Nossos santos cristãos e outras pessoas de
boa índole levantam as mãos em horror, ao contemplar a prevalência do crime
entre as “classes mais baixas”. Crimes, ou atos não sociáveis entre as “classes
mais baixas”, são apenas um reflexo de crimes ou roubos das classes superiores
ou “melhores classes”. Nós roubamos nossos filhos antes que eles nasçam.
Quantos milhares, talvez milhões, de mães
entre a classe trabalhadora existem que veem mil e um artigos enquanto estão em
um estado de gravidez onde seu apetite anseia ou seu coração deseja e, ainda
assim, são incapazes de satisfazê-lo? Elas andam pelas ruas, admirando as
vitrines maravilhosas, tudo para atrair os olhos e causar ao coração o desejo,
ainda incapaz, devido à pobreza, de satisfazer tamanhos anseios naturais. Qual
é a consequência?
O filho ainda não nascido fica
impressionado, ele sente o mesmo desapontamento que a mãe sente; ele fica
impressionado por isso. Nós o assaltamos antes do nascimento. Ele adentra ao
mundo com uma natureza de cobiça não satisfeita. Essa tendência aumenta firmemente
com o passar dos anos; o desejo aumenta por causa da pobreza e, finalmente, a
criança estende a mão e toma a propriedade de alguém. Isso é roubo, é realizado
de forma ilegal; então a sociedade, pela primeira vez, demonstra interesse
nesse ser humano. Ela avança para punir a criança.
Está pronta agora para infligir tortura à
vítima do seu próprio sistema falso, antinatural e desumano. Quão melhor, mais
inteligente e barato teria sido tornar as condições naturais e sociais para que
a criança visse a luz da Terra sob as melhores condições possíveis ao invés de
— como é quase sempre o caso — sob as piores condições. Quão melhor isso seria
do que construir prisões enormes e sombrias, supervisionadas por carcereiros,
os quais enrijecem e corrompem suas naturezas ainda mais. E o caso também é
verdade para assassinatos, legais ou ilegais, ou linchamentos.
A mídia sensacionalista dá todos os
sangrentos detalhes de tais ocorrências em manchetes enormes gritantes. Elas
chamam a atenção de milhares de futuras mães; elas são impressionadas pelo
horror e seus detalhes e elas, por sua vez, impressionam seus filhos ainda não
nascidos. A criança nasce, atinge o estado de homem e mulher, alguma
adversidade cruza seu caminho e a antiga impressão pré-natal corre sobre ela e
uma terrível ação é cometida!
A comunidade se choca e imagina de onde
tamanho monstro poderia ter saído. Outro candidato se inicia para a prisão ou
para a forca. Assim, a longa procissão está sempre trilhando seu caminho
através dos tempos. A velha bruxa de cabeça grisalha, a sociedade, joga suas
mãos para cima em horror “sagrado” quando um dos seus filhos comete um ato
horrível. Ela nunca reconhece o fato de que é apenas um reflexo das suas
próprias maldades. O crime é apenas uma doença social.
Quando a sociedade se desenvolver o
suficiente para suplantar a prisão por escolas, pôr o professor no lugar do
carrasco e um tratamento generoso no lugar da punição e substituir a justiça e
bondade no lugar da brutalidade, nós ouviremos bem menos sobre “crimes e
criminosos”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário