No ano de 2009 foram registrados 60 assassinatos
de indígenas, número igual a 2008. Mais uma
vez a grande maioria dos casos – 33 - ocorreu no estado
de Mato Grosso do Sul, sendo que todas as vítimas
pertenciam ao povo Guarani Kaiowá. O número elevado
confirma a continuidade da violenta realidade vivida por
esse povo, que vem sendo registrada ao longo dos anos.
Além desses, foram registrados 2 assassinatos no
Acre, 7 na Bahia, 3 no Maranhão, 1 no Mato Grosso, 2 no
Paraná, 3 em Pernambuco, 3 no Rio Grande do Sul, 1 em
Rondônia, 1 em Roraima, 2 em Santa Catarina, 1 em São
Paulo e 1 no Tocantins.
Das vítimas, 52 eram do sexo masculino, sendo 11
menores de idade. Houve seis vítimas femininas, entre
as quais uma criança. Em dois casos não há registro a
respeito do gênero das vítimas.
Dentre os assassinatos registrados 17 foram – ou há
suspeita de que tenham sido – praticados por indígenas;
9 por não-indígenas e em 34 casos a autoria é desco
nhecida. 13 assassinatos foram resultado de brigas, das
quais 7 entre familiares ou pessoas aparentadas. Em 15
casos foi constatado abuso de álcool ou drogas. Há 4
casos que apresentam fortes suspeitas de envolvimento
com tráfico de drogas. Foram registrados 3 casos que
sugerem latrocínio.
Em 2, as vítimas foram estupradas
antes de ser assassinadas, sendo que uma delas era uma
criança do sexo feminino, que foi também mutilada.
Como nos anos anteriores predomina em 30 casos o
uso de armas brancas usadas, geralmente, por indígenas.
Houve 8 casos de espancamento e um caso de asfixia.
Merece destaque o aumento de uso de armas de fogo,
em 14 casos. Em 7 casos, o meio empregado é desconhe
cido ou não foi divulgado.
Chama atenção a morte de Agnaldo Brito do Espírito
Santo que estava preso na delegacia há um ano e meio
e tentou fugir no horário de visitas. Ao ser abordado por
um agente da recepção, ele teria reagido e o agente atirou
contra ele, alegando autodefesa. Dado que Agnaldo era
portador de deficiência mental, surge a dúvida se essa
reação não teria sido exagerada ou mesmo desneces
sária. Apesar de sua deficiência, estava preso numa cela
comum com outros presos.
Destacam-se os casos dos assassinatos ligados a
conflitos de terra.
O primeiro caso do ano foi o de Valmi
reide Zoromará, do povo Pareci, em Mato Grosso, lide
rança destacada na luta pela recuperação da terra indí
gena Estação Pareci, demarcada pelo Marechal Rondon.
Ela havia sofrido ameaças de morte por parte de pessoas
contrárias à demarcação.
Como nos anos anteriores, a situação dos Guajajara,
no Maranhão, continua preocupante, pois foram regis
trados 3 assassinatos. Na região, a tensão continua muito
grande por conflitos de terra e pela intensa atuação ilegal
de madeireiros nas terras indígenas. Há constantemente
ameaças, intimidações de indígenas, invasões de aldeias
e tiros contra as casas dos Guajajara.
Outro caso é o assassinato de Oswaldo Pereira Lopes,
da comunidade Kurusu Amba, no Mato Grosso do Sul,
no mês de maio, que foi levado de sua casa e, depois,encontrado morto. A Polícia Federal e a Funai demo
raram um dia para chegar ao local e a polícia registrou
o caso como acidente de trânsito, apesar das marcas de
tiros e facadas no corpo.
Em novembro de 2009 essa comunidade, depois de
quatro anos acampada nas margens da rodovia MS-289,
resolveu retornar à sua terra.
Dois dias depois, o adoles
cente Osmair Martins Ximenes (15) foi à aldeia Taqua
pery, a 6 km do acampamento, onde foi encontrado
morto, perto da escola, espancado e com sinais de
tortura. Testemunhas relatam a presença de um carro
desconhecido no local. A comunidade Kurusu Amba é
vítima de um histórico violento. Em 2007, a liderança
Julite Lopes, 70 anos, foi morta a tiros por seguranças
particulares durante desocupação da área. Em julho de
2007 foi assassinado outro líder do acampamento, Ortiz
Lopes.
Nos últimos cinco anos há um pico no número de
assassinatos em 2007, quando ocorreram 92 assassinatos
de indígenas no Brasil, mas há também uma constante
aproximada, em torno do número de 60 casos, bastante
alto, se forem considerados períodos anteriores. O
período destacado coincide com uma fase de ênfase no
desenvolvimento econômico brasileiro, culminando com
o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que tem
provocado inúmeros transtornos à população indígena,
como se pode constatar em outros capítulos do presente
relatório. A violência aumentou em todo Brasil, quiçá, na
mesma proporção do crescimento econômico, tão caro
ao governo do presidente Lula.
Mais uma vez, como nos anos anteriores, o grande
contraste entre Mato Grosso do Sul e os demais estados
do Brasil chama atenção e causa indignação, conforme
demonstra a tabela abaixo. Esses números mostram que a maior incidência de assassinatos de indígenas recai sobre o Mato Grosso do
Sul, chegando ao índice assustador de 70% em 2008,
perfazendo uma média de 36,8 casos por ano, enquanto
a média geral para todos os estados restantes juntos é
de 26. Reiteramos o que constatamos ao longo dos anos,
isto é, a estreita relação entre conflitos pela terra e a
violência, ou mais especificamente, entre a falta de
demarcação de terras indígenas e violência. Mato Grosso
do Sul é a maior expressão desta regra.
Os municípios onde foram registrados maior número
de assassinatos, Amambai, Dourados e Caarapó, têm
sido palco de inúmeras ocorrências violentas ao longo
do tempo. Nesses municípios estão localizadas algumas
das oito áreas destinadas aos Guarani Kaiowá entre
1915 e 1928, referentes aos locais de maior tensão
interna e forte confinamento, onde estão obrigadas
à convivência forçada inúmeras unidades sociais, os
tekoha, características da organização social desse povo.
São locais onde há alto índice de consumo de álcool,
consumo de drogas, furtos e violência sexual, tal como
vimos apontando nos relatórios de violência elaborados
pelo Cimi. A tensão interna e externa é recorrente e se
intensifica com o crescimento da população indígena.
Por um lado, o confinamento tem se intensificado em
função do aumento das grandes plantações, sobre
Foto: Egon Heck
tudo de cana.
Por outro lado, há uma resistência muito
grande, em todas as camadas da sociedade regional,
contra qualquer processo de regularização das terras
Guarani Kaiowá, que tende a crescer e se soma a um
forte preconceito e racismo contra os indígenas. Entre
tanto, as oportunidades de emprego diminuíram e,
nos empregos restantes, sobretudo o corte de cana, as
circunstâncias de trabalho pioraram, inclusive o salário.
O avanço da mecanização da safra da cana aperta ainda
mais o mercado de trabalho para os indígenas. O quadro
se completa por falhas e faltas nas áreas de educação,
saúde e assistência social.
Os altos números de assassinatos e tentativas de
assassinato são testemunhas desta realidade violenta. O
alto índice de suicídios, que de 2007 para 2008 quase
dobrou, completa esse quadro desolador.