Na década de 1940 houve uma grande campanha de regularização
das terras pela escrita. Isso ocorreu no Piauí e também no resto do Brasil. A
lei dizia que as pessoas que ocupavam a terra seriam chamadas de posseiros.
Essa lei colocou um nome, coisificou essas pessoas. Não éramos posseiros,
éramos pessoas… O que isso significou para nós?
A partir do momento em que a lei diz que somos posseiros, ela
está cumprindo um papel importante para o colonialismo. O colonialismo nomina
todas as pessoas que quer dominar. Às vezes fazemos a mesma coisa sem perceber:
quando temos um cachorro, por exemplo, damos a ele um nome, mas não um
sobrenome. Os colonialistas dão um nome, mas não dão um sobrenome porque o
sobrenome é o que expressa o poder. O nome coisifica, o sobrenome empodera.
Então, ao nos chamar de posseiros, nos colocaram em uma situação de dominação,
obrigando-nos a cumprir os contratos que a nominação de posseiros nos impunha.
Os contratos do nosso povo eram feitos por meio da oralidade,
pois a nossa relação com a terra era através do cultivo. A terra não nos
pertencia, nós é que pertencíamos à terra. Não dizíamos “aquela terra é minha”
e, sim, “nós somos daquela terra”. Havia entre nós a compreensão de que a terra
é viva e, uma vez que ela pode produzir, ela também precisa descansar. Não
começamos a titular nossas terras porque quisemos, mas porque foi uma imposição
do Estado. Se pudéssemos, nossas terras ficariam como estão, em função da vida.
‘ O poder quilombola sobre
as terras é um poder baseado na palavra, na atitude, na relação – e não na
escrita. Quando o Estado veio para demarcar as terras, meu avô se recusou,
dizendo: “Como vamos demarcar uma coisa que já é nossa?”. Assim, os brancos chegaram,
compraram as terras e nós perdemos o direito sobre elas. Mesmo os mais velhos
que, naquela época, haviam demarcado as suas terras, ao morrerem as perderam
porque os seus herdeiros não fizeram inventários.
A maioria das terras das comunidades tradicionais no Brasil
são consideradas espólios, pois ninguém fez escritura. Mas se hoje em dia nós
fazemos, porque nos é imposto, tem algo mais grave implicado. Para fazer o
título é preciso ter um laudo antropológico – mesmo com a lei dizendo que ser
quilombola é autodeclaratório – e um laudo agronômico. É a mais sofisticada
utilização da inteligência do Estado para identificar o perfil da resistência.
Por que precisaríamos
de um antropólogo para nos diagnosticar, ler os costumes, as tradições, a nossa
cultura? Porque quem mais ameaça hoje o sistema são os povos e comunidades
tradicionais, pois somos donos de um saber transmitido espontaneamente pela
oralidade, sem cobrar nada por isso.
O nosso povo, por não saber ler, não sabia como funcionavam
as escrituras, perdendo assim muitas possibilidades de viver nas suas terras.
Então o nosso povo resolveu que alguém de nós deveria saber ler e escrever para
enfrentar essa situação. Fui formado para isso e faço isso até hoje. Por isso
digo que não sou um pensador, mas um tradutor do pensamento do meu povo. E para
o meu povo também sou um tradutor do pensamento do colonialista.
Quando estamos discutindo colonização, quilombos, seus modos
e significações, nós estamos tentando compreender o que faz o colonialista
pensar como pensa e como devemos pensar para não nos comportarmos como ele.
Nosso povo foi trazido de África para cá. Diferentemente dos
nossos amigos indígenas, que foram atacados em seu território podendo falar
suas línguas, cultivar suas sementes, dialogar com seu ambiente. Nós fomos
tirados dos nossos territórios para sermos atacados no território dos
indígenas. E aí nós precisávamos e precisamos – e temos conseguido – ser muito
generosos. Porque mesmo tendo sido trazidos para o território dos indígenas,
nós não disputamos o território com eles. Nós disputamos com o colonialista o
território que eles tiraram dos indígenas, e isso nos dói. Mas precisamos fazer
isso. Senão, onde vamos viver?
A surpresa para os colonialistas e a felicidade para nós é
que, quando nós chegamos ao território dos indígenas, encontramos modos
parecidos com os nossos. Encontramos relações com a natureza parecidas com as
nossas. Houve uma grande confluência nos modos e nos pensamentos. E isso nos
fortaleceu. E aí fizemos uma grande aliança cosmológica, mesmo falando línguas
diferentes. Pelos nossos modos, a gente se entendeu.
