoa e se refugiar no mato. O assassino buscou o corpo da criança e arrastou-o até a praia; lá, com um facão, partiu o corpo ao meio, jogando uma parte no rio e a outra na mata. O crime, hediondo e cruel, foi relatado por uma liderança do povo que é avô da vítima. No Amazonas, um adolescente indígena de 14 anos foi cruelmente assassinado por cinco homens. O corpo dele foi encontrado na beira do rio Juruá, em frente ao bairro Bacuri, em Eirunepé. Ele tinha uma corda amarrada em seu pescoço e 29 golpes de faca. Dois dias depois do crime, a polícia prendeu um dos suspeitos, que confessou e deu detalhes sobre o crime. O criminoso relatou que o adolescente foi capturado e estuprado quando se dirigia para a casa de um parente, na cidade; como o indígena reagiu, foi morto a facadas. Em 2021, dois feminicídios ocorridos no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul tiveram enorme repercussão. A gravidade e a crueldade dos crimes, que envolveram violência sexual contra uma criança e uma adolescente, causaram comoção em todo o país. No Rio Grande do Sul, Daiane Griá Sales, jovem Kaingang de 14 anos, foi estuprada e morta na TI Guarita, no município de Redentora. Segundo a denúncia do Ministério Público (MP), a adolescente foi violentada e assassinada por um homem de 33 anos, acusado de estuprar e matar por asfixia a jovem Kaingang. 

                Ele foi preso preventivamente, acusado dos crimes de estupro de vulnerável e homicídio com seis qualificadores – entre eles, motivo torpe, caracterizado pelo desprezo do denunciado pelo povo Kaingang. Segundo o MP, o homem estava oferecendo carona para outras indígenas em bailes da região e imaginou que, por se tratar de uma indígena, o crime teria pouca repercussão e ficaria impune. O caso, além de evidenciar o preconceito e o desprezo pelas vidas indígenas, reflete a realidade complexa da TI Guarita, a maior terra indígena do estado, com 23,4 mil hectares e uma população de cerca de 6 mil pessoas. A desassistência do Estado, sobretudo quanto a políticas públicas que favoreçam a proteção social de crianças e jovens indígenas, soma-se ao aumento da presença de não indígenas dentro da TI, onde ocorre a prática do arrendamento de terras. Outro caso que teve grande repercussão ocorreu na Reserva Indígena de Dourados (MS), onde a Guarani Kaiowá Raíssa Cabreira, de apenas 11 anos, foi forçada a ingerir bebida alcoólica, espancada, estuprada por três adolescentes e dois adultos e assassinada. No Pará, os assassinatos de Isac Tembé e Benedito Tembé, ambos da TI Alto Rio Guamá, também evidenciaram uma grave situação de conflito, com indícios de atuação ilegal da Polícia Militar. No dia 12 de fevereiro, Isac Tembé, professor de 24 anos, foi morto por policiais enquanto caçava, com outros jovens indígenas, numa área tradicionalmente frequen tada pelo povo. Os indígenas refutaram imediatamente a versão apresentada pelos policiais, de que teriam entrado em “confronto” com os Tembé depois de serem chamados para averiguar uma denúncia de roubo de gado. As pessoas que viram o corpo de Isac observaram que o tiro foi dado no peito do jovem e a curta distância; no entanto, não foi feito nenhum exame por médicos legistas. 

                O registro policial afirmava, ainda, que os agentes teriam encontrado um boi desossado e um revólver ao lado do corpo de Isac; os Tembé afirmam que a cena do crime teria sido forjada pela PM. “A Polícia Militar assassinou duas vezes Isac Tembé: mataram seu corpo e tentam matar sua memória, quando atacam a índole de nosso jovem guerreiro e liderança exemplar”, afirma nota divulgada pelo povo logo após o assassinato. “Nosso território sofre diariamente invasões e ataques por parte de exploradores ilegais de madeira ou de fazendeiros que insistem em manter a ocupação de partes da TI Alto Rio Guamá, através de cabeças de gado e de outras atividades econômicas”, relataram os indígenas na nota. A posição dos indígenas foi reforçada por indícios colhidos por uma diligência da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará e de organizações de direitos humanos ao local do crime. O relatório final da Comissão apontou “flagrantes violações de direitos humanos” e “possível prática de execução” no caso. Menos de um mês depois, Benedito Cordeiro de Carvalho, conhecido como Didi Tembé, foi executado no município de Capitão Poço (PA) quando se dirigia, de moto, ao terri tório para visitar parentes.

                 O crime gerou apreensão entre os indígenas, cujo território é constantemente invadido e ocupado por posseiros, que são, inclusive, beneficiados por obras públicas irregulares realizadas por prefeituras locais. Também chamam atenção casos registrados no Paraná, onde indígenas podem ter sido vítimas de envenenamento intencional. Dois indígenas do povo Kaingang, pai e filho, foram encontrados numa praça de Mangueirinha (PR), caídos no chão, próximos de uma garrafa de bebida alcóolica, sem lesões aparentes. O outro óbito suspeito de envenenamento foi o de um adolescente de 15 anos, encontrado morto, sem marcas de violência, também em área urbana, desta vez na cidade de Manoel Ribas (PR). As mortes foram constatadas por agentes policiais e de saúde, mas nenhum corpo foi enviado ao IML para averiguação. Outros três homens foram encontrados mortos às margens de uma rodovia em Laranjeiras do Sul (PR), pois teriam ingerido bebida alcóolica misturada com álcool combustível. Houve denúncias de que comerciantes locais têm vendido a bebida misturada. As seis vítimas de envenenamento pertenciam ao povo Kaingang e parece haver, na região, uma intencionalidade em tais episódios.  



ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2020 - CIMI

 Dados oficiais obtidos junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai)1 e secretarias estaduais de Saúde informam a ocorrência de 182 assassinatos de indígenas em 2020. O maior número de óbitos ocorreu entre vítimas do sexo masculino, com 127 casos; os outros 55 eram do sexo feminino. Roraima (66), Amazonas (41) e Mato Grosso do Sul (34) são os estados com maior número de casos. Os registros oficiais mostram um aumento no número de assassinatos, em relação a 2019, de 61,06%.

Entre as causas dos óbitos estão agressão por meio de disparo de arma de fogo, agressão por meio de objeto cortante ou penetrante e agressão por meio de objeto contundente. Não são possíveis análises mais detalhadas, tendo em vista que a Sesai e as secretarias estaduais de Saúde não oferecerem dados pormenorizados, tais como povo, terra indígena ou circunstâncias das agressões. Dados coletados pelo Cimi Em 2020, o Cimi registrou 45 vítimas de assassinatos. As ocorrências foram registradas nos estados do Acre (4), Amazonas (3), Bahia (8), Maranhão (3), Mato Grosso (4), Mato Grosso do Sul (12), Pará (2), Paraná (3), Rio Grande do Sul (1), Rondônia (1), Roraima (3), e Santa Catarina (1). Os dados apresentados foram obtidos pelas equipes do Cimi junto às comunidades onde atuam, bem como por meio de 156 notícias publicadas em diferentes veículos de comunicação. Oito vítimas eram do sexo feminino, 37 do sexo masculino. Foram registradas como motivações das agressões conflito fundiário, brigas/desentendimentos relacionados ao consumo de álcool, feminicídio, violência sexual ou razões desco nhecidas. Destacamos, na sequência, alguns dos casos que caracterizaram os contextos dos homicídios. Chamam atenção, inicialmente, dois casos muito graves que ocorreram nos estados do Amazonas e de Mato Grosso de assassinatos coletivos praticados por forças policiais. 

Em Mato Grosso, quatro indígenas do povo Chiquitano foram mortos quando caçavam, na região de fronteira entre a Bolívia e o Brasil, por agentes do Grupo Especial de Fronteira (Gefron), núcleo da polícia militar responsável pela segurança da região. A caça é uma prática de subsistência da comunidade, loca lizada do lado boliviano da fronteira seca, que atravessa o território de ocupação tradicional do povo e cuja delimitação não é clara na região. Os relatos e as investigações indicam que os indígenas sofreram tortura e agressões antes de serem executados; um grupo de trabalho de várias organizações da sociedade civil, que foi ao local para averiguar o contexto da chacina, encontrou no local dos assassinatos “sinais de sangue e uma árvore cravejada de balas do pé à copa”1. No Amazonas, em agosto, uma desastrosa ação da Polícia Militar na região dos rios Abacaxis e Marimari, nos muni cípios de Borba e Nova Olinda do Norte (AM), resultou na morte dos irmãos Josimar e Josivan Moraes Lopes, do povo Munduruku. A brutal operação, que se originou de um conflito envolvendo a invasão do território de comunidades ribeirinhas e dos povos Munduruku e Maraguá, nas TIs Coatá-Laranjal e Maraguá, para a prática não autorizada de pesca esportiva, resultou ainda na morte quatro ribeirinhos e de dois policiais militares, além do desaparecimento de outros dois ribeirinhos. As mortes foram seguidas por um contexto de terror entre as comunidades indígenas e ribeirinhas e diversas denúncias de graves violações praticadas pela PM. Cabe ressaltar que em ambos os casos, ocorridos em plena pandemia de Covid-19, as forças policiais justificaram que as ações seriam de “combate ao tráfico de drogas”. No Maranhão, lideranças relatam que um jovem indígena foi encontrado morto no dia 3 de agosto, mas que só três dias depois conseguiram fazer a denúncia, devido às dificuldades de acesso e de comunicação. Acreditam que o assassinato tenha ocorrido por vingança de traficantes de drogas, pois anteriormente uma plantação de maconha foi destruída durante uma ronda realizada pelos indígenas no território. A área sofre constantes invasões por madeireiros, grileiros, caçadores e traficantes, o que já foi denunciado por diversas vezes às autoridades competentes. 

Em Rondônia, há anos a terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau vem sofrendo com invasões, desmatamento, grilagens e queimadas. Em 2020, mais uma liderança foi cruelmente assassinada como represália às ações dos indígenas em defesa de seu território. O jovem professor e agente ambiental Ari, de 33 anos de idade, foi encontrado morto com sinais de espancamento na estrada do distrito de Tarilândia, no município de Jaru. O corpo estava ao lado da motocicleta da vítima. A família do professor relatou haver várias marcas de pancadas em seu corpo, resultantes de muita violência. Foi registrado boletim de ocorrência na Polícia Civil, que está investigando e tratando o caso como homicídio. Em Roraima, segundo informações do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye´kuana - Condisi, dois jovens indígenas foram atacados no meio da floresta e mortos a tiros por garimpeiros, invasores da Terra Indígena Yano mami. As vítimas estavam em um grupo de cinco indígenas, quando se depararam com dois garimpeiros próximo a uma pista clandestina para pouso de helicóptero. Ao verem os indígenas, os garimpeiros atiraram e acertaram um deles. O grupo correu, houve perseguição e, em seguida, o outro jovem foi atingido. Os indígenas que conseguiram escapar relataram que a perseguição durou cerca de uma hora. O Condisi-Y foi informado do conflito via radiofonia. Foram acionadas a Funai e a Polícia Federal, que se dirigiram à região para apurar o caso. Os corpos dos jovens permane ceram no local, onde o povo seguirá as tradições de funeral, conforme a cultura Yanomami. O MPF também foi acionado para providências. 



ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2019 - CIMI

 Dados oficiais obtidos junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e secretarias estaduais de saúde informaram a ocorrência de 113 assassinatos de indígenas em 2019. Estão entre as vítimas pessoas pertencentes aos povos Kaxinawá, Nawa, Wassú, Tikuna, Apurinã, Kanamari, Kulina, Yanomami, Anacé, Pitaguari, Potiguara, Tapeba, Guajajara, Krikati, Guarani-Kaiowá, Terena, Amanayé, Pipipã, Xukuru, Kain gang e Yanomami. O maior número de óbitos ocorreu entre vítimas do sexo masculino, com 91 casos; foram registrados, portanto, 22 casos em que as vítimas eram do sexo feminino.

Entre as causas dos óbitos estão agressão por disparo de arma de fogo, agressão por objeto cortante ou penetrante e agressão por objeto contundente. Cabe ressaltar que os dados oficiais de assassinatos não permitem uma análise mais aprofundada, visto que não são apresentadas informações detalhadas das ocorrências, tais como faixa etária das vítimas, localidade e povo, dentre outras. Dados coletados pelo Cimi O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) registrou no ano de 2019, 72 vítimas de assassinatos. As ocorrências foram nos estados do Acre (5), Amapá (1), Amazonas (11), Bahia (3), Maranhão (7), Mato Grosso do Sul (23), Paraná (4), Pernambuco (2), Rio Grande do Sul (3), Rondônia (3), Roraima (8), Santa Catarina (1) e Tocantins (1). Os dados apresentados foram obtidos pelas equipes do Cimi junto às comunidades onde atuam, bem como obtidos através de notícias publicadas em veículos de comunicação. Foi feito o 124 O assassinato do “guardião da floresta” Paulino Guajajara, no Maranhão, teve ampla repercussão nacional e internacional; o clima de tensão nos territórios, marcados por muita invasão, aumentou consideravelmente em 2019 registro de 63 vítimas do sexo masculino e 9 do sexo feminino. Os relatos dos casos e das vítimas demonstram que os assassinatos ocorreram em função de pelo menos quatro circunstâncias. 


Em algumas, as vítimas eram lideranças que lutavam pela demarcação de seus territórios e, em função disso, eram visadas e ameaçadas; houve casos em que as vítimas empenhavam-se na proteção das divisas de seus territórios e combatiam a exploração madeireira e garimpeira; outras ocorrências se deram por motivos fúteis, geralmente por conta de alguma desavença anterior ou momentânea, ou pelo preconceito e intolerância aos indígenas; e alguns homi cídios estão relacionados a condições de vulnerabilidade de comunidades constituídas em áreas degradadas, em reservas superpopulosas, próximas de cidades, onde as pessoas acabam submetidas ao alcoolismo, ao tráfico e à prostituição. Destacamos, na sequência, alguns casos que caracterizaram os contextos dos homicídios. No Amapá, indígenas relatam que garimpeiros invadiram a Terra Indígena (TI) Wajãpi e esfaquearam o cacique no meio da mata, quando ele se deslocava até sua aldeia, após uma visita à sua filha. Seu corpo foi jogado no rio e encontrado pela esposa. Demarcado em 1996, o território abrange seis mil quilômetros quadrados, é rico em ouro e muito cobiçado por garimpeiros e mineradoras. Metade dele está sobreposto pela Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), que o governo Temer tentou extinguir. O assassinato do cacique teve repercussão nacional e internacional.



ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2018 - CIMI

 Com base na Lei de Acesso à Informação (12.527/2011), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) requereu da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) os dados relativos aos assassinatos de indígenas ocorridos em todo o país durante o ano de 2018. Os dados fornecidos pela Sesai, bem como as consultas às secretarias estaduais de saúde dos estados da Bahia, do Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Paraná e Roraima, permitem identificar 135 óbitos por agressões. O quadro abaixo mostra o número de assassinatos registrados pelos órgãos citados, divididos por estados.

Os dados acima não permitem análises mais aprofundadas, visto que não trazem informações quanto à faixa etária das vítimas, ao povo ao qual pertencem ou às circunstâncias dos assassinatos. De qualquer modo, chamam atenção os elevados números de óbitos ocorridos nos estados de Roraima (62) e Mato Grosso do Sul (38). Ressaltamos que a própria Sesai informa que estes dados são “preliminares”, e haviam sido sistematizados até o dia 30 de setembro de 2018. As secreta rias de saúde também informam que os dados estão sujeitos a alterações. Desse modo, é perfeitamente válido considerar que a possibilidade dos casos de assassinatos de indígenas por agressão serem maiores seja bastante provável. Foto: Erisvan Guajajara-Amazônia Real Apesar da reconhecida subnotificação dos registros, houve um aumento no número indígenas assassinados em 2018, comparado com o ano anterior Dados coletados pelo Cimi O Cimi registrou 50 vítimas de assassinato em 2018. 

