domingo, 6 de setembro de 2026

ASSASSINATO DE INDÍGENAS 2016 - CIMI

 Com base na Lei de Acesso à Informação (12.527/2011), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) requereu da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) dados relativos aos assassinatos de indígenas em todo o país ocorridos em 2016. Em resposta, a Sesai encaminhou um primeiro ofício informando dados preliminares sob a alegação de que as informações ainda estavam em processo de coleta. Diante de uma segunda solicitação do Cimi, a Sesai encaminhou um novo ofício com as mesmas informações repassadas anteriormente. Não satisfeito, o Cimi solicitou novamente uma nova consulta na base de dados. Como resposta a essa terceira solicitação, a Sesai encaminhou o Memorando 461/2017 reforçando “que os dados informados são preliminares, pois ainda estamos em processos diferentes nos Distritos – seja de captação, alimentação, qualificação e tratamento dos dados”. Alegou ainda o órgão que “quanto à cobertura dos dados solici tados, os óbitos foram estimados em aproximadamente 64% do valor esperado, destacando-se a baixa cobertura em menores de 1 ano, enquanto os nascidos vivos do ano de 2016, em 61% do valor esperado”. Insiste o órgão oficial: “Optamos por manter os valores absolutos e não aplicar os cálculos das taxas, considerando a baixa cobertura dos eventos, o tamanho populacional por distrito e para permitir uma melhor comparação com os dados fornecidos anteriormente”. 

Quanto ao número de indígenas assassinados em 2016, a Sesai encaminhou informações que correspondem a agressões, negligências e a maus tratos”, chegando a 118 óbitos distribuídos em 19 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei). Segundo a Sesai, “os dados ainda estão em processo de alimentação pelos Distritos”. Os dados não permitem uma análise mais aprofundada, visto que não foram apresentadas informações detalhadas das ocorrên cias, tais como faixa etária das vítimas, localidade, povo, etc. Dadas as especificadas dos povos indígenas, o Estado brasileiro necessitaria qualificar melhor os dados coletados sobre as ocorrências envolvendo tais comunidades. Chama atenção o número de óbitos registrados junto ao povo Yanomami. A Sesai informa a ocorrência de 44 óbitos por agressões na área de abrangência do Dsei Yanomami. Em 2015, foram notificados 59 óbitos por agressões. Em se confirmando os dados apresentados pela Sesai, é bastante grave a situação de violência entre o povo Yanomami pois haveria um total de 103 mortes por agressões em apenas dois anos. Não é possível fazer nenhuma análise mais aprofundada, visto que o órgão oficial não detalha as ocorrências, especialmente sobre quem são os agressores – índios ou não índios. De qualquer forma, é fato que a Terra Indígena Yanomami vem sofrendo invasões nos últimos anos, especialmente por parte de garimpeiros e a entrada de armas. Portanto, é evidente que a realidade de mortes entre o povo Yanomami precisa ser, urgentemente, enfrentada pelo poder público. Como em anos anteriores, o Mato Grosso do Sul continua com um elevado número de mortes por agressões. Foram registrados 18 óbitos no estado pela Sesai. Também chama atenção o número de óbitos na área de abrangência dos Dsei Ceará (11) e Maranhão (7).

Os dados coletados pelo Cimi, a partir de nossas equipes missionárias e dos meios de comunicação, indicam a ocorrência de 56 assassinatos. Foram registrados casos nos estados do Acre (1), Alagoas (1), Amazonas (6), Bahia (3), Maranhão (11), Mato Grosso do Sul (15), Minas Gerais (1), Pará (1), Paraná (3), Rio Grande do Sul (1), Rondônia (1), Roraima (6) e Santa Catarina (6). Das 56 vítimas, 12 eram do sexo feminino e tinham idades entre 3 e 56 anos. As outras 44 pessoas, do sexo masculino, tinham idade entre 2 e 58 anos. Do total de vítimas, incluindo homens e mulheres, 8 eram menores, e tinham idade entre 2 e 17 anos. Pelo menos 18 mortes ocorreram em decorrência de brigas e/ou consumo de álcool. Em 5 casos, observou-se que as mortes se deram em virtude de conflitos fundiários nos estados da Bahia, Maranhão e Mato Grosso do Sul. No Mato Grosso do Sul, o Cimi denunciou a morte do agente de saúde Clodiodi Aquileu, Guarani-Kaiowá, durante um ataque realizado contra o acampamento Kunumi Verá, no município de Caarapó. Em filmagens realizadas pelos próprios indígenas, é possível ver que muitas caminhonetes, motocicletas, cavalos e trator foram usados por pistoleiros e capangas que chegaram atirando contra o acampamento, queimando motos e outros pertences dos indígenas, que se dispersaram pelo território, em fuga. No ataque, outros seis indígenas ficaram feridos, incluindo uma criança. No estado do Maranhão dez indígenas do povo Guajajara e um do povo Gamela foram assassinados. Para as comuni dades, alguns dos assassinatos são represálias às lideranças que lutam contra a invasão e o desmatamento de seus terri tórios. 
Na Terra Indígena Arariboia, um grupo de proteção ao território foi criado em 2008, denominado de Guardiões da Floresta. Desde então, como represália dos madeireiros, a violência contra os indígenas se intensificou. A vítima do povo Gamela foi assassinada, alvo de três disparos de arma de fogo, quando retornava de uma retomada. Também chamou atenção o aumento no número de assassinatos ocorridos em Santa Catarina, com 6vítimas, todas do povo Kaingang. Em Roraima foram registradas 6 vítimas de assassinatos. Este mesmo número foi registrado no Amazonas. Em São Gabriel da Cachoeira, o corpo da estudante de 18 anos Cleide Lima Barbosa, do povo Piratapúya, foi encontrado em um terreno baldio e apresentava sinais de violência sexual e estrangulamento. Em Alagoas, João Natalício, do povo Xukuru-Kariri, foi assassinado com golpes de faca e disparos de arma de fogo. O indígena era um líder histórico do povo. No estado da Bahia, Luiz Viana Lima, do povo Tupinambá, foi morto em uma rodovia que liga os municípios de Buerarema e Una. Os tiros foram disparados por três indivíduos numa emboscada. Em Belo Horizonte, Minas Gerais, câmeras de segu rança registraram o brutal assassinato de um indígena de aproximadamente 55 anos de idade, que sobrevivia como morador de rua. A vítima era reconhecida como uma pessoa tranquila e pacífica e sem antecedentes criminais. Dormia na calçada quando um jovem se aproximou e iniciou um ataque covarde e cruel com chutes e mais de 20 pisadas em sua cabeça. O indígena ficou agonizando na calçada durante cinco horas. Levado ao hospital, não resistiu aos ferimentos.



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SALVADOR CRUZ

  Salvador Cruz foi um operário nascido em Campos, Rio de Janeiro. Foi anarquista e depois comunista.