O projeto
Iluminista convenceu quase todo o mundo de que a Europa e, mais tarde, os EUA
são os portadores da verdade. Dessacralizou montes, rios e animais, não apenas
para “conhecer melhor”, mas para torná-los “coisas” e “matérias-primas” de
fácil mercantilização. O conhecimento artificial e científico iluminista
apartou os indivíduos da natureza.
O
cientificismo também convenceu muita gente de que existiam raças humanas
hierarquizadas em graus de superioridade e inferioridade. Claro que os
europeus, inventores desta hierarquia, se colocaram no topo do pódio. Tomaram para
si a noção linear de tempo cristã. No lugar do “paraíso”, a Humanidade alcançaria
o Progresso. O povo escolhido, eram os europeus. Em vez de Deus, a Ciência. Em
vez da fé, a razão.
A Ciência
iluminista se espalhou pelo mundo nos mesmos navios e vagões que levavam
colonizadores, escravagistas, administradores, latifundiários, etc. Tal
conhecimento operou e ainda opera como o imperialismo europeu: dissolvendo
costumes tradicionais e saberes orgânicos de povos originários,
impondo um conhecimento estranho a estes povos.
O
anarquismo é o filho rebelde do Iluminismo. Foi um dos primeiros movimentos iluministas
a criticar o próprio Iluminismo. Certas características do anarquismo, porém, carregam
ainda consigo muito do eurocentrismo: a crença na razão iluminista superiora a
outras epistemes não europeias; o modelo de homem
racional/revolucionário/ocidental; a crença cega no evolucionismo de base
eurocêntrica, entre outras. Este projeto fechado em si mesmo, prejudica a
reconstrução coletiva do anarquismo.
Para
poder dialogar com as lutas contemporâneas, o anarquismo necessita abandonar de
vez o seu antigo projeto cientificista, linear e eurocêntrico. Abandonar o
modela sistêmico arborescente, onde o conhecimento “cresce” a partir de um
tronco fundador, isolado e imutável, e adotar um modelo rizomático de
construção de saber e de prática libertárias.
O rizoma
é um conceito da dupla de filósofos Deleuze e Guatarri. Descentralizado, o rizoma
não tem hierarquia. É uma estrutura típica de coletivos anarquistas,
associações libertárias e movimentos artísticos. O estado, as associações
hierárquicas, as instituições tradicionais operam de acordo com o modelo
“arborescente”, com o tronco representando uma autoridade central. Várias
filosofias não-ocidentais se abrem para a construção e recepção de
conhecimento, como as filosofias ubuntu (bantu) e tekoá (guarani),
por exemplo.
O
pensamento rizomático opera em conjunto com a tática da máquina de guerra. As máquinas
de guerra são manifestações rizomáticas. Uma máquina de guerra é um
conceito que nada tem a ver com qualquer sentido militarista ou bélico. Na
verdade, trata-se de um conceito de caráter anti-militarista e anti-autoritário.
Trata-se de formas de resistências nômades e temporárias.
As
máquinas nômades abrem caminhos e operam através de associações libertárias que
funcionam de forma descentralizada, autônoma e horizontal. São práticas e
agrupamentos que a todo o momento se insurgem contra a formação de hierarquias
bem como a submissão a estas mesmas hierarquias: blocos autônomos de
carnaval, bibliotecas comunitárias, coletivos em favelas e periferias,
sabotagens, mutirões, boicotagem.
As Zonas
Autônomas Temporárias (TAZ), detalhadas por Hakim Bey, são exemplos de
Territórios e experiências rebeldes, mas que não visam uma revolução no sentido
clássico. Não pretendiam a criação de um estado revolucionário nos moldes de
Cuba ou URSS. Sociedades secretas,
Hacktivismo, piratas, quilombos, Confederações Indígenas, Zapatistas, Rojava,
Mapuches, coletivos anarquistas vão se fazendo comunidades horizontais de
acordo com as demandas, conflitos e experiências cotidianas.
A
essência do Estado é a dominação e submissão de povos, a formação de
territórios, a imposição de línguas, identidades e costumes. É a eliminação da
diversidade. É a exploração e a demonização do outro. É o principal motor da necropolítica:
deixar morrer aqueles que não se “adequam” ao estado. As máquinas de guerra, ao
contrário, traçam rotas de fugas, inventam novas línguas e identidades.
Nenhum comentário:
Postar um comentário