A
CONFEDERAÇÃO AFRICANA
A
Batalha, 13 de julho de 1922
Mário Domingues
Pedir a um negro fidelidade a
pátria portuguesa é obrigar o tiranizado a beijar o tirano, o roubado a abraçar
o ladrão!
Ainda vamos a meio desta campanha
formidável contra a iniquidade. Ainda não passamos ante os olhos assombrados do
povo que nos lê, as infâmias e as injustiças praticadas nas outras províncias
ultramarinas portuguesas. Ainda não
trouxemos a público a maneira de que certos roceiros e negociantes muito
considerados fizeram as suas fortunas espantosas; ainda não nos referimos ao
cacau dos escravos – epopeia dolorosa de miséria e de trabalho; ainda não
provamos publicamente de que forma os governos da metrópole ocultam os crimes
que as autoridades, os comerciantes, os exploradores semeiam por toda a África.
E já nos perguntam com assombro se um tal
estado de coisas pode continuar, se perante tanta arbitrariedade monstruosa os
negros, a legião de escravos não se levantará em peso num gesto unânime,
energético e violento uma rebelião indomável contra a tirania, contra o poder
dos ladrões, contra o domínio dos imbecis condecorados, vaidosos de sua
civilização bárbara!
A estes curiosos bem intencionados, cujo o
coração bondoso tem palpitado de emoção sincera a cada revelação que nestas
colunas temos feito; a esses cujo os sonhos de liberdade, de paz e de justiça
foi despertado pela nossa pena revoltada, ao ser serviço de uma causa justa; a
esses que desejam o triunfo da bondade, do amor e da beleza apontaremos apenas,
para dar alento às suas formosas esperanças as revoltas que, cada vez mais
precipitadas, se vão sucedendo no continente africano. Recordaremos, ao acaso,
a última revolta no Transvaal, que atingiu uma violência enorme, que foi
abafada em sangue.
Já depois desta revolta as antigas colônias
alemãs foram agitadas violentamente pela rebelião. O subsolo do Congo Belga
está todo revolvido, o menor estremeção fará cair, ruidosamente, o poderio da
Bélgica, no continente negro. Pela Angola portuguesa anda o tato administrativo
do senhor Norton de Matos fomentando a revolta. Estas revoltas periódicas que
se verificam aqui e acolá, não são mais do que o prenuncio de uma revolução
imensa que abaterá o poder, não apenas dum país, mas de todas as potências
coloniais.
Parece estar indicado que o movimento
emancipador dos africanos tende a generalizar-se, aproximando-se de um ideal de
uma confederação continental. Não estão as colônias portuguesas, infelizmente,
tão adiantadas como as inglesas ou as alemãs em matéria revolucionária, mas as
violências e perseguições que sobre elas pesam leva-las hão ao caminho do ideal
emancipador. A tirania cria no tiranizado uma grande sede de liberdade.
A flor do ideal principia agora a
desabrochar nas colônias portuguesas. Breve talvez -a continuarem os
assassinatos e as extorsões a que temos feito referencias – a luta pela
independência, luta franca e leal, começará a fazer sentir os seus efeitos. Irão
daqui expedições patrióticas submeter o gentio rebelde, espalhar a morte e a
injustiça pelos sertões. Os jornais apodarão os rebeldes de traidores da
pátria, como se Portugal, com todas as suas iniquidades, com todos os seus
abusos e violências pudesse ser considerado pátria pelos seus tiranizados,
pelos escravos infelizes. O negro não pode ter deveres para com os pais que lhe
rouba todos os direitos.
Bastas vezes tem sido o pobre preto iludido
na sua boa fé patriótica. Ele não notava que o respeito pela pátria é a
corrente dourada com que o amarram a escravidão. Quando o negro, farto de
sofrer, esboça um gesto de revolta, logo os brancos espertos lhe dizem que a
rebelião lesa os altos interesses da pátria, não apenas os altos interesses de
governadores, dos roceiros, dos açambarcadores e de todos os categorizados
mandriões que vão à África fazer fortuna a custa da miséria e da dor de uma
legião incomensurável de escravos!
O negro não é português, inglês ou alemão.
Isso são hábeis ficções inventadas para arrefecer o ânimo emancipador duma
raça. O negro é apenas em África uma vítima da tirania portuguesa, inglesa,
alemã ou belga. O seu interesse de vítima não está em defender estes países que
nem sequer o tratam como homem; o seu interesse mais caro, é a eliminação de
uma tirania- pouco se importando que essa liberdade lese os privilégios do
opressor.
Recomendar a um negro de qualquer colônia
portuguesa a submissão, a resignação perante as injustiças do poderio
português, a fim de não lesar a pátria portuguesa, é o mesmo que recomendar
paciência ao escravo para não prejudicar os interesses ilegítimos do negreiro,
é como se disséssemos ao roubado que não se defendesse do ladrão. Os negros das
colônias portuguesas não têm afinidade com os portugueses tiranos; têm-nas sim,
e essas devem estreitá-las sempre, com os negros submetidos às tiranias de
outros países. Perante o imperialismo europeu em África- é
preciso que isto se diga bem alto- não há negros portugueses, ingleses ou
alemães, há negros simplesmente negros! Há negros amantes da liberdade e do
progresso, que pretendem entrar no conjunto harmônico de uma humanidade livre
de todas as opressões. Há homens que, como todos os homens, desejam viver em
franca liberdade!
É esta ideia alta, bem alta, que paira
acima dos interesses mesquinhos das pátrias opressoras, que conduz ao ideal
belo da independência da África. Esse ideal será materializado no dia em que
todas as colônias africanas, num movimento pleno de força, de justiça e de
coesão, sacudam definitivamente o jugo europeu.
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