FEDERALISMO
E CENTRALISMO
A PLEBE,
nº 257, 06/08/1927.
Domingos
Passos
A vida é o resultado da
associação natural das forças da natureza. Quando há miríades de séculos, os
habitantes do planeta já existentes observavam o espaço ao redor do nosso atual
Sol, eles haviam de descobrir uma pequena névoa, girando-lhe ao redor.
Com o perpassar monótono do tempo, aquela
névoa foi se unindo, congregando, solidificando, até adquirir uma forma que,
com os movimentos de rotação e revolução que lhe imprimiam as leis da gravidade
e a atração solar, tornou-se redonda e um pouco achatada nas extremidades. A
Terra é, portanto, o resultado da associação de forças e elementos diversos.
A água é também o resultado
da associação de diversos gases, entre eles o oxigênio e o hidrogênio. Os
corpos sólidos, líquidos e gasosos são, portanto, o resultado da associação de
gases e forças diversas. A vida, enfim, não existiria se a associação não fosse
uma verdade. É por isso que nenhuma razão ou lógica assiste aos individualistas
ou, mais acertadamente, aos egolatristas.
O homem, para não sofrer as
sanções da natureza, precisa estudar suas leis, para, com conhecimento de
causa, delas poderem auferir o máximo resultado possível. Contra as leis da
natureza, a vida tornar-se-ia em sofrimentos, torturas e morte. E a natureza
não perdoa nunca. A dor é o látego com que a natureza nos chama atenção para
todas as infrações de suas leis.
Por ela nos lembramos das
necessidades fisiológicas, por ela evitamos o fogo que abreviaria nossa vida, a
água que nos asfixiaria pela falta de oxigênio livre para nossos pulmões, etc.
Quantos suicídios não tem esse latejo natural evitado que se perpetrassem?
Nenhum homem chegaria a
velhice se a natureza não estivesse sempre alerta, com a fiscalização da dor,
para impedir que o gênero humano desaparecesse. Há tantos momentos nos quais
todos os homens se sentem dispostos a desertar da vida, que, apesar dessa sanção,
alguns conseguem fazê-lo.
É que a mãe Natura quer que a
vida seja bem vivida e o mais amplamente possível. A classe trabalhadora quer
viver, precisa viver e tem direito a viver. Para isto deve estudar as leis da
natureza e segui-las com o máximo conhecimento possível. A lei suprema da
natureza é a Harmonia.
Os trabalhadores modernos
querem a harmonia, para que a vida humana caminhe para a felicidade. Forças
diversas formam os elementos, elementos diversos formam as nebulosas, nebulosas
diversas evoluem até formar os mundos. Estudando estas forças nos elementos,
veremos que elas agem autonomamente e que, apesar de unidas, não perdem a sua
autonomia ou sua liberdade.
O oxigênio que se uniu ao
hidrogênio e hoje formou a água, nada perdeu de sua qualidade, de sua essência
a amanhã, naturalmente deixará o seu companheiro e irá alimentar a combustão do
organismo de algum peixe, transformado pelas guelras dele, sem que por isso
tenha também perdido suas qualidades intrínsecas.
É por isso que, querendo
viver de acordo com as leis da natureza, os trabalhadores optaram pelo
federalismo. Federalismo é uma doutrina que, ao contrário do Centralismo dos
políticos e dos sotaina, congregam homens diversos em organismos ou sociedades
na federação, sem perda da autonomia societária. Congregam ainda as federações
nas confederações e, estas, nas internacionais, mantendo impoluta a autonomia
em toda sua plenitude. Nada de escravidão: internacional, confederal, social ou
individual.
Tal qual as relações
existentes entre as constelações solares, os planetas, satélites, cometas, os
minerais, os vegetais, os animais, etc.
A vida enfim. Suprema harmonia, na qual
todos vivendo sua vida própria, concorrem para a vida total... O Centralismo,
ao contrário, é a negação da autonomia do indivíduo, colocada nas mãos do
presidente ou do presidium ou seu organismo ou partido político. Negação ainda
deste partido político ou organismo colocado nas mãos dos chefes da
Internacional...Internacional!!!?
Não, só erradamente ou
mistificadamente pode-se na linguagem centralista falar em federações,
confederações e internacionais ou internações. Em centralismo, formado o
partido ou seita, os chefes deste partido ou seita dão ordens e todos os seus
adeptos cumprem-nas sem hesitação, sem discussão.
Haja vista a Igreja Católica
Apostólica Romana, a mais formidável organização centralista que o mundo
possui. Na igreja, não há federação de católicos da China, França, Portugal ou
Brasil. Ela é a Igreja Católica Apostólica Romana em todo o mundo porque o
poder da igreja está centralizado nas mãos do Vaticano. Os partidos de atuação
religiosa, sabendo o quanto repugna ao povo trabalhador e aos homens pensantes
o centralismo, procuram mistificar as suas pretensões com os nomes de
federações, confederações e internacionais.
A federação e confederação
presume-se a reunião de indivíduos livres numa mesma cidade, região ou nação.
Internacional é o livre acordo estabelecido por cima das fronteiras ou divisão
política dos povos, é enfim, o auxílio mútuo praticado entre nações. Não, camaradas, a única doutrina compatível
com o desenvolvimento intelectual e social do século, é a negação da
escravidão, o estabelecimento da sociedade livre das peias que o obscurantismo
e a ignorância de um lado, e a desenfreada ambição do outro criaram. Unamo-nos, pois, ao redor do rubro pendão do
federalismo anárquico, para o estabelecimento de uma sociedade de iguais, onde
os chefes, presidiuns e presidentes sejam amargas recordações do passado.

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