Fui orientado pelos nossos mais velhos a tentar compreender
por que o povo colonialista faz isso com outro povo. Eu fui pela Bíblia, eu fui
pelo que eles escreveram. E encontrei na Bíblia, no Gênesis, uma boa
explicação. “O Deus Jeová disse ao homem: por que tu me desobedeceste? A terra
será maldita por tua causa. Tu haverás de comer com a fadiga do suor do teu
rosto. A terra te oferecerá espinhos e erva daninha. E todos os teus
descendentes serão perpetuamente amaldiçoados”.
Nesse momento, esse deus da Bíblia do colonialista – melhor
dizendo, eurocristão monoteísta – desterritorializou um povo. Se ele amaldiçoou
a terra para aquele povo, este povo não poderia nem tocar naquela terra. Se ele
disse que aquela terra estava oferecendo ervas daninhas e espinhos, ele disse
que aquele povo não podia comer nem dos frutos, nem das folhas, nem de nada que
aquela terra oferecia.
Se ele disse que aquele povo tinha que comer com a fadiga do
suor do seu rosto, nesse momento ele criou o trabalho como ação de sintetização
da natureza. Ao mesmo tempo ele criou também uma doença que eu chamo de
cosmofobia. O medo do cosmo, o medo de deus. Esse povo eurocristão monoteísta
se sente desesperado.
Mas nós tivemos que aprender também a conviver com esse deus.
E até o aceitamos. Porque, se é deus, deve ser bom. Então, além de ter nossas
deusas e nossos deuses, nós ainda temos esse deus. E aí foi onde eles começaram
a perder. Porque eles só têm um deus e ainda dividiram com a gente. E nós temos
vários. Como eles só têm um deus, eles só olham numa direção. Então o olhar
deles é vertical, é linear, não faz curva. Assim é o pensar e o fazer deles.
Como nós temos várias divindades, conseguimos olhar e ver a nossa divindade em
todos os cantos. Vemos de forma circular, pensamos e agimos de forma circular
e, para nós, não existe fim, sempre demos um jeito de recomeçar.
Nosso pensamento é um pensamento que nos permite dimensionar
melhor as coisas, os movimentos e os espaços. Nos espaços circulares cabe muito
mais do que nos espaços retangulares. E isso nos permite conviver bem com a
diversidade e nos permite sempre achar que o outro é importante, que a outra é
importante. A gente sempre compreende a necessidade de existirem as outras
pessoas.
O povo afro inventou a capoeira. Os eurocristãos inventaram o
futebol. Tem um jogo no Mineirão e digamos que tenha 40 mil pessoas nas
arquibancadas e 22 pessoas no campo. Digamos que o Cruzeiro e o Atlético estão
jogando hoje e o Neymar veio assistir ao jogo. Saiu lá da Europa para assistir
ao jogo. Num determinado momento, o time para o qual o Neymar torce está
perdendo, e ele pede para entrar no jogo. Pode? Como é que o Neymar, torcendo
para um time, quer defender este time e não pode entrar em campo?
Vamos para o outro lado. Tem uma roda de capoeira, e agora
vem um europeu, que nunca viu a capoeira. Tem 50 pessoas jogando capoeira, e
esse que nunca viu a capoeira pede para entrar. Pode? A capoeira é rodando, o
samba é rodando, o batuque, a gira nos terreiros de umbanda e de candomblé…
Tudo para nós é rodando. Tudo para os colonizadores é linear. É um olhar
limitado a uma única direção.
Os quilombos são perseguidos exatamente porque oferecem uma
possibilidade de viver diferente. Não é por conta da cor da nossa pele. Nos
documentos da Igreja que eu avaliei, as autorizações e as permissões para que
povos fossem escravizados não dizem a cor da pele desses povos, dizem a
religiosidade. A bula de 1455 do Papa Nicolau V diz que quem deve ser
escravizado são os pagãos e os sarracenos. Ela não diz que é preto, nem branco,
nem indígena. São os pagãos. São os povos que têm uma cosmologia. Que povos são
esses? São povos que continuam comendo dos frutos das árvores. São povos que
não obedeceram à orientação do deus eurocristão. São povos que não sentem
obrigação de trabalhar. São povos que não precisam comer com a fadiga do suor,
porque a natureza já oferta a comida.
