domingo, 12 de julho de 2026

A CONFEDERAÇÃO AFRICANA (1922) - Mário Domingues

 


A CONFEDERAÇÃO AFRICANA

A Batalha, 13 de julho de 1922

Mário Domingues

Pedir a um negro fidelidade a pátria portuguesa é obrigar o tiranizado a beijar o tirano, o roubado a abraçar o ladrão!

Ainda vamos a meio desta campanha formidável contra a iniquidade. Ainda não passamos ante os olhos assombrados do povo que nos lê, as infâmias e as injustiças praticadas nas outras províncias ultramarinas portuguesas.  Ainda não trouxemos a público a maneira de que certos roceiros e negociantes muito considerados fizeram as suas fortunas espantosas; ainda não nos referimos ao cacau dos escravos – epopeia dolorosa de miséria e de trabalho; ainda não provamos publicamente de que forma os governos da metrópole ocultam os crimes que as autoridades, os comerciantes, os exploradores semeiam por toda a África.

E já nos perguntam com assombro se um tal estado de coisas pode continuar, se perante tanta arbitrariedade monstruosa os negros, a legião de escravos não se levantará em peso num gesto unânime, energético e violento uma rebelião indomável contra a tirania, contra o poder dos ladrões, contra o domínio dos imbecis condecorados, vaidosos de sua civilização bárbara!

A estes curiosos bem intencionados, cujo o coração bondoso tem palpitado de emoção sincera a cada revelação que nestas colunas temos feito; a esses cujo os sonhos de liberdade, de paz e de justiça foi despertado pela nossa pena revoltada, ao ser serviço de uma causa justa; a esses que desejam o triunfo da bondade, do amor e da beleza apontaremos apenas, para dar alento às suas formosas esperanças as revoltas que, cada vez mais precipitadas, se vão sucedendo no continente africano. Recordaremos, ao acaso, a última revolta no Transvaal, que atingiu uma violência enorme, que foi abafada em sangue.

Já depois desta revolta as antigas colônias alemãs foram agitadas violentamente pela rebelião. O subsolo do Congo Belga está todo revolvido, o menor estremeção fará cair, ruidosamente, o poderio da Bélgica, no continente negro. Pela Angola portuguesa anda o tato administrativo do senhor Norton de Matos fomentando a revolta. Estas revoltas periódicas que se verificam aqui e acolá, não são mais do que o prenuncio de uma revolução imensa que abaterá o poder, não apenas dum país, mas de todas as potências coloniais.

 Parece estar indicado que o movimento emancipador dos africanos tende a generalizar-se, aproximando-se de um ideal de uma confederação continental. Não estão as colônias portuguesas, infelizmente, tão adiantadas como as inglesas ou as alemãs em matéria revolucionária, mas as violências e perseguições que sobre elas pesam leva-las hão ao caminho do ideal emancipador. A tirania cria no tiranizado uma grande sede de liberdade.

A flor do ideal principia agora a desabrochar nas colônias portuguesas. Breve talvez -a continuarem os assassinatos e as extorsões a que temos feito referencias – a luta pela independência, luta franca e leal, começará a fazer sentir os seus efeitos. Irão daqui expedições patrióticas submeter o gentio rebelde, espalhar a morte e a injustiça pelos sertões. Os jornais apodarão os rebeldes de traidores da pátria, como se Portugal, com todas as suas iniquidades, com todos os seus abusos e violências pudesse ser considerado pátria pelos seus tiranizados, pelos escravos infelizes. O negro não pode ter deveres para com os pais que lhe rouba todos os direitos.

Bastas vezes tem sido o pobre preto iludido na sua boa fé patriótica. Ele não notava que o respeito pela pátria é a corrente dourada com que o amarram a escravidão. Quando o negro, farto de sofrer, esboça um gesto de revolta, logo os brancos espertos lhe dizem que a rebelião lesa os altos interesses da pátria, não apenas os altos interesses de governadores, dos roceiros, dos açambarcadores e de todos os categorizados mandriões que vão à África fazer fortuna a custa da miséria e da dor de uma legião incomensurável de escravos!

O negro não é português, inglês ou alemão. Isso são hábeis ficções inventadas para arrefecer o ânimo emancipador duma raça. O negro é apenas em África uma vítima da tirania portuguesa, inglesa, alemã ou belga. O seu interesse de vítima não está em defender estes países que nem sequer o tratam como homem; o seu interesse mais caro, é a eliminação de uma tirania- pouco se importando que essa liberdade lese os privilégios do opressor.

Recomendar a um negro de qualquer colônia portuguesa a submissão, a resignação perante as injustiças do poderio português, a fim de não lesar a pátria portuguesa, é o mesmo que recomendar paciência ao escravo para não prejudicar os interesses ilegítimos do negreiro, é como se disséssemos ao roubado que não se defendesse do ladrão. Os negros das colônias portuguesas não têm afinidade com os portugueses tiranos; têm-nas sim, e essas devem estreitá-las sempre, com os negros submetidos às tiranias de outros países.   Perante o imperialismo europeu em África- é preciso que isto se diga bem alto- não há negros portugueses, ingleses ou alemães, há negros simplesmente negros! Há negros amantes da liberdade e do progresso, que pretendem entrar no conjunto harmônico de uma humanidade livre de todas as opressões. Há homens que, como todos os homens, desejam viver em franca liberdade!

É esta ideia alta, bem alta, que paira acima dos interesses mesquinhos das pátrias opressoras, que conduz ao ideal belo da independência da África. Esse ideal será materializado no dia em que todas as colônias africanas, num movimento pleno de força, de justiça e de coesão, sacudam definitivamente o jugo europeu.

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