Estas ocorrências foram registradas nos estados do Acre (3), Alagoas (1), Amazonas (4), Bahia (3), Maranhão (1), Mato Grosso (2), Mato Grosso do Sul (13), Minas Gerais (1), Pará (3), Paraná (3), Rio Grande do Sul (1), Roraima (5), Santa Catarina (6) e Tocantins (4). Os casos aqui apresentados foram levantados a partir de informações das equipes que atuam nos Regionais do Cimi e em veículos de comunicação. Seis vítimas eram do sexo feminino e entre as vítimas do sexo masculino houve um menino de 9 anos. As idades dos homens variaram entre 15 e 61 anos, em grupos que indicam 18 vítimas entre 15 e 29 anos, outras 16 entre 34 e 45 anos e 7 vítimas entre 48 e 61 anos. Estes dados indicam que os jovens são especialmente atingidos por essas ocorrências violentas. Se considerarmos que o grupo etário entre 19 e 45 anos são os adultos, somando 32 óbitos, poderá haver um certo prejuízo na composição da força de trabalho para algumas comunidades. Dentre os motivos das agressões há um feminicídio declarado, em que o marido confessou que matou a mulher a pauladas por ciúme, e outro em que o marido matou a esposa a golpes de facão, na frente da filha de dois anos. Houve o registro de nove casos de brigas, com ou sem álcool e drogas, roubo e delírio. A maior parte dos assassinatos apresenta motivos ignorados e desconhecidos. Uma grande parte foi cometida com armas brancas, paus, pedras e espancamentos. Nove foram cometidos por armas de fogo, envolvendo poli ciais, pessoas desconhecidas e vitimando algumas lideranças indígenas. 



ASSASSINATO DE INDÍGENAS 2017 - CIMI

 Com base na Lei de Acesso à Informação (12.527/2011), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) requereu da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) os dados relativos aos assassinatos de indígenas ocorridos em todo o país durante o ano de 2017. Depois da terceira solicitação encaminhada à Sesai, o órgão nos informou que “os dados informados são preli minares, pois ainda estamos em processos diferentes nos Distritos – seja de captação, alimentação, qualificação e tratamento dos dados. Ainda, é possível observar a exis tência de subnotificação em algumas localidades e faixas etárias específicas”. Em sua comunicação, a Sesai informa a ocorrência de 110 assassinatos em 2017, classificados como óbitos por agressões (CID10 X85 a Y09).

O Cimi registrou 68 vítimas de assassinato em 2017. Estas ocorrências foram relatadas nos estados do Acre (3), Alagoas (3), Amazonas (12), Bahia (2), Ceará (1), Maranhão (3), Mato Grosso (1), Mato Grosso do Sul (23), Minas Gerais (1), Pará (1), Paraná (3), Rio Grande do Sul (4), Rondônia (1), Roraima (4), Santa Catarina (4), São Paulo (1) e Tocantins (1). Os casos aqui apresentados foram levantados a partir de informações das equipes que atuam nos Regionais do Cimi e em veículos de comunicação. Das 68 vítimas, sete eram do sexo feminino e tinham idades entre 17 e 74 anos. Um bebê de colo está entre as vítimas, além de mais duas crianças, um menino de 4 e uma menina de 10 anos. Dentre as 61 vítimas do sexo masculino, 45 tinham idade entre 1 e 78 anos. Pelo menos 13 mortes ocorreram em decorrência de brigas e/ou consumo de álcool. Predominou nos assassinatos o uso de armas brancas, com 28 casos, e armas de fogo, com 16 ocorrências. 

As autorias dos crimes puderam ser evidenciadas em 25 dos casos, e no restante, 43, não se sabe quem praticou os crimes. No Mato Grosso do Sul ocorreram, de acordo com os dados coletados pelo Cimi, 23 assassinatos. A maioria das ocorrências aconteceu nas reservas de Dourados e Amambai e foi motivada por brigas, sempre antecedidas pelo consumo de álcool. A maioria das vítimas era jovem, entre 10 e 30 anos. Há muitos anos indigenistas, antropólogos e profissionais da saúde veem alertando para os problemas decorrentes do confinamento populacional nas reservas de Dourados e Amambai, onde a situação é de absoluta desagregação. A concentração das famílias em pequenas porções de terras retira qualquer perspectiva de futuro dos indígenas, tendo em vista que para os Guarani-Kaiowá, por exemplo, a terra é a esperança de vida nova e vida boa. Sem ela as relações culturais, sociais, religiosas e interpessoais acabam sendo tensionadas. 

Destacamos neste relatório um caso de assassinato ocorrido no estado do Maranhão envolvendo conflito fundiário. A liderança do povo Krikati dormia na rede quando foi agredida a pauladas. A polícia acredita que o crime tenha sido praticado porque o indígena estava à frente da luta pela garantia da terra. No Acre houve o assassinato de uma criança de colo. De acordo com o relato, ao chegar no município de Sena Madureira, enquanto atracava o barco, uma família foi surpreendida por criminosos, que efetuaram disparos com arma de fogo, que atingiram o bebê no colo da mãe. Ainda foram registrados outros dois assassinatos de crianças, um menino de 4 anos e uma menina de 10 anos. O menino estava com outras pessoas numa calçada, em Santa Cruz de Cabrália, na Bahia, no momento em que bandidos passaram atirando e o atingiram. Em Rondônia, Manoel Kaxarari foi assassinado por dois homens que desceram de uma motocicleta e o alve jaram. O indígena era uma das antigas lideranças da Aldeia Pedreira e ultimamente morava na Aldeia Buriti. 

A extração ilegal de madeira da terra indígena por uma máfia de madeireiros pode ter sido o motivo do crime. A falta de medidas eficazes para a fiscalização e proteção das terras indígenas tem servido para insuflar a prática de novas invasões de madeireiros, garimpeiros, grileiros e de lotea mentos e apossamentos ilegais de terras já demarcadas. Essas práticas estão em curso em várias terras indígenas, inclusive na TI Kaxarari. No Amazonas, dois casos envolvendo assassinatos de várias pessoas chamaram atenção em 2017. Num deles, quatro indígenas Tikuna deram carona em seu barco a dois homens que foram identificados como “peruanos”. Ao entrarem na embarcação, eles começaram a fazer disparos com armas de fogo, matando três indígenas e deixando ferida uma mulher. O outro fato grave ocorreu no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, de Manaus. Durante uma rebelião, quatro indígenas foram assassinados. O Ministério Público Federal constatou a existência de forte discriminação étnica contra os indígenas presos. 

No Rio Grande do Sul foi assassinado o cacique Kaingang Antônio Ming, da Terra Indígena Serrinha. Ele estava em um armazém dentro da aldeia quando foi surpreendido pelos criminosos, que chegaram em um veículo de cor branca. Uma mulher, que seria a motorista do carro, ficou aguardando o comparsa que acertou cinco tiros na região do tórax da liderança indígena. Ming foi levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos. O cacique vinha atuando no sentido de se contrapor à prática que ocorre naquela região de arrendamento de terra para não indígenas. Isso gerou descontentamentos naqueles que historicamente exploram as terras tradicionais. A Polícia Federal abriu um inquérito para investigar o crime. 



ASSASSINATO DE INDÍGENAS 2016 - CIMI

 Com base na Lei de Acesso à Informação (12.527/2011), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) requereu da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) dados relativos aos assassinatos de indígenas em todo o país ocorridos em 2016. Em resposta, a Sesai encaminhou um primeiro ofício informando dados preliminares sob a alegação de que as informações ainda estavam em processo de coleta. Diante de uma segunda solicitação do Cimi, a Sesai encaminhou um novo ofício com as mesmas informações repassadas anteriormente. Não satisfeito, o Cimi solicitou novamente uma nova consulta na base de dados. Como resposta a essa terceira solicitação, a Sesai encaminhou o Memorando 461/2017 reforçando “que os dados informados são preliminares, pois ainda estamos em processos diferentes nos Distritos – seja de captação, alimentação, qualificação e tratamento dos dados”. Alegou ainda o órgão que “quanto à cobertura dos dados solici tados, os óbitos foram estimados em aproximadamente 64% do valor esperado, destacando-se a baixa cobertura em menores de 1 ano, enquanto os nascidos vivos do ano de 2016, em 61% do valor esperado”. Insiste o órgão oficial: “Optamos por manter os valores absolutos e não aplicar os cálculos das taxas, considerando a baixa cobertura dos eventos, o tamanho populacional por distrito e para permitir uma melhor comparação com os dados fornecidos anteriormente”. 

Quanto ao número de indígenas assassinados em 2016, a Sesai encaminhou informações que correspondem a agressões, negligências e a maus tratos”, chegando a 118 óbitos distribuídos em 19 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei). Segundo a Sesai, “os dados ainda estão em processo de alimentação pelos Distritos”. Os dados não permitem uma análise mais aprofundada, visto que não foram apresentadas informações detalhadas das ocorrên cias, tais como faixa etária das vítimas, localidade, povo, etc. Dadas as especificadas dos povos indígenas, o Estado brasileiro necessitaria qualificar melhor os dados coletados sobre as ocorrências envolvendo tais comunidades. Chama atenção o número de óbitos registrados junto ao povo Yanomami. A Sesai informa a ocorrência de 44 óbitos por agressões na área de abrangência do Dsei Yanomami. Em 2015, foram notificados 59 óbitos por agressões. Em se confirmando os dados apresentados pela Sesai, é bastante grave a situação de violência entre o povo Yanomami pois haveria um total de 103 mortes por agressões em apenas dois anos. Não é possível fazer nenhuma análise mais aprofundada, visto que o órgão oficial não detalha as ocorrências, especialmente sobre quem são os agressores – índios ou não índios. De qualquer forma, é fato que a Terra Indígena Yanomami vem sofrendo invasões nos últimos anos, especialmente por parte de garimpeiros e a entrada de armas. Portanto, é evidente que a realidade de mortes entre o povo Yanomami precisa ser, urgentemente, enfrentada pelo poder público. Como em anos anteriores, o Mato Grosso do Sul continua com um elevado número de mortes por agressões. Foram registrados 18 óbitos no estado pela Sesai. Também chama atenção o número de óbitos na área de abrangência dos Dsei Ceará (11) e Maranhão (7).

