domingo, 12 de julho de 2026

ORIGENS DO BEM-VIVER e EDUCAÇÃO PARA O BEM-VIVER - Ailton Krenak


A origem do Bem Viver tem uma importância tão grande, pois ela chegou para a maior parte de nós, aqui no Brasil, que temos uma língua, que é o Português, mediada por uma outra língua, que é o Espanhol ou Castelhano, fazendo referência a uma prática ancestral dos povos que viviam nessa cordilheira dos Andes.

 Eles são os nossos parentes Quechua, Aymara, uma constelação de povos que viveram séculos nessa cordilheira e que tinham, em comum, uma cosmovisão, em que essa cordilheira viva, cheia de montanhas e vulcões, todos aparentados uns dos outros, tem um significativo nome de Pachamama, Mãe Terra, coração da Terra. Os nossos parentes Quechua e Aymara têm, ambos, em suas línguas, com pequena diferença de expressão, uma palavra que é Sumak Kawsai.

“O Sumak Kawsai é uma expressão que nomeia um modo de estar na Terra, um modo de estar no mundo. Esse modo de estar na Terra tem a ver com a cosmovisão constituída pela vida das pessoas e de todos os outros seres que compartilham o ar com a gente, que bebem água com a gente e que pisam nessa terra junto com a gente. Esses seres todos, essa constelação de seres, é que constituem uma cosmovisão.”

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Sobre a educação, os sistemas que lideraram desde o século XIX, e no século XX, se configuraram mesmo com esse formato que são as escolas nos países todos. Eu acredito que essa experiência vai ser muito solicitada na pós-pandemia e vai ser exigida a se transformar em alguma coisa mais capaz de dar conta de uma realidade muito desfavorável.

 E seu funcionamento, esse modo de funcionar, vai ter que se abrir para outras perspectivas. Ele vai ter que se abrir para outras perspectivas e possibilidades de engajamento da rede familiar. Ele vai exigir uma espécie de colaboração entre os educadores.

Os educadores vão precisar engajar as famílias para dar conta do desafio para frente. Muito provavelmente esse formato que a gente teve, no século XX, chegou até agora, o formato escola, ele vai ter que se espraiar. Ele vai ter que ter outra configuração, incluindo essa experiência que estamos tendo de nos falar usando tecnologia. Vai ser muito provavelmente uma forte ampliação do uso de tecnologias, engajamento das famílias, e os educadores vão ter que ocupar um outro lugar, diferente do que eles ocuparam nesta sociedade predatória e de consumo que chegamos até agora.

Os educadores vão ter que reivindicar um outro lugar, que é um lugar de engajamento com as famílias na formação de pessoas. Nós não podemos mais continuar atendendo a esse pedido do mercado de formar profissionais, de formar técnicos, de formar gente para operacionalizar o sistema.

 Nós vamos ter que pensar em ajudar a formar seres humanos para habitar uma Terra viva, para a gente escapar do que o Bruno Latour chama de necropolítica. Se não formos capazes de nos inspirar para criar corpos vivos para uma Terra viva, nós não vamos experimentar o Bem Viver.

O Bem Viver são corpos vivos em uma 19 terra viva. A gente não pode incidir sobre a Terra como se a gente fosse uma máquina retroescavadeira. Nós não temos que formar técnicos. A gente tem que ajudar a formar seres humanos. A ideia de que o ser humano é alguma coisa dada, um evento que já está programado, é um erro. Seres humanos são constituídos. Na história do nosso povo, o corpo, a pessoa é uma realização social, desde quando a gente é sonhado.

Viemos para o mundo pela nossa família, da nossa mãe. Nós somos sonhados e depois somos acompanhados, espiritualmente, para a gente ser humano. Então o ser humano não é um evento, não é uma coisa que pipoca ali, pipoca aqui. Ele é uma construção. Na maioria de nossas histórias, a pessoa humana é uma construção. Então vamos pensar a educação como foi pensada até agora, ela precisa ir além para poder ajudar a criar e construir seres humanos para uma Terra viva. Seres vivos para uma terra viva.

Talvez o dano que a gente tenha cometido contra o Planeta, no século XX, é que a gente estava preparando técnicos e formando muitos técnicos, e a ideia era habilitar o humano para incidir sobre a vida na Terra. Tirar petróleo, furar plataforma continental, devastar a Floresta Amazônica, caçar ouro para todo lado, toda essa cosmovisão constituída de um Planeta cheio de concreto, viadutos, pontes, rodoviárias, metrôs. Essa parafernália toda é uma ofensa ao corpo da Terra. A Terra respira.

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