Conceitos que achamos que se parecem muito com os de “bem
viver” e de “viver bem” são o “viver de forma orgânica” e o “viver de forma
sintética”. Bem viver é viver de forma orgânica e viver bem é viver de forma
sintética. Compreendemos que há um saber orgânico e um saber sintético.
Enquanto o saber orgânico é o saber que se desenvolve
desenvolvendo o ser, o saber sintético é o que se desenvolve desenvolvendo o
ter. Somos operadores do saber orgânico e os colonialistas são operadores do
sintético.
Quando o deus dos brancos disse que a terra estava
amaldiçoada por causa de Adão e Eva e que comeriam com a fadiga do suor, ele
disse que não poderiam desfrutar da natureza como ela se apresenta. Logo, eles
precisariam sintetizar tudo. E assim eles saíram mundo afora sintetizando –
inclusive a si próprios. Grande parte do pensamento dos brancos é sintetizado.
O pensamento produzido nas academias é um pensamento
sintético. É um saber voltado para a produção de coisas. O pensamento
operacionalizado pela escrita é um pensamento sintético, desconectado da vida.
Já o nosso pensamento, movimentado pela oralidade, é um pensamento orgânico.
O ser tem pouco valor no saber sintético, apesar de ser o
criador do ter. Já o ter é a criatura que devora o seu criador. As pessoas
atuam sempre em função do ter. Até a biologia está se tornando sintética. Logo
vocês vão comer bife sem precisar de boi…
A nossa avaliação é que, neste exato momento, estamos
vivenciando uma das maiores possibilidades de um fim desse mundo eurocristão,
monoteísta, colonialista e sintético. Esse mundo está chegando ao fim. Não é à
toa que estamos vivendo esse desespero, essa grande confusão. Mas, por incrível
que pareça, estamos vivendo também uma nova confluência.
Trabalho com os conceitos de “confluência” e “transfluência”.
Confluência foi um conceito muito fácil de elaborar porque foi só observar o
movimento das águas pelos rios, pela terra. Transfluência demorou um pouco mais
porque tive que observar o movimento das águas pelo céu. Para entender como um
rio que está no Brasil conflui com um rio que está na África eu demorei muito
tempo. E percebi que ele faz isso pela chuva, pelas nuvens. Pelos rios do céu.
Então, se é possível que as águas doces que estão no Brasil cheguem à África
pelo céu, também pelo céu a sabedoria do nosso povo pode chegar até nós no
Brasil.
É por isso que, mesmo tentando tirar nossa língua, nossos
modos, não tiraram a nossa relação com o cosmo. Não tiraram a nossa sabedoria.
É por isso que nós conseguimos nos reeditar de forma sábia, sem agredir os
verdadeiros donos desse território que são os irmãos indígenas. Nós tivemos
essa capacidade porque os nossos mais velhos que estavam em África, apesar de
sermos proibidos de voltar para lá, vieram pela cosmologia. Isso é o que nós
chamamos de transfluência.
Tanto os quilombolas quanto os indígenas do Brasil só
passaram a ser sujeitos de direito na Constituição de 1988. Até essa
Constituição, ser quilombola era ser criminoso e ser indígena era ser selvagem.
A Constituição de 1988 disse que nós temos direito a regularizar as nossas
terras pela escrita – o que é uma agressão, porque pela escrita nós passaríamos
a ser proprietários da terra. Mas os nossos mais velhos nos ensinaram a lidar
com essa agressão.
Se as cidades, com todas as suas armas, não vivem em paz, e
nós da comunidade vivemos em paz sem as armas, logo vê-se que não são as armas
que resolvem os problemas. Por isso meu tio Antônio dizia para transformarmos
as armas em defesa. Mãe Joana, também uma das minhas grandes mestras, dizia que
a vasilha de dar é a mesma de receber. Logo, se eu te aponto um revólver é
porque tenho medo de um revólver. E essa disputa não tem fim.
Assim, discutir a regularização das terras pela escrita não
significa concordar com isto, mas significa que adotamos uma arma do inimigo
para transformá-la em defesa. Porque quem vai dizer se somos quilombolas não é
o documento da terra, é a forma como vamos nos relacionar com ela. E nesse
quesito nós e os indígenas confluímos. Confluímos nos territórios, porque nosso
território não é apenas a terra, são todos os elementos.
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