segunda-feira, 13 de julho de 2026

Anarquismo Rizomático

 

AYA - Adinkra da Resistência.

O projeto Iluminista convenceu quase todo o mundo de que a Europa e, mais tarde, os EUA são os portadores da verdade. Dessacralizou montes, rios e animais, não apenas para “conhecer melhor”, mas para torná-los “coisas” e “matérias-primas” de fácil mercantilização. O conhecimento artificial e científico iluminista apartou os indivíduos da natureza.

O cientificismo também convenceu muita gente de que existiam raças humanas hierarquizadas em graus de superioridade e inferioridade. Claro que os europeus, inventores desta hierarquia, se colocaram no topo do pódio. Tomaram para si a noção linear de tempo cristã. No lugar do “paraíso”, a Humanidade alcançaria o Progresso. O povo escolhido, eram os europeus. Em vez de Deus, a Ciência. Em vez da fé, a razão.

A Ciência iluminista se espalhou pelo mundo nos mesmos navios e vagões que levavam colonizadores, escravagistas, administradores, latifundiários, etc. Tal conhecimento operou e ainda opera como o imperialismo europeu: dissolvendo costumes tradicionais e saberes orgânicos de povos originários, impondo um conhecimento estranho a estes povos.

O anarquismo é o filho rebelde do Iluminismo. Foi um dos primeiros movimentos iluministas a criticar o próprio Iluminismo. Certas características do anarquismo, porém, carregam ainda consigo muito do eurocentrismo: a crença na razão iluminista superiora a outras epistemes não europeias; o modelo de homem racional/revolucionário/ocidental; a crença cega no evolucionismo de base eurocêntrica, entre outras. Este projeto fechado em si mesmo, prejudica a reconstrução coletiva do anarquismo.

Para poder dialogar com as lutas contemporâneas, o anarquismo necessita abandonar de vez o seu antigo projeto cientificista, linear e eurocêntrico. Abandonar o modela sistêmico arborescente, onde o conhecimento “cresce” a partir de um tronco fundador, isolado e imutável, e adotar um modelo rizomático de construção de saber e de prática libertárias.

O rizoma é um conceito da dupla de filósofos Deleuze e Guatarri. Descentralizado, o rizoma não tem hierarquia. É uma estrutura típica de coletivos anarquistas, associações libertárias e movimentos artísticos. O estado, as associações hierárquicas, as instituições tradicionais operam de acordo com o modelo “arborescente”, com o tronco representando uma autoridade central. Várias filosofias não-ocidentais se abrem para a construção e recepção de conhecimento, como as filosofias ubuntu (bantu) e tekoá (guarani), por exemplo.

O pensamento rizomático opera em conjunto com a tática da máquina de guerra. As máquinas de guerra são manifestações rizomáticas. Uma máquina de guerra é um conceito que nada tem a ver com qualquer sentido militarista ou bélico. Na verdade, trata-se de um conceito de caráter anti-militarista e anti-autoritário. Trata-se de formas de resistências nômades e temporárias.

As máquinas nômades abrem caminhos e operam através de associações libertárias que funcionam de forma descentralizada, autônoma e horizontal. São práticas e agrupamentos que a todo o momento se insurgem contra a formação de hierarquias bem como a submissão a estas mesmas hierarquias: blocos autônomos de carnaval, bibliotecas comunitárias, coletivos em favelas e periferias, sabotagens, mutirões, boicotagem.

As Zonas Autônomas Temporárias (TAZ), detalhadas por Hakim Bey, são exemplos de Territórios e experiências rebeldes, mas que não visam uma revolução no sentido clássico. Não pretendiam a criação de um estado revolucionário nos moldes de Cuba ou URSS.  Sociedades secretas, Hacktivismo, piratas, quilombos, Confederações Indígenas, Zapatistas, Rojava, Mapuches, coletivos anarquistas vão se fazendo comunidades horizontais de acordo com as demandas, conflitos e experiências cotidianas.

A essência do Estado é a dominação e submissão de povos, a formação de territórios, a imposição de línguas, identidades e costumes. É a eliminação da diversidade. É a exploração e a demonização do outro. É o principal motor da necropolítica: deixar morrer aqueles que não se “adequam” ao estado. As máquinas de guerra, ao contrário, traçam rotas de fugas, inventam novas línguas e identidades.

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