Os dados coletados pelo Cimi, a partir de nossas equipes missionárias e dos meios de comunicação, indicam a ocorrência de 56 assassinatos. Foram registrados casos nos estados do Acre (1), Alagoas (1), Amazonas (6), Bahia (3), Maranhão (11), Mato Grosso do Sul (15), Minas Gerais (1), Pará (1), Paraná (3), Rio Grande do Sul (1), Rondônia (1), Roraima (6) e Santa Catarina (6). Das 56 vítimas, 12 eram do sexo feminino e tinham idades entre 3 e 56 anos. As outras 44 pessoas, do sexo masculino, tinham idade entre 2 e 58 anos. Do total de vítimas, incluindo homens e mulheres, 8 eram menores, e tinham idade entre 2 e 17 anos. Pelo menos 18 mortes ocorreram em decorrência de brigas e/ou consumo de álcool. Em 5 casos, observou-se que as mortes se deram em virtude de conflitos fundiários nos estados da Bahia, Maranhão e Mato Grosso do Sul. No Mato Grosso do Sul, o Cimi denunciou a morte do agente de saúde Clodiodi Aquileu, Guarani-Kaiowá, durante um ataque realizado contra o acampamento Kunumi Verá, no município de Caarapó. Em filmagens realizadas pelos próprios indígenas, é possível ver que muitas caminhonetes, motocicletas, cavalos e trator foram usados por pistoleiros e capangas que chegaram atirando contra o acampamento, queimando motos e outros pertences dos indígenas, que se dispersaram pelo território, em fuga. No ataque, outros seis indígenas ficaram feridos, incluindo uma criança. No estado do Maranhão dez indígenas do povo Guajajara e um do povo Gamela foram assassinados. Para as comuni dades, alguns dos assassinatos são represálias às lideranças que lutam contra a invasão e o desmatamento de seus terri tórios. 
Na Terra Indígena Arariboia, um grupo de proteção ao território foi criado em 2008, denominado de Guardiões da Floresta. Desde então, como represália dos madeireiros, a violência contra os indígenas se intensificou. A vítima do povo Gamela foi assassinada, alvo de três disparos de arma de fogo, quando retornava de uma retomada. Também chamou atenção o aumento no número de assassinatos ocorridos em Santa Catarina, com 6vítimas, todas do povo Kaingang. Em Roraima foram registradas 6 vítimas de assassinatos. Este mesmo número foi registrado no Amazonas. Em São Gabriel da Cachoeira, o corpo da estudante de 18 anos Cleide Lima Barbosa, do povo Piratapúya, foi encontrado em um terreno baldio e apresentava sinais de violência sexual e estrangulamento. Em Alagoas, João Natalício, do povo Xukuru-Kariri, foi assassinado com golpes de faca e disparos de arma de fogo. O indígena era um líder histórico do povo. No estado da Bahia, Luiz Viana Lima, do povo Tupinambá, foi morto em uma rodovia que liga os municípios de Buerarema e Una. Os tiros foram disparados por três indivíduos numa emboscada. Em Belo Horizonte, Minas Gerais, câmeras de segu rança registraram o brutal assassinato de um indígena de aproximadamente 55 anos de idade, que sobrevivia como morador de rua. A vítima era reconhecida como uma pessoa tranquila e pacífica e sem antecedentes criminais. Dormia na calçada quando um jovem se aproximou e iniciou um ataque covarde e cruel com chutes e mais de 20 pisadas em sua cabeça. O indígena ficou agonizando na calçada durante cinco horas. Levado ao hospital, não resistiu aos ferimentos.



ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2015 - CIMI

 Com base na Lei de Acesso à Informação (12.527/2011), o Cimi enviou um requerimento à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) solicitando os dados relativos aos assassinatos de indígenas em todo o território nacional em 2015. Em resposta, a Sesai encaminhou um ofício em que reconhece que os dados enviados são defasados: “os dados ainda carecem de melhor qualificação, tanto por não considerar as informações do FormSUS, quanto por deficiência que ainda persiste na alimentação do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (Siasi) e na própria qualificação dos dados, conforme foi justificado”. 

A Sesai, em Brasília, limitou-se a encaminhar uma tabela com o total de óbitos, constando apenas o nome do “Dsei” [Distrito Sanitário Especial Indígena] e “Agressões”, dentre outras causas das mortes. No caso de Mato Grosso do Sul, tomamos a liberdade de levar em consideração os dados apresentados pelo Dsei-MS, que registrou 36 casos de homicídios. Desse modo, os dados oficiais de homicídios em todo o país em 2015 totalizam 137 vítimas. Estes dados, no entanto, não permitem uma análise mais aprofundada, visto que não foram apresentadas informações detalhadas das ocorrências, tais como faixa etária das vítimas, localidade, povo, etc. A fragilidade destes dados dificulta uma clara percepção da autoria dos homicídios, se eles tiveram como pano de fundo a disputa pela terra ou, nesse sentido, se são consequência do fato dos indígenas não estarem vivendo em seus territórios tradicionais. Segundo informações do Dsei do Mato Grosso do Sul, 94% das 36 vítimas de homi cídio eram do sexo masculino e 6% do sexo feminino. 

A faixa etária com maior incidência de vítimas é a de 20 a 29 anos (36%). Um total de 33% dos homicídios ocorreu na faixa de 10 a 19 anos. Dourados continua sendo o município com o maior número de casos (38%), seguido de Amambai (27%). Dados coletados pelo Cimi O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) registrou em 2015, 52 casos com 54 vítimas de assassinatos nos seguintes estados: Acre (1), Amapá (3), Amazonas (5), Bahia (5), Goiás (1), Maranhão (3), Mato Grosso do Sul (20), Minas Gerais (1), Pará (2), Paraná (5), Pernambuco (1), Rondônia (1), Santa Catarina (1) e Tocantins (5). Os dados aqui apresentados foram levantados a partir de informações das equipes que atuam nos onze regionais do Cimi e de diversos meios de comunicação. Das 54 vítimas, oito eram do sexo feminino e tinham idades entre 9 e 82 anos. Uma criança do sexo feminino, de 9 anos, está entre as vítimas. As outras 46 pessoas, do sexo masculino, tinham idade entre 2 e 75 anos. Do total de vítimas, incluindo homens e mulheres, nove eram menores, e tinham idade entre 2 e 17 anos. Pelo menos quinze mortes ocorreram em decorrência de brigas e/ou consumo de álcool. Em cinco casos, observou se que as mortes ocorreram, diretamente, em virtude de conflito fundiário. Predominou nos assassinatos o uso de armas brancas, com 21 casos, e armas de fogo, com quinze ocorrências. Dentre os casos envolvendo conflitos fundiários, desta camos três que ocorreram no estado da Bahia; um no Maranhão; e um no Mato Grosso do Sul. 

