A origem do
Bem Viver tem uma importância tão grande, pois ela chegou para a maior parte de
nós, aqui no Brasil, que temos uma língua, que é o Português, mediada por uma
outra língua, que é o Espanhol ou Castelhano, fazendo referência a uma prática
ancestral dos povos que viviam nessa cordilheira dos Andes.
Eles são os nossos parentes Quechua, Aymara,
uma constelação de povos que viveram séculos nessa cordilheira e que tinham, em
comum, uma cosmovisão, em que essa cordilheira viva, cheia de montanhas e
vulcões, todos aparentados uns dos outros, tem um significativo nome de
Pachamama, Mãe Terra, coração da Terra. Os nossos parentes Quechua e Aymara
têm, ambos, em suas línguas, com pequena diferença de expressão, uma palavra
que é Sumak Kawsai.
“O Sumak
Kawsai é uma expressão que nomeia um modo de estar na Terra, um modo de
estar no mundo. Esse modo de estar na Terra tem a ver com a cosmovisão
constituída pela vida das pessoas e de todos os outros seres que compartilham o
ar com a gente, que bebem água com a gente e que pisam nessa terra junto com a
gente. Esses seres todos, essa constelação de seres, é que constituem uma
cosmovisão.”
***
Sobre a
educação, os sistemas que lideraram desde o século XIX, e no século XX, se
configuraram mesmo com esse formato que são as escolas nos países todos. Eu
acredito que essa experiência vai ser muito solicitada na pós-pandemia e vai
ser exigida a se transformar em alguma coisa mais capaz de dar conta de uma
realidade muito desfavorável.
E seu funcionamento, esse modo de funcionar,
vai ter que se abrir para outras perspectivas. Ele vai ter que se abrir para
outras perspectivas e possibilidades de engajamento da rede familiar. Ele vai
exigir uma espécie de colaboração entre os educadores.
Os
educadores vão precisar engajar as famílias para dar conta do desafio para
frente. Muito provavelmente esse formato que a gente teve, no século XX, chegou
até agora, o formato escola, ele vai ter que se espraiar. Ele vai ter que ter outra
configuração, incluindo essa experiência que estamos tendo de nos falar usando
tecnologia. Vai ser muito provavelmente uma forte ampliação do uso de
tecnologias, engajamento das famílias, e os educadores vão ter que ocupar um
outro lugar, diferente do que eles ocuparam nesta sociedade predatória e de
consumo que chegamos até agora.
Os
educadores vão ter que reivindicar um outro lugar, que é um lugar de
engajamento com as famílias na formação de pessoas. Nós não podemos mais
continuar atendendo a esse pedido do mercado de formar profissionais, de formar
técnicos, de formar gente para operacionalizar o sistema.
Nós vamos ter que pensar em ajudar a formar
seres humanos para habitar uma Terra viva, para a gente escapar do que o Bruno
Latour chama de necropolítica. Se não formos capazes de nos inspirar para criar
corpos vivos para uma Terra viva, nós não vamos experimentar o Bem Viver.
O Bem
Viver são corpos vivos em uma 19 terra viva. A gente não pode incidir
sobre a Terra como se a gente fosse uma máquina retroescavadeira. Nós não temos
que formar técnicos. A gente tem que ajudar a formar seres humanos. A ideia de
que o ser humano é alguma coisa dada, um evento que já está programado, é um
erro. Seres humanos são constituídos. Na história do nosso povo, o corpo, a
pessoa é uma realização social, desde quando a gente é sonhado.
Viemos para o mundo pela nossa família, da nossa mãe. Nós somos sonhados e depois somos acompanhados, espiritualmente, para a gente ser humano. Então o ser humano não é um evento, não é uma coisa que pipoca ali, pipoca aqui. Ele é uma construção. Na maioria de nossas histórias, a pessoa humana é uma construção. Então vamos pensar a educação como foi pensada até agora, ela precisa ir além para poder ajudar a criar e construir seres humanos para uma Terra viva. Seres vivos para uma terra viva.
Talvez o dano que a gente tenha cometido contra o Planeta, no século XX, é que a gente estava preparando técnicos e formando muitos técnicos, e a ideia era habilitar o humano para incidir sobre a vida na Terra. Tirar petróleo, furar plataforma continental, devastar a Floresta Amazônica, caçar ouro para todo lado, toda essa cosmovisão constituída de um Planeta cheio de concreto, viadutos, pontes, rodoviárias, metrôs. Essa parafernália toda é uma ofensa ao corpo da Terra. A Terra respira.
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