O anarquismo está presente na Bolívia desde o início do século 20. Diferente da Argentina, do Brasil e do Uruguai, onde o anarquismo de base europeia era mais forte, o anarquismo boliviano teve na presença dos povos originários a sua peculiaridade. No país andino, o anarquismo influenciou, e foi muito mais influenciado pelos aimarás, quéchuas, guaranis e as cholas da Bolívia. Uma das principais figuras do anarquismo boliviano foi Petronila Infantes, la Doña Peta.
Ela liderou o Sindicato de Culinária em La Paz e era bastante influenciada pelo anarco-sindicalismo. Petronila Infantes era uma Chola. Las Cholas são mulheres indígenas e mestiças que vivem na Bolívia e se caracterizam pelas saias longas, tranças e chapéu. Esta indumentária foi imposta pelos colonizadores, mas hoje foi ressignificada e virou símbolo de resistência indígena. Petronila e outras anarquistas indígenas, como Rosa Rodriguez e Catalina Mendoza, lideraram diversos movimentos insurgentes na capital boliviana. Uma dessas ações visava acabar com a proibição de trafegar em bondes impostas as cholas. Hoje, as cholas são consideradas as fundadoras e guardiãs da culinária boliviana. Suma Qumaña. Sumak Kawsay!
Os dois conceitos acima são sinônimos de viver bem. São conceitos da filosofia aimará e são alternativas ao individualismo, à agressividade e competitividade da sociedade liberal. Suma Qumaña é um projeto do agora. Não é uma utopia futurista que se implantada viria a reformar e melhorar a humanidade. O Suma Qumaña se baseia no respeito implantado agora, no presente. É pura tradição aimará. É uma forma de convivência entre o próximo e com a natureza de forma ética e respeitável. É a filosofia essencial dos povos aimarás. É mais que solidariedade entre classes. É uma noção de ligação com a natureza e com outros seres humanos.
As filosofias aimarás são antecessoras ao anarquismo e ao socialismo. Ou seja, os movimentos operários bolivianos tiveram muito mais influência de conceitos ancestrais do que do anarquismo e socialismo europeu. É uma prática e filosofia decolonial, pois não vê os outros como seres e culturas a serem eliminadas ou apagadas. É uma filosofia de resistência. Reconhece e valoriza a diversidade. Se nega a inclinar-se a culturas impositivas e agressivas. É ser ético com a natureza e com os outros.
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