O macabro assas sinato de Vítor Kaingang, uma criança de apenas 2 anos, em Santa Catarina, também se sobressaiu bastante entre os casos de homicídios de indígenas em 2015. Na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, Adenilson da Silva Nascimento, conhecido como Pinduca, importante liderança de seu povo que lutava pela regularização fundiária da terra tradicional, foi assassinado numa emboscada por disparos de arma de fogo. O atentado também deixou sua esposa gravemente ferida. Na Bahia, também em Olivença, um casal de indígenas do povo Tupinambá - Jorge Carlos Amaral do Nascimento e Maraci Oliveira da Costa -foi encontrado morto em um matagal. Eles estavam recebendo ameaças e, no dia do assassinato, foram levados de sua casa, na aldeia, por cinco homens. Outro assassinato em função de disputas territoriais na Bahia ocorreu na terra do povo Tumbalala. Gilmar Alves da Silva seguia de moto quando um veículo bateu no veículo, lançando-o longe. Em seguida ele foi alvejado a tiros. No estado do Maranhão, na Terra Indígena Alto Turiaçu, a liderança Euzébio Ka’apor, que liderava seu povo na luta pela defesa de seu território e, especialmente contra a exploração madeireira, foi assassinado a tiros quando estava no município de Centro do Guilherme. Devido à ausência dos órgãos de fiscalização do Estado, os próprios Ka’apor se arriscam e expõem suas vidas para fazer a defesa da terra tradicional e de seus bens naturais. Ao longo dos últimos anos, centenas de madeireiros foram expulsos de suas terras. No entanto, há uma verdadeira organização criminosa na região, a qual inclui autoridades municipais, madeireiros e comerciantes, que promove a invasão das terras e a explo ração ilegal da madeira. 

Os órgãos estaduais e federais são omissos e coniventes diante dos crimes praticados contra os povos indígenas e o meio ambiente. A promiscuidade existente entre madeireiros e autoridades locais incentiva a exploração ilegal da madeira, um crime lucrativo. Em agosto de 2014, os Ka’apor Guardiões da Floresta expulsaram vários madeireiros no interior da terra indígena, destruíram os acampamentos dos invasores e queimaram os caminhões que transportavam a madeira retirada ilegal mente da terra indígena. A violência contra os indígenas se intensificou depois do fechamento de um último ramal madeireiro em dezembro de 2014. Várias aldeias foram invadidas em represália às ações de fiscalização. Segundo uma liderança do Conselho Ka´apor, “fechamos todos os ramais e criamos oito aldeias nas entradas para impedir que voltem. Mas, de lá pra cá, aconteceram três roubos de motos seguidos de agressão, e sempre cometidos por duas ou três pessoas encapuzadas e com espingardas”. Segundo o indígena, “estão dizendo que é melhor liberar a madeira do que morrer mais gente”, e “o Estado não faz nada”. No Mato Grosso do Sul, o Guarani e Kaiowá Simeão Vilhalva foi assassinado depois que os fazendeiros e políticos da região de Antônio João promoveram um ato público convocando a população a se rebelar contra a comunidade indígena de Ñhanderu Marangatu. Os indígenas haviam realizado algumas ações de recuperação de parcelas de seu território que havia sido homologado em 2005 mas, no entanto, permanece sob a posse de não índios. Fazendeiros, políticos e capangas, com a escolta do Departamento de Operações de Fronteiras (DOF) avançaram sobre a comu nidade indígena Guarani e Kaiowá. 

Horas depois, quando RELATÓRIO – Violência contra os povos indígenas no Brasil – Dados de 2015 Simeão Vilhalva ia ao encontro de seu filho, foi alvejado no rosto por um disparo de arma de fogo. Neste caso, além do assassinato, há outros fatos graves, como a incitação à violência por parte de políticos, o uso de armas de fogo por fazendeiros e capangas sem que isso fosse coibido pela polícia e a conivência das autoridades federais e de forças de segurança diante das violências promovidas abertamente nos sindicatos, nos programas de rádio, na internet e em canais de televisão que transmitiam as programações locais. Um fato estarrecedor ocorreu no dia 30 de dezembro em Santa Catarina, na rodoviária do município litorâneo de Imbituba. Uma mãe Kaingang amamentava seu filho Vítor, de dois anos, quando um rapaz se aproximou e desferiu um golpe de estilete no pescoço de Vítor. A mãe desesperada não pôde fazer mais nada a não ser, em prantos, ver seu pequenino esvair-se em sangue no seu colo.

 Este fato não pode ser visto ou pensado como um caso isolado. Demonstra, em primeiro lugar que a vida é insignificante, especialmente quando se trata de “índio” nas regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste do país; em segundo lugar, demonstra a vulnerabilidade a que os indígenas estão submetidos, sendo obrigados a viver em acampamentos improvisados às margens das rodovias ou fora de seus territórios. Chamou também atenção o registro do aumento de indígenas assassinados no Tocantins, cinco casos, e no Paraná, cinco casos. Há, nessas regiões, um forte incentivo a projetos ligados ao agronegócio que incidem de modo intenso sobre os territórios indígenas em demarcação ou reivindicados como sendo de ocupação tradicional. As frentes de expansão do agronegócio carregam consigo o consumismo, o álcool, as drogas, o preconceito e outros fatores geradores de violências. Nesse contexto, os povos originários tornam-se vulneráveis e ocorrem problemas internos, entre indígenas, bem como externos, na disputa pela terra.



ASSASSINATOS DE INDÍGENAS 2014 - CIMI

 Com base na Lei de Acesso à Informação (12.527/2011), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) solicitou da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) dados relativos aos assassinatos de indígenas em todo o território nacional. A Secretaria enviou uma tabela composta apenas por duas colunas: “Nome do Dsei [Distrito Especial de Saúde Indígena]” e “Óbitos resultados de agressões”. Os dados não permitem uma análise mais aprofundada, visto que não são apresen tadas informações detalhadas das ocorrências, tais como povo, estado, sexo, idade, etc. De qualquer forma, os dados indicam um aumento no número de indígenas assassinados no país. Foi registrado um total de 138 assassinatos em 2014, contra 97 casos registrados em 2013. Segundo informações do Dsei Mato Grosso do Sul, este estado figura mais uma vez como o mais violento do país, em relação ao assassinato de indígenas, com 41 assassinatos ou 29% dos casos. Segundo a Área Técnica de Saúde Mental (Diasi/Dsei/MS), 68% das vítimas assassinadas eram do sexo masculino e 32% do sexo feminino. A faixa etária com maior incidência de vítimas foi a de 20 a 29 anos (32%). Também preocupa o registro de assassinatos na faixa etária de 10 a 14 anos (12% dos casos). Dourados foi o município com o maior número de casos (40%), seguido de Amambai (34%).

Os registros coletados pelo Cimi também indicam o aumento do número de indígenas assassinados em 2014: 70 vítimas. Tínhamos registrado em 2013, 53 assassinatos. Foram anotados casos nos estados do Amazonas (10), Bahia (15), Goiás (1), Mato Grosso (2), Mato Grosso do Sul (25), Minas Gerais (3), Pará (3), Pernambuco (4), Rio Grande do Sul (3), Santa Catarina (1), São Paulo (1) e Tocan tins (2). Os dados aqui apresentados foram levantados a partir de informações das equipes do Cimi, dos meios de comunicação e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). O órgão disponibilizou os dados, a partir de soli citação do Cimi, com base na Lei de Acesso à Informação. O Mato Grosso do Sul, estado que há anos vem sendo recordista em violência contra os povos indígenas, continuou em evidência com o registro de 25 casos. As mortes ocorreram entre indígenas dos povos Guarani-Kaiowá, Guarani-Nhan deva, Guarani-Chiripá, Kadiwéu e Terena. Chamou atenção o aumento do registro de casos de indígenas assassinados nos estados da Bahia (15) e do Amazonas (10). Das 70 vítimas, 17 eram do sexo feminino e tinham idades entre 6 e 59 anos. Duas crianças do sexo feminino, de 6 e 8 anos, estão entre as vítimas. As outras 54 pessoas, do sexo masculino, tinham idade entre 2 e 78 anos. Do total de vítimas, incluindo homens e mulheres, 10 eram menores, e tinham idade entre 2 e 16 anos.

Pelo menos 21 mortes ocorreram em decorrência de brigas e/ou consumo de álcool. Em seis casos as mortes ocorreram diretamente em virtude de conflito fundiário. Predominou o uso de armas brancas, com 20 casos, e armas de fogo, com 25 ocorrências. Dentre os casos envolvendo conflito fundiário, desta camos um que ocorreu no estado da Bahia. Na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, indígenas estavam em suas casas, numa área retomada na comunidade Serra das Trempes, próximo à estrada, quando pistoleiros invadiram a aldeia, atirando e destruindo tudo. No momento do ataque, a vítima estava dormindo e não conseguiu fugir, sendo assassinada com mais de 20 tiros. Em Mato Grosso do Sul, a Guarani-Kaiowá Marinalva Manoel, de apenas 27 anos, foi encontrada jogada à beira da BR-163. A indígena foi brutalmente assassinada com 35 facadas. Importante lutadora pela demarcação da terra indígena de Nu Porã, a jovem integrou uma comitiva que esteve em Brasília 15 dias antes de ser assassinada. Veio manifestar repúdio à decisão do STF quanto à anulação do processo de demarcação da Terra Indígena Guyraroká. O Conselho da Aty Guasu emitiu uma carta direcionada ao MPF, em Dourados, e à 6ª Câmara do MPF, em Brasília, informando a morte da liderança Kaiowá e cobrando providências. Chamou atenção também o assassinato de uma adoles cente do povo Ka’apor, ocorrido no município de Para gominas, no Pará. Assassinada de forma cruel, depois de ter sido estuprada, seu corpo foi perfurado com várias facadas. Nenhuma providência foi tomada pelas autori dades. Segundo os indígenas, o silêncio impera sobre a morte da jovem que morava na aldeia Xiepíhurenda, no município de Centro Novo do Maranhão. 



SALVADOR CRUZ

  Salvador Cruz foi um operário nascido em Campos, Rio de Janeiro. Foi anarquista e depois comunista.